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Paulo
Setúbal?
"E,
na doçura que encerra
Esta simpleza daqui,
Viver de novo, na serra,
Entre as gentes desta terra,
A vida que eu já vivi..."
(Alma
Cabocla )
Em
Tatuí, em primeiro de janeiro de 1893, nasceu
Paulo Setúbal, filho de Antonio D’Oliveira Setúbal
e Maria Tereza Nobre Setúbal.
Seu
pai viera, de Porto Feliz, abrir um ponto comercial
na Rua do Comércio (atual 11 de Agosto). Tatuí,
nessa época era uma cidade modesta e pobre, com
humilde casario colonial.
A
27 de dezembro de 1897, morre o Capitão Antonio,
deixando a viúva encarregada da criação de nove
filhos pequenos : João, Laerte, Antonio, Ademar,
Paulo, Francisca, Clarice, Eurídice e Bernardina
. Dona Maria Tereza, a D. Mariquinha , mãe de
Paulo, toma frente nos negócios, mantendo a subsistência
de sua numerosa prole e mantendo-os nos estudos.
Paulo
Setúbal começou seus estudos na escola particular
do Prof. Francisco Evangelista Pereira de Almeida
("seo" Chico Pereira), transferindo-se logo em
seguida para o Grupo Escolar de Tathuy, que mais
tarde passou-se a chamar Escola Estadual de Primeiro
Grau João Florêncio. Sua primeira professora foi
D. Mariquinha Nazaré, que o incumbiu de declamar,
aos sábados, nas festinhas que a escola promovia.
Ao
terminar as primeiras letras, seus professores
incentivaram sua mãe para que Paulo continuasse
seus estudos em São Paulo, transferindo-se toda
a família para a Capital. Passaram a residir,
primeiramente, na Rua Tabatingüera e, depois,
na Rua das Flores. Paulo matriculou-se no Ginásio
Nossa Senhora do Carmo, dos Irmãos Maristas, onde
fez curso de Humanidades.
Na
época, convivendo com "meninos de costumes soltos",
começou a desacreditar. Sua alma tornou-se insensível
aos acentos religiosos que outrora o emocionavam.
Para ele e seus novos amigos, temas como Deus,
milagres, eram puras hipóteses, sem valor racional.
Quando
ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo,
estava impregnado da literatura e filosofia ateísta
de Guerra Junqueiro, Antero de Quental e Alfred
de Musset. O ambiente da Faculdade de Direito
de São Paulo, era a mais atormentada, inquieta
e tumultuosa companhia intelectual, com Haeckel
e Darwin desvendando mundos novos do conhecimento.
Liam-se e discutiam-se os filósofos como Spencer,
Kant e Hegel. Na poesia, Beaudelaire, Gautier,
Lecomte de Lisle e Banville eram os deuses. Nesse
ambiente, formou-se a inteligência e desabrochou
a sensibilidade de Paulo Setúbal.
Quando
cursava o segundo ano de Direito, resolveu fazer-se
jornalista, conseguindo o lugar de revisor do
diário "A tarde".
Ao
ser festejado o primeiro aniversário do jornal,
preparou-se uma edição especial, na qual fora
impressa uma de suas poesias, passando então a
trabalhar na redação, tendo uma coluna a seu encargo.
Para festejar a promoção, foi comemorar com os
amigos, voltando tarde para casa e levemente indisposto.
No dia seguinte verificou-se que seu estado de
saúde era grave : tuberculose. Seu médico recomendou
repouso absoluto voltando então para Tatuí, onde
permaneceu seis meses. Retornou a São Paulo já
praticamente curado. Passou em seguida, breve
período em Campos de Jordão para completar a cura,
onde viveu uma aventura pecaminosa, com uma mulher
misteriosa, separada do marido.
Em
1914 bacharelou-se, conseguindo o cargo de Promotor
Público da Capital, interina- mente. Foi uma grande
vitória. Findo o prazo, foi renomeado mais duas
vezes no cargo. Nesse período, colaborou em quase
todos os jornais e revistas da época : "A Cigarra",
"O Diário Popular", "O Estado de São Paulo", "O
Jornal do Comércio". Quando lhe foi oferecida
a cadeira efetiva esse cargo, recusou, pois seu
objetivo era tornar-se advogado. Abrindo seu escritório
de advocacia, fez sua primeira defesa como assistente
do célebre Dr. Marrey Junior, com pleno sucesso.
Não lhe faltou mais serviço.
O
ano de 1918 trouxe a gripe espanhola e Paulo foi
um dos primeiros a adquiri-la, sob a forma mais
violenta: a de gripe pneumônica. Esteve por vários
dias entre a vida e a morte. Seu estado de saúde
era desesperador. Seu organismo jovem reagiu ,
mas foi proibido pelo seu médico a permanecer
em São Paulo. Partiu, então , para Lajes-SC, onde
residia seu irmão mais velho. Por lá permaneceu
2 anos.
Em
1920. A "Revista do Brasil" lançou "Alma Cabocla",
seu livro de estréia, a que Paulo chamou "O livro
de minha mãe".
Em
22 de junho de 1922, casou-se com D. Francisca
de Souza Aranha, filha do Senador Dr. Olavo Egydio
Aranha, com quem teve três filhos: Olavo Egydio,
Maria Vicentina e Terezinha. O casamento aumentou-lhe
a segurança e a prosperidade. Sua esposa foi,
além de companheira num lar feliz, a inspiradora,
a secretária, a revisora de suas obras , de quem
passou a ser, sempre, a primeira leitora, a crítica,
a confidente.
Em
1928 foi eleito Deputado Estadual, sendo reeleito
na legislação subseqüente, quando abandonou inteiramente
a política, para consagrar-se ao cultivo das letras.
A partir desse instante de sua vida literária,
passou a dedicar-se à romanceação dos episódios
mais interessantes da História do Brasil.
Em
1935, ingressou na Academia Brasileira de Letras,
onde ocupou a cadeira número 31. Foi ainda membro
da Academia Paulista de Letras, do Instituto Histórico
e Geográfico de São Paulo, do Instituto Histórico
e Geográfico de Ouro Preto e Instituto Histórico
e Arqueológico de Pernambuco.
O
ano de 1935, que foi excepcional para Paulo Setúbal,
finalizou com muito sofrimento. Na véspera do
Natal, o mal visitou-o de forma violenta. A luta
física contra a moléstia, a luta moral, a prece,
a angustia de perder sua alma, a humildade sucederam-se
em sua alma dilacerada.
Em
maio de 1937, seu estado de saúde piora cada vez
mais, vindo a falecer na madrugada do dia 4.
Poesia
de Paulo Setubal que ficou famosa em recente novela
da Globo: Laços de Família
Dos
lábios que me beijaram,
Dos braços que me abraçaram
Já não me lembro, nem sei ...
São tantas as que me amaram !
São tantas as que eu amei !
Mas
tu --- que rude contraste !
Tu, que jamais me beijaste,
Tu, que jamais abracei,
Só tu, nestalma, ficaste,
De todas as que eu amei.
[Paulo
Setúbal]
(Obra: ALMA CABOCLA)
Antonio Molitor da Silva
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