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BOITEMPO
- "Notícias de Clã"
por
Meire Oliveira
Silva
1
- Itabira: retrato de uma sociedade patriarcal
Boitempo
é um livro todo dedicado à memória da infância
e da juventude drummondiana em Itabira. Ele traz
à tona toda a realidade de uma sociedade que vivia
a mercê dos grandes coronéis ("Notícias de Clã"),
seus ritos religiosos ("Vida Paroquial"), a vida
dedicada à fazenda e à cultura agropecuária ("Bota
e Espora") e como se portavam as "Relações Humanas"
nessa economia, com seus usos e costumes nessa
cidade provinciana. Segundo José Guilherme Merquior,
o título Boitempo remete ao "sentido do tempo
vivido associado à fazenda e à cidadezinha rural".
E o tom lírico e nostálgico que Drummond utiliza
nesses versos que constituem toda a estrutura
do livro é de um homem que não está mais ligado
à terra e sim à vida nas repartições públicas,
sendo somente um "fazendeiro do ar".
A obra de Drummond, principalmente em Boitempo,
é um dos raros testemunhos, em poesia, das relações
humanas e econômicas, no que estas últimas refletem
na desintegração do conceito de família no plano
sócio-econômico e como isso repercute na formação
psicológica individual. Retratar todos os fatos
acontecidos na infância, como os jogos sexuais
e o erotismo ("O banho"), o medo dos empregados
("O diabo na escada"), do pai ("O Banco que serve
a meu pai") e também sua relação com a morte ("Os
chamados"), sempre tão próxima, não seria uma
espécie de catarse através da poesia?
Descendendo de um clã familiar ligado à terra,
inicialmente pela mineração e, logo a seguir,
através da pecuária e agricultura, Drummond acabou
sendo o fim de uma linhagem de mineradores e fazendeiros:
"Tive ouro, tive gado, tive fazendas/hoje sou
funcionário público." (Confidências do itabirano).
Criado aos arredores da "casa grande", com os
escravos e sob as ordens de um pai "todo-poderoso",
homem típico das sociedades patriarcais, o menino,
no seu "desajuste de gauche" se transfere, quando
adulto, para uma realidade totalmente diferente
daquela; em meio a edifícios que, ao invés de
o sufocarem, o livram da rígida estrutura patriarcal
em que vivia.
Boitempo
O
poema "(In) Memória" serve como prefácio a todo
o Boitempo condensando toda a temática que lida
o livro num "resumo de existido". O livro divide-se
em "Caminhar de Costas"; "Vida Paroquial"; "Morar";
Bota e Espora"; "Notícias de Clã"; "Um"; "Percepções";
"Relações Humanas".
Na
seção "Notícias do Clã", a tônica da morte e da
complexa relação com o pai autoritário, num misto
de admiração e temor, é trazida por meio de versos
simples e curtos. Ao mesmo tempo em que narra
acontecimentos individuais do passado, reconstrói
toda uma realidade em que viviam as pessoas regidas
por aquela dominação, ao passo que dependiam de
tal estrutura patriarcal. Acaba por descrever
com maestria um tempo passado e toda a gama de
riquezas dos costumes da época. E como nas palavras
de Adélia Bezerra de Menezes, "o poeta resgata
o acontecido do esquecimento: é uma espécie de
memória viva da espécie, do seu povo."
"Notícias
de Clã": a terra e a morte
"Notícias
de Clã" é a quinta seção das nove em que são divididos
os 84 poemas de Boitempo. Esta parece ser uma
parte totalmente dedicada à lembrança dos irmãos
e das brincadeiras de infância, assim como à precoce
relação com o tema da morte. Também há a evocação
da imagem austera e poderosa do pai e de toda
aquela cidadezinha rural que dependia do coronel
Carlos de Paula Andrade.
