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A
última tentação de Galahad
especulações teóricas sobre
o caráter sagrado do cavaleiro na Demanda
do Santo Grall
É
no mínimo estranho que, durante todos
esses anos de um contato mais do que íntimo
com o texto da Damanda do Santo Graal, esta
seja a primeira vez que eu sente em frente a
este computador para escrever algo à
respeito. Seria de se supor, então, que
esse contato me concedesse uma certa desenvoltura
em relação ao tema, porém
o que estou observando agora é exatamente
o contrário. Quando milhares de idéias
isoladas, e até certo ponto desconexas,
dançam em turbilhão dentro de
sua mente, é no mínimo difícil
concatená-las e, mais ainda tentar sistematizá-las.
Parece-me que quanto maior o domínio
sobre o assunto, maior a dificuldade de síntese
e sistematização.
A
escolha de apenas uma das muitas passagens interessantes
da Demanda do Santo Graal, me acenou com uma
esperança. Talvez o universo reduzido
me auxiliasse a escolher as idéias certas,
as impressões mais pertinentes para serem
expostas aqui. Mas por mais que eu tentasse
isolar o episódio selecionado, tentasse
manter o meu processo mental apartado de todo
o resto do texto, concentrando-me unicamente
naquele determinado trecho, a tarefa foi inútil.
Minha mente vem sendo contaminada com a magia
da cavalaria, em especial do Ciclo Arturiano,
ao longo de vários anos, o que levou
a reflexão sobre aquelas linhas a confundir-se
não só com fatos e concepções
pertencentes à Demanda em si, bem como
a toda uma gama de conceitos expressos em outras
novelas e romances de cavalaria.
Comecei
a procurar por uma idéia que fosse realativamente
nova, original, uma vez que considero inútil
dizer o que já foi dito. Jamais dedicaria
meu tempo, minha madrugada - uma vez que é
só depois da meia-noite que consigo por
idéias em ordem - a escrever um texto
que dissesse o óbvio, que se resumisse
a uma mera citação do código
de honra cavaleiresca, de uma observação
dos comportamentos dos cavaleiros, uma apologia
de seu senso de dever e lealdade. Não.
O primeiro registro escrito de uma de minhas
maiores paixões não poderia se
resumir a um texto medíocre, com idéias
medíocres. E talvez por isso tenha relutado
tanto até decidir sentar e começar
a escrever. E a idéia que pretendo expor
aqui nasceu em uma taça de vinho.
Uma
taça de vinho. Em um primeiro momento
pode parecer estranho que uma reflexão
literária tenha sua gênese em uma
taça de vinho(1) . Ela
poderia servir de berço a um poema romântico,
talvez simbolista, lembrando Baudelaire... Mas,
por incrível que pareça, o sangue
de Baco foi responsável por estas especulações
teóricas - ou nem tão teóricas
assim. Portanto, creio que qualquer insânia
escrita ao longo das próximas linhas
já tenha sua pré-justificativa
em sua própria origem.
A
figura de Galahad (2), confesso,
nunca me foi muito simpática. Sua perfeição
sempre me causou uma certa irritação.
Literariamente falando, essa perfeição
se torna quase um estigma para a personagem,
teoricamente tornando-a um caractere plano,
sem os conflitos que imprimem o traço
natural, vivo, aos outros cavaleiros da Távola
Redonda.
Sendo
assim, foi com uma certa surpresa que me deparei
com Galahad dentro de minha taça de vinho.
Mais tarde, relendo o texto, pude, finalmente,
perceber o processo que levara à, aparentemente
estranha, relação.
No
primeiro episódio da Demanda do Santo
Graal, Galahad chega à corte de Arthur
envolto em uma armadura vermelho-ígnea,
na minha imaginação, mais ou menos
a mesma cor que ondulava dentro da taça
de cristal. E encontrando a imagem do cavaleiro
em vermelho, me dei conta de que eram duas:
uma que boiava na superfície do líquido;
outra, um tanto quando deformada e difusa, mergulhada,
submersa. Pois bem, essas duas imagens me levaram
à uma descoberta, à uma hipótese
que, talvez, valha não somente para os
cavaleiros do Graal, mas para todos os que tomaram
armas nos textos da cavalaria..
