ABSTRACT:
The aim of the paper is to characterize a brasilian
type of criticism called "crítica
de rodapé", in the '30 and '40 decades.
The paper concludes with a discussion about
the criticism position of Alceu Amoroso Lima.
KEYWORDS: Brasilian literature; criticism,
Alceu Amoroso Lima
PEREIRA, Márcio Roberto. The critic and
the feuilleton
Em
meados da década de 40, a crítica
literária brasileira foi marcada pelo
embate de dois modelos críticos. De um
lado, um modelo representado pelo "homem
de letras", - o bacharel, - que, sob a
forma de resenhas, utilizava o jornal como instrumento
necessário para a difusão de suas
críticas. É o caso de Álvaro
Lins, Alceu Amoroso Lima, Otto Maria Carpeaux,
entre muitos outros.
Por
outro lado, começaria a aparecer o crítico
universitário que, ligado à "especialização
acadêmica", utilizaria o livro e
a cátedra como propagadores de suas idéias.
Um grande exemplo de "crítico universitário"
é Afrânio Coutinho, que desencadearia
uma campanha contra os chamados "críticos
de rodapé".
A
crítica de rodapé esteve sempre
fundamentada numa espécie de "não-especialização",
não possuindo, assim, uma linguagem especificamente
teórica, oscilando entre a crônica
e a divulgação de obras literárias.
Ao crítico-cronista, que tinha o seu
lugar nos pés de página ou em
colunas de jornais, cabia o papel de orientar
e divulgar a cultura aos leitores.
Com
a criação, porém, das faculdades
de Filosofia de São Paulo, em 1934,
e do Rio de Janeiro, em 1938, o crítico
de rodapé entra em disputa, diariamente
nas páginas dos jornais, com os chamados
críticos-scholar. Deste modo, como afirma
Flora Süssekind:
(...)
se abriria espaço para um outro tipo
de critério de avaliação
profissional, para uma substituição
do jornal pela universidade como "templo
da cultura literária" e da figura
do crítico enciclopédico e impressionista,
com a sua habilidade para a crônica, pela
do professor universitário, com seu jargão
próprio e uma crença inabalável
no papel "modernizador" que poderia
exercer no campo dos estudos literários.
(SUSSEKIND, 1993, 20)
Uma
vez levada a êxito a tarefa de "caça
aos críticos amadores", os críticos-scholars
desenvolvem um discurso em que a crítica
torna-se uma atividade intelectual, reflexiva,
próxima da ciência. Rejeitando,
deste modo, as concepções dos
críticos de rodapé: defensores
do impressionismo e da noção de
crítica como um gênero literário
de criação.
Outra
característica básica dos críticos
de rodapé é a sua inclinação
para a informação ligeira, de
fácil acesso e entendimento, em que o
crítico é responsável pela
formação do gosto do leitor.
Utilizando
os termos de Alceu Amoroso Lima, o Tristão
de Athaíde, é possível
afirmar que a passagem da crítica de
rodapé para a crítica acadêmica
se resume na transformação da
crítica de atividade problemática
para uma atividade sistemática:
Com
esse estado de espírito, foi que ingressei
na crítica, procurando realizá-la
como atividade problemática e não
como atividade sistemática. Cada obra,
cada autor representavam um problema novo, que
competia ao crítico expor, analisar,
mas sem procurar resolvê-lo e muito menos
ensinar normas de fazer, de apreciar ou de solucionar.
Crítica puramente opinativa e individual,
guiada apenas por um propósito de honestidade
e obediência. (LIMA, 1966, 31)
Como
salienta Alceu Amoroso Lima, os críticos
de rodapé não possuíam
sistematizações teóricas
definidas. Cada crítico tornava-se apenas
uma leitor mais consciente, exercendo a crítica
não como uma atividade judicativa
e sim testemunhal.(LIMA, 1966, 29) O crítico
servia como uma espécie de referência
para seus leitores, formando-lhe o gosto e um
cânone literário através
de uma linguagem leve e sem sistematizações
específicas.
Por
outro lado, é importante salientar, ainda,
que a crítica de rodapé, com suas
características impressionistas e subjetivas,
situa-se historicamente entre dois modos sistemáticos
de análise literária. Situa-se
entre a crítica naturalista dos fins
do século XIX e a nova crítica,
com Afrânio Coutinho à testa, cuja
preocupação teórica com
o material literário e com a própria
natureza da crítica se tornariam
dominantes.
Dos
críticos do século XIX, entretanto,
os críticos de rodapé tomam a
lição de Machado de Assis que,
num processo, de absoluta independência,
torna-se livre de modelos teóricos.
Assim,
como o folhetinista é definido por Machado
de Assis como sendo um "colibri" a
voar livremente sobre todos os fatos, o crítico
de rodapé, como explica Alceu Amoroso
Lima (1966), possui uma verdadeira "obsessão
pela liberdade":
A
adoção de qualquer sistema de
crítica teria sido uma traição
a essa marca profunda. Era talvez a minha fragilidade.
Mas se tentasse reagir, seria insincero comigo
mesmo. Seria desonesto. Aliás nunca passou
pela minha cabeça adotar qualquer sistema
de crítica, pelo menos de início.
Queria ser apenas um leitor, que analisa suas
próprias impressões de leitura,
sem qualquer compromisso nem com um sistema,
nem com um movimento.
(LIMA, 1966, 31)
Mas
essa "obsessão pela liberdade"
não impediu que o próprio Alceu
Amoroso Lima fitasse o fenômeno crítico
criando, assim, o que ele chamou de expressionismo
crítico. Influenciado pelas idéias
de Benedetto Croce e Maurice De Wulf, entre
muitos outros, procura mesclar em suas críticas
o subjetivismo com doses de objetivismo.
Não
é de se estranhar, portanto, que Alceu
Amoroso Lima encare a crítica como uma
atividade de criação:
Sempre
considerei a crítica literária,
portanto, como uma atividade criadora e total,
da mesma natureza da que leva o poeta ao poema,
o prosador ao conto ou ao romance, o ensaísta
ao ensaio ou o homem de gosto a saborear, em
silêncio, pelos olhos, pelos ouvidos,
pela inteligência, as obras de beleza
estética. (LIMA, 1966, 36)
Como
crítico de rodapé, Tristão
de Athaíde se propunha a realizar uma
obra de jornalismo na crítica, posição
que esclarece em sua seção de
jornal intitulada "Bibliografia":
Ao
jornal compete menos a obra de criação
do que o comentário e a divulgação.
O jornal deve ser um orientador de espíritos,
um guia consciencioso de consulta fácil.
Assim, não pode uma seção
debibliografia confinar-se na seca enumeração
de livros que afloram. Sobre fastidioso, seria
injusto. E a essa injustiça acresceria
uma falta de consciência para o leitor.
(LIMA, 1966, 13)
Observa-se,
assim, que o crítico quer ser mais que
um simples bibliógrafo. Quer ser um leitor
que tenta convencer outro leitor a tomar mais
consciência sobre a obra literária.
Um exemplo da força dos críticos
de rodapé pode ser observado no fato
de que dia seguinte à publicação
do rodapé de Álvaro Lins sobre
Sagarana, a obra de Guimarães Rosa passou
a ser muito procurada nas livrarias.
Do
exposto, depreende-se que o crítico de
rodapé procurava sempre sintonizar o
leitor com a obra sem, com isso, seguir um programa
teórico específico porque, como
afirma Alceu Amoroso Lima: Criam-se os programas
para o prazer de os mal cumprir. (LIMA, 1966,
61)
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