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Cassiano
Ricardo - Poeta sem parar
"A
competição entre os mortos é
mais terrível do que a competição
entre os vivos", escreveu Fernando Pessoa.
E não só por serem mais numerosos
do que os vivos. Os mortos tornam-se mais ávidos
de carinho, de admiração, de diálogo.
Nessa
competição, muitos escritores e
poetas que antes, entre nós, ocupavam os
primeiros lugares, amargam agora o esquecimento
e às vezes desaparecem para sempre no silêncio
empoeirado das estantes. Por isso, cabe aos leitores
e críticos recordar os títulos de
seus preferidos, transcrever os melhores trechos,
citar-lhes os nomes em conversas e artigos.
Por
exemplo: Cassiano Ricardo (1895-1974). Membro
da Academia Brasileira de Letras, com mais de
50 livros publicados (poesia e teoria literária),
anda bastante desaparecido no mundo das livrarias
e das pesquisas acadêmicas. Sorte sua que
a cidade onde nasceu (São José dos
Campos) presta-lhe verdadeiro culto. Lá
foi criada a Fundação Cultural Cassiano
Ricardo (www.fccr.com.br) e não são
poucos os parentes e os são-joseenses preocupados
em difundir sua obra.
Obra
cuja característica principal está
no lema que o próprio autor criou na década
de 20: "Originalidade ou morte". Dos
seus primeiros livros, Dentro da Noite
(1915) e A Frauta de Pã (1917),
até os últimos, Jeremias Sem-Chorar
(1964) e Os Sobreviventes (1971), Cassiano
abriu e experimentou diferentes caminhos poéticos,
"picado pelo demônio da curiosidade",
como lhe dizia Manuel Bandeira.
O
parnasianismo, o simbolismo, o modernismo, o neo-romantismo,
o concretismo foram, nas mãos do poeta,
instrumentos conceituais para a fabricação
dos seus poemas. O fato mesmo de ter sido companheiro
de idéias estéticas de Menotti Del
Picchia, no início do século, e
depois de Augusto de Campos e Mário Chamie,
na década de 60, demonstra sua permanente
flexibilidade, guiada, no entanto, pelo inflexível
desejo de morder o coração do leitor.
Martim
Cererê (1928) é o mais conhecido
dos seus livros. Trata-se de um longo poema indianista
e nacionalista, uma cosmogonia brasileira em que
o índio, o negro e o branco tomam posse
e inventam um novo país. O crítico
Wilson Martins chega a afirmar que este poema
fora escrito com um século de atraso, um
poema que estava no destino dos românticos
escrevê-lo, mas que também estava
no destino dos modernistas escrevê-lo, e
que, afinal, era a versão poética
do Macunaíma.
"Mãe-Preta",
trecho de Martim Cererê, demonstra
bem o tom ao mesmo tempo épico e lírico
que predomina na obra:
Quem
é que está fazendo este rumor?
As folhas do canavial
cortam como navalhas;
por isso ao passar por elas
o vento grita de dor...
(O céu negro quebrou a lua atrás
do morro.)
'Druma ioiozinho
que a cuca já i vem;
papai foi na roça
mamãi foi tamém.'
Em
1950, lança Poemas murais, que assumem
a linguagem típica da época imediatamente
posterior à Segunda Guerra - o tom combativo
torna-se mais reflexivo, mais introspectivo, como
no poema "O tocador de clarineta":
Quando
ouvires o pássaro
Cantar em frente do teu quarto,
Naturalmente em vão,
não penses
que sou eu que aí vim tocar,
não.
Quando o vento disser,
ao teu ouvido de mulher
uma palavra
branca e fria como a cerração,
não penses que o vento fui eu,
não.
Quando receberes
uma carta anônima, trazida
por secreta mão
- quem será que assim me acusa? -
eu é que não serei,
não.
Quando ouvires, porém, no escuro,
a goteira caindo
sobre o triste chão, aí, então,
serei eu que estou batendo
na pedra
do teu coração.