A
dupla imagem formada na taça fez com
que eu percebesse que são duas as linhagens
básicas da cavalaria medieval, dois os
grandes arquétipos: o cavaleiro de Deus
e o cavaleiro do Mundo. Não poderíamos
dizer linhagens opostas, pelo menos não
antagonistas, mas apenas formas diferentes de
encarar a cavalaria, formas diferentes de interpretação
do código cavaleiresco.
Tristão
seria o ideal de Cavaleiro do Mundo. A mola
mestra de suas ações é
nada menos do que o amor. Não o amor
fraternal, o amor pelo próximo, mas o
amor-paixão, o amor cortês, puro
pathos. Pensei em Lancelote. Entretanto, apesar
de suas ações também serem
guiadas pela paixão, ainda lhe resta
a consciência do pecado, o medo do fogo
infernal, não só para ele, mas
também para Guenevere(3)
. Isto fica bem marcado no episódio em
que o cavaleiro tem a visão da rainha
nua, sentada em um trono de chamas, vítima
do sofrimento eterno pela traição.
Tristão não sofre senão
pela ausência da amada. O amor por Isolda
é mais forte do que o dever de vassalagem
para com o rei, do que o laço de família
com tio. Ele não hesita em tomar Isolda
para si mesmo diante da dupla traição.
Pelo
outro lado, empunhando o escudo com o brasão
de Deus, a primeira personagem que me ocorreu
foi o próprio Galahad. Puro, intocado
pela mácula do louco-amor. Corpo e alma
brancos como as armas que carrega. Incapaz do
pecado, incapaz do erro, ainda que por um nobre
motivo que o justifique. Galahad é perfeito
como o próprio Cristo. Como o próprio
Cristo... E esta frase deu origem à idéia
que começou a me tentar...
X
Em
um primeiro momento me pareceu algo difícil
de ser provado, porém, com algum esforço,
recorrendo a algumas passagens da Bílbia
- livro que confesso não ter lido, apesar
de conhecer algo por leituras indiretas - a
idéia começou a ficar mais palpável
e mais sutentável, consequentemente.
Uma
comparação entre Cristo e Galahad.
Mais. Galahad como símbolo do próprio
Cristo no texto da Demanda. Quanto mais eu mergulhava
na idéia, mais ela me fascinava. E a
imagem do cavaleiro na minha taça de
vinho, no sangue de Cristo, só me exortou
a continuar com meu delicioso exercício
de especulação.
A
introdução do cavaleiro no palco
dos acontecimentos do Graal coincide com a festa
de Pentecostes, ocasião pela qual estão
reunidos em volta da Távola Redonda todos
os bons paladinos de Arthur. Pentecostes, para
a religião cristã, simboliza a
descida do Espírito Santo à esfera
terrena. Galahad desce à Camelot, por
assim dizer, em sua armadura vermelha, envolto
em vermelho, como outrora o próprio Cristo
desceu da cruz banhado em sangue.
Galahad
é filho de Lancelote. E, estando Lancelote
imerso em pecado por seus amores adúlteros
com Guenevere, me parece lícito dizer
que é Galahad que vem para expiar a culpa
do pai ao recuperar para a cristandade a mais
sacra das relíquias, o Graal. Segundo
Albert Cousté, em seu Biografia do Diabo,
a missão de Jesus Cristo é a de
retirar o pecado do mundo, pecado este permitido,
pelo menos virtualmente, pelo próprio
Deus, ao expulsar Adão e Eva do Paraíso
após o pecado original. Assim, tanto
Jesus quando Galahad teriam a missão
de redimir um pecado permitido, no primeiro
caso, e cometido, no segundo, por seus pais.
Também
é curioso o fato de serem em número
de doze os cavaleiros do Graal. Ora, esse número
é muito significativo, uma vez que eram
doze os apóstolos. Assim, temos, no banquete
em Camelot, uma réplica da Santa Ceia,
não com o Rei assumindo a figura de Cristo,
mas sim Galahad. Dessa forma, reunidos em torno
da Távola Redonda, estão o Pai
- Lancelote, o Filho - Galahad, e o Espírito
Santo, na figura do Santo Graal que desfila
perante os olhos dos cavaleiros, envolto em
uma aura brilhante. A Santíssima Trindade.
