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7 April, 2003 10:43
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Ascenso Ferreira
Ascenso
nasceu no dia 9 de maio de 1895 em Palmares, cidade
do interior de Pernambuco. Foi registrado como
Aníbal, mas em 1917 muda o nome para Ascenso
Carneiro Gonçalves Ferreira. Órfão
de pai aos 7 anos, teve em sua mãe, uma
professora primária abolicionista, sua
primeira e maior mestra. Aos treze anos já
trabalhava no comércio, na loja do seu
padrinho. Lá teve contato com viajantes
e suas estórias. Muito de sua infância
interiorana estão em memoráveis
poemas como em Minha Escola:
A escola que eu freqüentava era cheia de
grades como as prisões.
E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário;
Complicado como as Matemáticas;
Inacessível como Os Lusíadas de
Camões!
À sua porta eu estacava sempre hesitante...
De um lado a vida.. - A minha adorável
vida de criança:
Pinhões... Papagaios... Carreiras ao sol...
Vôos de trapézio à sombra
da mangueira!
Saltos da ingazeira pra dentro do rio...
Jogos de castanha...
- O meu engenho de barro de fazer mel!
Do outro lado, aquela tortura:
"As armas e os barões assinalados!"
- Quantas orações?
- Qual é o maior rio da China?
- A 2 + 2 A B = quanto?
- Que é curvilíneo, convexo?
- Menino, venha dar sua lição de
retórica!
- "Eu começo, atenienses, invocando
a proteção dos deuses do Olimpo
para os destinos da Grécia!"
- Muito bem! Isto é do grande Demóstenes!
- Agora, a de francês:
- "Quand le christianisme avait apparu sur
la terre..."
- Basta.
- Hoje temos sabatina...
- O argumento é a bolo!
- Qual é a distância da Terra ao
Sol?
- ?!!
- Não sabe? Passe a mão à
palmatória!
- Bem, amanhã quero isso de cor....
Felizmente, à boca da noite,
eu tinha uma velha que me contava histórias...
Lindas histórias do reino da Mãe-d'Água...
E me ensinava a tomar a benção à
lua nova.
Foram
essas "lindas histórias" que
Ascenso usou para compor uma verdadeira rapsódia
poética nordestina. São poemas com
gosto da terra, de "Cana Caiana", de
"Bumba-Meu-Boi", "Cavalhada",
"Maracatu", "Mulata Sarará",
"Xangó", "Xenhenhém"...
Sua temática é a vida nordestina,
e seus versos são de uma naturalidade que
poucos alcançaram, como os de Manuel Bandeira
e José Lins do Rego na prosa.
Tão
natural que pula entre versos livres e metrificados,
chegando até mesmo a fechar com chaves-de-ouro.
Une o verso metrificado com o livre, com rima,
toada e cadência própria de forma
espontânea, como se "já tivesse
vindo pronto"e não fossem resultados
de construção poética. A
"versatilidade do tom, as surpresas do humour,
a poesia profunda de certos momentos da vida e
da linguagem cotidianas" foi o que Ascenso
aproveitou do modernismo, segundo Manuel Bandeira
prefaciando um de seus livros.
No
mesmo prefácio Bandeira sentencia: "Pois
quem não ouviu Ascenso dizer, cantar, declamar,
rezar, cuspir, dançar, arrotar os seus
poemas, não pode fazer idéia das
virtualidades verbais neles contidas, do movimento
lírico que lhes imprime o autor".
Ascenso transmite uma musicalidade própria
que faz seus poemas ganharem outra dimensão
quando ouvidos. E chega a estar no limiar entre
o verso e a música.
Mário
de Andrade, escrevendo ao Diário Nacional
em 1927 a respeito do lançamento do livro
Catimbó, reconhecia que "só
mesmo Ascenso Ferreira com este Catimbó
trouxe pro modernismo uma originalidade real,
um ritmo verdadeiramente novo". Em 1928 Ascenso
trava um conhecimento pessoal com o autor de Paulicéia
Desvairada e no ano seguinte se aproxima de vários
intelectuais paulistas, como Cassiano Ricardo,
Anita Malfatti, Menoti Del Picchia, Oswald de
Andrade, Afonso Arinos e Tarsila do Amaral. Em
1951 grava LP com seus poemas, sendo o primeiro
poeta brasileiro a gravar seus poemas em disco.
Em 1955 é o 4o poeta brasileiro que tem
sua voz gravada para a Biblioteca do Congresso
em Washington. Morre no dia 5 de maio de 1965
no Recife.
Renato Lima
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