Já
na casa dos 60 anos, Cassiano ingressou na fase
mais ousada de seu trabalho poético, publicando
poemas que reúnem preocupações
formais e humanísticas. Sua contundente
crítica ao croncretismo era a de que os
poetas desse movimento corriam o risco de se prenderem
ao fascínio dos achados verbais, brilhantes,
engenhosos, desconectados, porém, da angústia
do homem moderno, sentida e tematizada pelas vozes
mais ouvidas nas décadas de 50 e 60: Sartre,
João XXIII, Heidegger, Marcuse, Erich Fromm,
Hermann Hesse, entre outras.
Assim,
ao mesmo tempo que empolgado pelas novas possibilidades
da poesia - não só as já
conhecidas possibilidades da poesia de verso livre,
mas as de uma poesia livre do próprio verso
-, Cassiano enfatizou a emoção e
o conseqüente envolvimento do poeta com as
questões existenciais mais prementes.
Envolvimento
filosófico e estético com uma época
planetária, em que os meios de comunicação
nos fazem dar a volta ao mundo mais rapidamente
do que Julio Verne poderia imaginar.
O
poema "Rotação", de Jeremias
Sem-Chorar, é expressão desse tempo
em que o mundo tornou-se uma esfera entre outras
num universo que o ser humano deseja explorar.
No planeta Terra, antigo "vale de lágrimas",
o homem não chora mais, desde que perdeu
a visão por causa do coice de um cavalo
no comício, e desde que perdeu a noção
da gravidade graças às experiências
dos primeiros astronautas. Sem lamentações
estéreis, é preciso reaprender a
esperança:
a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a
esperança
a esperança me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
de novo a esperança
na
esfera
a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a
esperança
a esperança me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
uma nova esperança
na
esfera
a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a
esperança
a esperança me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
uma nova esperança
na
esfera
Se
a "pedra no meio do caminho" de Drummond
encarnava em tom monótono a perplexidade
do homem em suas andanças sem rumo, o neo-Jeremias,
ciente da monotonia da rotação igual,
das demoras, dos males repetitivos da existência
humana, contempla essa pedra-planeta que roda
sem parar, extraindo da obrigatória espera
uma nova esperança.
Nos
últimos dez anos de vida, Cassiano desenvolveu
e pôs em prática o conceito de linossigno,
contribuição original para o pensamento
poético pós-concretista. Os Sobreviventes,
escrito no fim da década de 60 e no início
da de 70, é o livro em que sintetiza consciência
humanista e coragem estilística.
Por
um lado, a consciência humanista vê
a população dos sobreviventes, esse
"Grande Ninguém", os deserdados,
os subnutridos, os subvivos, todos aqueles que
vivem no subsolo e lutam para (viver seria um
luxo) sobreviver. É sobrevivente quem se
espanta pelo fato de acordar e ainda estar vivo.
Na espera ativa de que os sobreviventes sejam
viventes de pleno direito, o poeta (e aqui entra
a coragem estilística) desversifica
a poesia, utilizando essa nova unidade compositiva,
o linossigno, linha de palavras que não
obedecem mais às regras da versificação.
O linossigno é um "desenho" significativo,
são as palavras dispostas na página
sem o compromisso linear da frase ou do verso.
O linossigno estabelece um ritmo gráfico,
visual, quase cinematográfico.
O
linossigno, explicava Cassiano Ricardo em seus
ensaios e palestras, foi o neologismo que precisou
criar para que entendêssemos o que ficou
no lugar do verso, pelo menos de acordo com uma
explícita concepção visual-cinética
do poema. O linossigno, dizia ainda Cassiano,
era um elemento tão diverso que chegava
a ser o reverso do verso, um outro universo, mais
condizente com o modo de olhar e ver do homem
contemporâneo, ou de um novo homem que nascia.
E, acrescentaríamos, com o modo de ler
próprio dos internautas, que é mais
"scannear", explorar, ver em conjunto,
do que escandir, soletrar, linha a linha, verso
a verso.
O
poema "Fotomontagem" expressa, exemplifica
e de algum modo coroa o esforço criativo
de um poeta que era poeta sem parar, e cuja obra,
verbalmente revolucionária, inspira um
remontar as coisas:
I
A foto de um foguete
lunar
no ambiente copiado
a um quadro de
Mondrian.
O homem dividido
de quadrado em qua-
drado
no quadro.



Gabriel Perissé
Mestre em Literatura Brasileira (USP)
Criador da Escola de Escritores (www.escoladeescritores.org.br)
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