Entretanto,
se prestarmos atenção somente
aos atos de Galahad ao longo do texto, deparar-nos-emos
com um comportamento muito peculiar. O filho
de Lancelot me parece ser o único dos
cavaleiros do Graal, ao que me lembre, que não
ostenta o orgulho secular pelas armas que carrega.
Não quero dizer que a honra, no sentido
em que ela se assemelha a orgulho pessoal, não
faça parte da personalidade do cavaleiro,
mas ele a expressa de uma forma um tanto quanto
diferente. Galahad me passa uma certa impressão
de humildade que não consigo reconhecer
em seus demais companheiros. O status de cavaleiro
no século XII poderia ser comparado ao
de uma estrela de Holywood dos tempos modernos.
E se os cavaleiros do Graal desfrutam desse
status, sentem-se envaidecidos por estaram um
degrau acima dos meros mortais, empunham seus
escudos e suas insígneas com pompa e,
por que não dizer, soberba, Galahad não.
Druante toda a sua provação em
busca do cálice sagrado, ele mantém
a mesma atitude humilde, assim como Cristo o
fizera, apesar de ser o filho de Deus.
Falei
em provação. Ainda que todos esses
fatores que citei contribuam para que encaremos
Galahad como um ícone da figura de Cristo,
creio que seja nesta palavra, provação,
que se encontre a chave para minha hipótese.
Assim
como o Novo Testamento relata inúmeras
situações em que Jesus teria sido
tentado pelo Demônio para que abandonasse
o caminho de Deus, a Demanda do Santo Graal,
pelo menos nos capítulos que dedica ao
filho de Lancelote, também não
deixa de ser um relato das tentações
do Diabo sobre o cavaleiro Galahad. Não
são poucas as vezes em que o jovem se
depara com essas tentações, mas
procurarei me restringir, aqui, ao trecho escolhido
para análise, o episódio em que
Boorz e Galahad chegam ao castelo do rei Brutos.
Creio
não ser necessário dissertar sobre
as concepções da sociedade medieval
acerca do sexo. Sabemos muito bem como o século
XII encarava as relações homem
- mulher, as tratando como mais uma das tarefas
de administração do reino, muito
embora os poemas dos trovadores estejam repletos
de amores arrebatadores e românticos,
para usar um termo que ilustra muito bem aqueles
versos, ainda que só fosse ser inventado
uns seis séculos mais tarde.
É
plenamente compreensível que as tentações,
na Idade Média, se relacionem quase sempre
com a mulher. Afinal, como a responsável
pela introdução do Pecado no mundo,
a sua figura estaria associada com o próprio
Diabo até os tempos da Inquisição.
E é justamente através de uma
mulher que se manifesta a primeira tentação
de Galahad.
Vivendo
trancada no interior dos muros do castelo de
seu pai, a filha do rei Brutos se apaixona perdidamente
pelo cavaleiro. É interessante o caráter
anônimo da donzela, o que ratifica sua
posição de mero instrumento de
tentação, obstáculo que
o herói tem de superar em sua busca interior.
Ela não é uma personagem sólida.
Talvez sequer possamos chamá-la de personagem...
O fato é que nela residem os dois elementos
que se unem para constituir a provação
de Galahad: a figura feminina e o sexo.
O
amor que a donzela protesta, ao deitar-se na
cama do cavaleiro, em segredo, envolvida pela
proteção da noite, não
é o amor puro e casto das cantigas dos
trovadores. Pelo contrário, é
o desejo carnal, o amor-paixão em sua
forma mais extremada. Ela toca o corpo do cavaleiro,
ela o deseja enquanto carne, não enquanto
espírito. Talvez Galahad pudesse aceitar
aquela espécie de amor, mas seu temperamento
crístico, por assim dizer, o impede de
tolerar o contato de corpos.
O
caráter de tentação se
afirma mais ainda quando, mesmo ao perceber
que Galahad não era pertencente à
classe que chamei aqui de Cavaleiros do Mundo,
pelo contrário, era um piedoso, o que
se manifesta pelo uso da estamenha(4),
ela continua a nutrir seus desejos pelo jovem.
É um embate interno, uma marca contraditória
da donzela: por um lado ela sabe ser impossível
atingir seu objetivo com Galahad, entretanto,
mesmo sem a mínima esperança,
ela continua tentando, e uso aqui essa palavra
com seus dois sentidos.