O poema que abre a seção é "Herança", que Drummond
faz de introdutório à história do clã que irá
contar a seguir. Esse poema agrega vários aspectos
da vida fazendeira do poeta, assim como toda a
riqueza em que nascera o nono filho de Dona Julieta
Augusta, a 31 de outubro de 1902. Neto do capitão-mor
Elias de Paula Andrade o clã parecia ser o seu
destino maior. Seus pais eram filhos de grandes
proprietários de terras de Itabira e seu avô,
quase um mito da região, ostentava grande fama
dado o seu poder de latifundiário e de dono de
escravos.
Só que de toda essa fortuna restou ao gauche
desajustado no seu modo de ser, "um pigarro".
A palavra "baú", como que reúne em seu interior
todas as "terras de semeadura", "as vacas", "o
café", "os engenhos" e os "mineirais". Depois,
o poeta enterra esse tesouro - sem valor a não
ser pelo poder da recordação que é capaz de reviver
através da palavra todo aquele passado - "no poço
da memória".
Ainda
as relações com os escravos, que também eram sinais
de poder na época referida, são aludidas no poema.
São homens reduzidos ao mesmo valor de gados e
terras. Da mesma forma, sucede no poema "Surpresa":
"Estes cavalos fazem parte da família/ e têm orgulho
disso." Da "comenda" que reluzia como ouro, referindo-se
ao pai ou a si mesmo, o poeta diz restar apenas
um pigarro. O sinal da debilitação da saúde e
da juventude foi sua herança maior.
Nesse poema, Drummond desmistifica a figura do
pai. O antigo autoritarismo fora substituído pela
doença e pela morte. A lembrança como "sobrevivência
do passado", traz ao antigo menino reprimido,
a vingança através do entendimento do adulto.
Novamente, volta ao tema da figura do pai patriarcal
e tradicional, em "O Banco que serve a meu pai"
(escrito em octassílabos), referindo-se ao Banco
Mercantil do Rio de Janeiro, onde ele guardava
todas as ações e o dinheiro durante anos. Há toda
uma áurea mitológica em torno do pai de Carlos
Drummond de Andrade, com suas "Botas e Esporas",
com chicote na mão e sempre a guardar a mulher,
os filhos e as terras, aliás, também reduzindo
tudo isso a um mesmo plano. De acordo com José
Maria Cançado, em autores nordestinos como Bandeira,
com esses pais "dormindo profundamente" essa "reconciliação
pela memória nunca esteve ameaçada. Com Drummond
e seu pai sempre esteve." (Os Sapatos de Orfeu,
p. 29). De fato, é o que parece porque a imagem
de Carlos de Paula Andrade é sempre muito sombria
e tenebrosa: como um fantasma a atormentar o filho
até mesmo em sua idade adulta.
No terceiro poema de "Notícias de Clã", o tema
da morte emerge. Com "Os chamados", Drummond relata
a dificuldade em nascer e de se conseguir sobreviver
naquele início de século, mesmo quando se pertence
a um clã tradicional cheio de bens. Uma febre
que acometia os recém-nascidos, levando-os à morte
logo nos primeiro dias de vida, rondava também
a "casa grande" da sua família. Aquele tipo de
tétano já havia levado à morte quatro de seus
irmãos antes do seu nascimento. Todos morriam,
geralmente, antes dos dois anos. Quando Geraldo
vive "3 anos, 5 dias", "vive uma eternidade."
Esses inocentes são chamados a morrer, sem explicação
e sem que nada tenham feito para isso, por um
"deus", com letras minúsculas, que parece nem
se importar com suas curtas e precoces vidas.
O
oitavo e último poema de "Notícias de Clã", "O
preparado", é um poema em verso livre combinado
com o metro. Também retomando esse mesmo tema,
o da morte de um irmão por crupe (espécie de difteria):
Geraldo, com quem Drummond dividia o quarto, quando
tinha apenas quatro anos e era um ano mais novo
que ele. Na sua inocência infantil pergunta completamente
sem saber "porque morreu aquele irmão/ que há
pouco brincava no quarto/ sem qualquer signo na
testa?" Talvez esse desentendimento que ocorre
ao poeta seja fruto da memória involuntária, que
apenas reproduz a surpresa e a confusão em que
ficara a criança de 4 anos, que perdera o irmão
tão repentinamente. Conta, inclusive, como a morte
foi fulminante: "Foi só o tempo de arder em febre/
e de o doutor lhe receitar/ um preparado que não
havia."