-
Ai, infeliz! Que é isto que vejo? Não
é ele cavaleiro dos
cavaleiros andantes que dizem que são
namorados, mas é daqueles
cuja vida e alegria está sempre em penitência...
Este é dos verdadeiros
cavaleiros da Demanda do Santo Graal e em má
hora foi tão formoso
para mim.
Se
a donzela possui essa certeza, por que mais
continuaria com suas súplicas senão
pelo seu caráter de instrumento de tentação?
Mas
é quando Galahad acorda e encontra a
linda mulher em seu leito que sua prova de fogo
realmente tem início. E é curioso
como ele assume uma posição irredutível
ao longo de todo o episódio, sensibilizando-se
unicamente quando a donzela salta do leito,
frustradas todas as suas esperanças de
uma noite com o cavaleiro.
Quando
ouviu isso não esperou mais, antes saiu
do leito onde
se encontrava e correu à espada de Galaaz,
que pendia a entrada
da porta da câmara, e sacou-a da bainha
e pegou-a com ambas
as mãos e disse a Galaaz: - Senhor cavaleiro,
bem vedes o engano
que havia nos meus primeiros amores. E mau dia
fostes tão formoso
para mim que tão caro me convirá
comprar vossa beleza.
É
somente quando a donzela toma a espada em suas
mãos e o cavaleiro percebe que ela realmente
porá fim a vida por amor a ele que a
atitude impassível vem por terra e Galahad
cede à tentação:
-
Ai, boa donzela! Tem um pouco de paciência
e não te mates
assim que farei todo o teu prazer!
Entretanto
a própria rendição de Galahad
me parece aqui mais um ato de sacrifício
por amor fraterno do que de fraqueza propriamente
dita. A frase desesperada do cavaleiro tem muito
mais de Jesus Cristo crucificado por amor ao
mundo do que de Eva seduzida. E talvez seja
exatamente por isso, pela natureza altruísta
dessa, digamos, queda, de Galahad que ela não
se consume no plano físico. A donzela
realmente enterra a espada no peito, pondo fim
à virtualidade do pecado. Consciente
de que houvera feito o possível, o cavaleiro
não mostra sinais de remorso. Talvez
até o mostrasse se não precisasse
defender a própria vida contra os cavaleiros
de Brutos. Mas o fato é que não
mostra. E assim o espírito do paladino
continua imaculado, não tocado pela mancha
do pecado. Galahad continua mais Cristo do que
nunca, uma vez que até mesmo o sacrifício
simbólico - a pureza de sua alma em troca
da vida do próximo - foi virtualmente
praticado.
X
Confesso
que a idéia me fascinou. Provavelmente
este pequeno texto renderá alguns frutos
no futuro, uma análise mais apurada,
mais elaborada.
Não
pretendi aqui trazer uma resposta definitiva.
Estas linhas foram, como anunciei nos primeiros
parágrafos e no próprio sub-título
do texto, mais especulações teóricas
do que uma análise literária propriamente
dita. Mas acredito que, muitas vezes a especulação
movida pela paixão seja mais frutífera
do que a aplicação de mil teorias
prontas. Ainda tenho uma certa dificuldade em
encarar literatura como ciência exata,
com regras e parêmetros definidos, e talvez
a tenha em virtude de não querer tratá-la
assim. Acredito mais na imagem dos Galahads
flutuando em minha taça de vinho do que
em tudo o que foi escrito sobre ele até
hoje. Mentalidade medieval, diriam alguns. Talvez.
Eu prefiro dizer que é apenas uma forma
de se aproximar dessa fascinante dimensão
chamada Literatura.
Notas
1
- Bem... Se Proust baseou um romance no gosto
de bolinhos, creio que não esteja cometendo
um pecado grave, aqui. Até mesmo porque
o vinho é o sangue de Cristo.
2
- Esta é uma das contaminações
a que me referi algumas linhas acima. Tenho
uma dificuldade muito grande em utilizar os
nomes dos personagens arturianos em suas formas
portuguesas. Espero que isso não acarrete
problemas realtivos à fulidez da leitura.
3 - Genevra.
4
- A estamenha era uma espécie de camisa
áspera que monges e penitentes em geral
usavam junto ao corpo como uma forma sutil de
auto-flagelação.
Róger
Monteiro
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