Mesmo
com todos os benefícios de que dispunha a família
Andrade, os recursos da época eram muito atrasados.
A distância entre a Itabira interiorana e a capital
era muito significativa e o tempo de espera muito
longo. O transporte era precário para levar a
"encomenda pelo correio, e quando veio/ em lombo
de burro, no chouto,/ a morte beijara o menino."
A ex-escrava do capitão Elias (avô de Drummond)
Sá Maria Fernandes, aparece aqui nesse poema,
simbolizando o respeito do menino por aquela figura
mágica, cheia de amuletos e resmungando palavras
africanas o tempo todo: "Sá Maria diz que é o
destino."
"Drama
Seco", quarto poema de "Notícias de Clã" narra
por meio de brincadeiras com as palavras um fato
triste: o rompimento de um casamento. É uma peça
narrativa desenvolvida em forma de poema. A ironia
amarga drummondiana, relata um fato, senão engraçado,
"risível". Através de figuras de repetição e jogos
com as palavras ("terno noivo/ terno novo"), Drummond
tece uma narração, talvez, acerca do rompimento
do noivado tranqüilo de sua irmã mais velha; Rosa
Amélia com um rapaz chamado Xicado, por ocasião
da mudança repentina de sua família para Belo
Horizonte, em 1920. "Que será da noiva - toma
o hábito/ ou se consagra à renda de bilro para
sempre?"
Como
esse "afloramento" do que estava submerso; de
lembranças misturadas à ficção, Drummond narra
essa história combinando a percepção presente
e a capacidade de criação e de modificação de
fatos ocorridos no passado. A memória não é confiável,
podendo transformar uma lembrança. Surge juntamente
com a imaginação, sendo ambas motivadas pelo Desejo,
segundo a Psicanálise. Quando o processo de rememoração
é voluntário, de anamnese, ele pode vir acompanhado
também por desejos que modificam todo um fato
ocorrido. Pode ter sido essa a razão para a modificação
de alguns fatos relatados. "Drama Seco" é o poema
mais longo de "Notícias de Clã", que brinca com
as palavras também ao trazer a oposição de claro
e escuro da poesia drummondiana: "terno novo/
preto de medo/ vestido novo/ branco de medo".
O próximo poema "Rosa Rosae", parece também ser
para a irmã Rosa, 10 anos mais velha que ele.
Em latim, a expressão pode significar no genitivo
"A Rosa de Rosa" ou no ablativo "A Rosa na Rosa",
trazendo, por sua vez, o tema do "imperecível",
que em outros autores seria, o contrário, aquilo
que logo morre. Segundo Affonso Romano Sant'Anna,
"Flor e rosa identificam-se aí principalmente
com a própria poesia. É a afirmação erótica da
vida transposta em linguagem: "rosa do poema",
surgindo até como título de livro: Rosa do Povo.
Como imagem recorrente representando a essência
dos seres e coisas, é sinônimo de memória-poesia.
Como a flor, sua poesia é aquilo que "subitamente
vara o bloqueio da terra", conforme poema (In)-Memória.
E à semelhança daquela orquídea bloqueada (Áporo),
que vence o enlace da noite e o peso dos minérios,
ela se desta verde para a luz, brotando dos detritos
do tempo." Drummond traz aqui numa bela construção
a admiração pela figura da irmã, usando um neologismo
para expressar o caráter singular que queria lhe
atribuir "despetalirosada".
No
sexto poema, "O Criador", Drummond relembra desta
vez, outro irmão. Descreve uma "estrela de rosa
e de gerânio", que tem um perfume que não o encanta.
Essa memória olfativa e a função vital da respiração
mudam de sentido ao contemplarem numa homenagem
a glória do irmão. Esse processo involuntário
e meio obscuro pelo qual Drummond tenta reconstruir
a imagem do irmão desenhando é tão obscuro que
nunca será fiel na representação dessa experiência
de infância. Por mais nítida que pareça, nunca
será a mesma coisa, porque o poeta não é mais
o menino de então, é somente um homem maduro alterado
pela sua realidade e submerso em suas lembranças.
Em
"Cantiguinha", Drummond faz uso dos jogos de palavras,
das repetições e das paronomásias para relatar
as brincadeiras infantis. "Era uma vez" dá o caráter
de fantasia e de imaginação ao poema. Numa construção
inusitada para a poesia, o poema inverte valores,
terminando um poema como se começa um conto de
fadas. Nas duas últimas estrófes há também a quebra
da regularidade da repetição, só reforçando essa
idéia. É a ironia drummondiana que não abandona
nem mesmo essas memórias em forma de poesia.
Todos
os poemas de "Notícias de Clã" versam sobre a
infância de Drummond, trazendo lembranças tristes,
mas narradas com ironia e com o distanciamento
crítico do homem adulto, que se observa de fora
para dentro ao reconstituir propositadamente suas
emoções diante dessa memórias. Apesar da presença
física e real do poeta nos fatos descritos há
uma atmosfera mágica que envolve o todo o Boitempo.
Não tem um caráter tão assumidamente biográfico
como o de Pedro Nava em Baú de Ossos, ou
de Murilo Mendes em A Idade do Serrote,
mas tem seu valor documental e sobretudo artístico
assegurado pela genialidade drummondiana.
Considerações
Finais
Totalmente
trabalhada como uma obra de ficção e de acordo
com os elementos que permeiam toda a sua estrutura
formal - a poesia - pode-se dizer que Boitempo
é um livro de memórias. Não tem a estrutura de
uma "biografia oficial" (e mesmo essas não são
poupadas de ficção), constituindo um livro de
poemas. Entretanto, ao considerarmos a obra drummondiana,
existe constantemente um apelo ao passado, as
raízes do poeta. É uma abordagem freqüente em
sua carreira literária. Só que, especialmente,
Menino Antigo, A Falta que Ama e
Boitempo parecem trabalhar direta e exclusivamente
o tema da Memória, como confirma o poema ((In)-Memória)
que abre esse último. Se, de acordo com Ecléa
Bosi, "a menor alteração do ambiente atinge a
qualidade íntima da memória", então o homem encurralado
entre prédios e repartições esconde o "Carlito",
filho de coronel às voltas da casa senhorial,
protegido pelo pai autoritário e rodeado por escravos,
numa camada muito profunda de sua consciência.
Para descrever todos os processos de que se utilizou
para reconstruir os fatos da infância através
da poesia, o escritor fez uso da memória voluntária,
que é mais consciente e racional, apesar do "momento
inspirador da poesia" ser obra da memória involuntária,
ligada aos sentidos e às percepções estando presente
em todo o livro. Porque, apesar de qualquer outra
característica, essa é uma obra de arte, sobretudo,
desfrutando dos artifícios de que é formada: é
literatura e é ficção. Sua qualidade primordial
é a imaginação.
BIBLIOGRAFIA
MERQUIOR, José Guilherme. Verso Universo em
Drummond.
Tradução de Marly
de Oliveira.
Rio/São Paulo: José Olympio/ Secretaria
da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1975.
GLEDSON,
John. Poesia e poética de Carlos Drummond de
Andrade. São
Paulo: Duas Cidades, 1981.
SANT'ANNA,
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4a edição. Rio
de Janeiro: Record, 1992.
CANÇADO,
José Maria. Os Sapatos de Orfeu - Biografia
de Carlos
Drummond
de Andrade. 1a edição. São Paulo: Editora
Página
Aberta, 1993.
Candido,
Antonio. A Educação pela Noite e Outros Ensaios.
São
Paulo: Ática, 1987.
Meneses,
Adélia Bezerra de. Do poder das palavras -
Ensaios de
literatura
e Psicanálise. São Paulo: Duas Cidades, 1995.
Bosi,
Ecléa. "Memória-sonho e memória-trabalho" In:
Memória e
Sociedade:
Lembranças de velhos. 2a edição.
São Paulo: TA
Queirós - EDUSP,
1987.
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