7 April, 2003 10:42
 

A IGREJA DO DIABO - (DES)ORDEM RABELASIANA
por Meire Oliveira Silva


1 - O contador de histórias, Machado de Assis.

        Até o Romantismo, na literatura brasileira, era pouco difundido o gênero do conto, sobretudo, porque eram poucos os escritores que se dedicavam a essa especialidade. Mas ainda hoje, mesmo os que não conhecem, a fundo, as principais nuanças da nossa literatura, já ouviram falar de algum conto de Machado de Assis - um dos mais conhecidos escritores brasileiros, que poderia ter sido ainda mais estudado e aclamado em todo o mundo, segundo alguns críticos, se não tivesse nascido aqui, e nem escrito em português. Seus contos são mais conhecidos até do que seus romances, e há quem diga, por exemplo, que o contista Machado de Assis chega a superar o romancista. Coube a ele dar aos seus contos uma densidade e uma qualidade insuperáveis em nossa literatura, que abriram caminhos para muitos outros escritores que vieram após, como Clarice Lispector e Mário de Andrade, para citar somente alguns dos "machadianos modernos".
         Machado de Assis é singular na Literatura Brasileira. Ele adaptou a clássica língua portuguesa para tratar dos assuntos pertinentes aos interesses do brasileiro "atemporal", ou seja, do homem universal. Essa língua sentia necessidades de expressar uma realidade nova, e para isso a literatura machadiana surgiu. Não se envolvendo em questões políticas, seus romances e, principalmente, seus contos traziam problemas ligados à psique humana; ao esmiuçamento dos problemas referentes à alma humana. O Machado de Assis contista em nada fica devendo ao Machado de Assis romancista, porque seus próprios contos já trazem uma grande profundidade, fazendo com que esses últimos possam ser considerados como "romances sintéticos", condensados em pequenas páginas. Seu primeiro trabalho como contista, o livro "Contos Fluminenses", assim como "Histórias da Meia-Noite", o segundo, trazem a temática "romântica" da questão da ascensão social a qualquer custo. Esses temas já teriam sido explorados em "A Mão e a Luva", "Iaiá Garcia", "Ressurreição", "Helena"; quatro romances de uma fase que ainda trazia muito dos aspectos exercidos a esmo pelos escritores românticos. Alguns chamam a essa uma fase de transição. Há um certo "didatismo" ao nos atrevermos a classificar o autor de "Dom Casmurro" desse modo, mas o fator percebido é que, a partir de "Papéis Avulsos", a situação muda significativamente, pois, nesse livro há uma reunião de excelentes histórias a partir do grande aperfeiçoamento da linguagem. Existem, também, muitos aforismos, e nisso Machado é mestre. Logo a seguir, em "Histórias Sem data", de onde tiramos o conto que será estudado - A Igreja do Diabo - a qualidade dos contos continua a subir. Depois, seguem-se "Várias Histórias", com os brilhantes contos "A cartomante" e "Uns braços". E, já aqui, notamos algumas das mulheres machadianas dos romances, que muito se identificam com essas, dos contos. Também a intriga conjugal e os pequenos deslizes matrimoniais são mostrados continuamente. Isso se repete em "A Missa do Galo", do próximo livro "Páginas Recolhidas". Já em "Outras Relíquias" temos o brilhante "Viagem à Roda de Mim mesmo".
        Em seus contos, Machado de Assis faz um estudo dos pequenos problemas do ser humano. Através de apólogos, diálogos, aforismos, o autor de "Esaú e Jacó" tece uma teia de observação do ser humano e acaba analisando-o psicologicamente. Analisa as mais intrínsecas questões do indivíduo. Mas a predominância do filosófico e do moralista é outro fato recorrente. Também a sua narração, que tem como ponto central, muitas vezes, as mulheres com seus pequenos dramas e angústias, pode ser dividida entre o épico e dramático, tais as surpresas que se revelam em cada narrativa, que tem episódios curiosos e desfechos amargos, como no célebre conto "O Relógio de Ouro". O riso machadiano não é gratuito e a sua literatura não é de fácil compreensão. Mesmo tendo na oralidade a característica mais viva de seu estilo, as complexidades da escrita e da organização de seus pensamentos necessitam de grande dedicação para serem decifradas.

2. A Igreja do Diabo

        Nesse conto, Machado de Assis conta a história narrada num velho escrito beneditino, que numa certa vez, o diabo teve a idéia de fundar uma igreja. Nela, ele teria de recolher todos os fiéis que cometiam pecados ou que possuíam vícios incontroláveis. Quando vai contar a notícia a Deus, argumenta de várias maneiras e já ri triunfante devido o êxito sobre o mestre que, um dia, o venceu. Logo ao chegar, fica na porta observando um velho senhor que acabava de ser chegar aos céus por salvar dois jovens noivos sacrificando sua própria vida. O Diabo não dá ouvidos e diz que aquele seria o último, porque diante da possibilidade de liberdade total, quem daria importância aos antigos dogmas do cristianismo? Diante da retórica do velho Diabo, Deus se aborrece e ordena-lhe que desça novamente à Terra para fazer o que quiser, desde que pare de repetir aquele velho discurso, dito e redito pelos velhos moralistas, que já enfastiava até os anjos divinos.
        E o Diabo volta à Terra, sem perder um minuto, para transmitir as boas novas aos homens. Prega todo o contrário das doutrinas cristãs e consegue muitos adeptos. Só que, contraditoriamente, depois de reunir vários fiéis que comungavam na negação de todas as virtudes divinas junto a ele, começa a notar a volta de certos hábitos antigos. Diante da permissão de se cometerem pecados, há a proibição implícita da bondade. Como toda a proibição só estimula a ação, os homens começam a ser fiéis a Deus novamente. O Diabo volta aos céus, sem compreender, e Deus o consola com uma frase complacente, a propósito de uma alegoria:

" _ Que queres, tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana."

2. Franjas de Algodão

        O conto "A Igreja do Diabo" traz uma série de alegorias e símbolos. A literatura machadiana se baseia muito na simbologia de uma forma geral, mas é nesse conto que esse recurso aparece recorrentemente, assim como o humor trágico e amargo dado o pessimismo com que Machado de Assis enxerga a alma humana. Nesse conto, Machado exercita a sua capacidade de julgamento de atos buscando uma verdade que se mostra cruel na máscara do riso.
        O esboço humano que o escritor traz nesse conto, mais uma vez, é o do homem facilmente corruptível e sujeito às influências malignas ou de qualquer espécie. Neste quadro, retratado por Machado sobre esse ser que só pensa em seus próprios benefícios, mesmo que estes impliquem em sua moral, os vícios humanos são mostrados de maneira sutil nos contos. Já em "A Igreja do Diabo", o escritor tece uma outra "nova teoria sobre a alma humana", depois de "O Espelho". Essa teoria se dá por meio de várias alegorias e mitos. O autor de "Quincas Borba" mostra essa imagem humana refletida num espelho invertido. O que o Diabo propõe é uma doutrina muito semelhante a de Deus, com a única diferença de que acaba sendo sua mais profunda negação. O Diabo se propõe a negar o que reflete; mostrar o contrário.
        Trata-se de um conto "moralizante" e, em vários pontos, se assemelha a um apólogo. Só que as imagens de que dispõe são elaboradas artisticamente. É notável a influência de Rabelais que, inclusive, é citado numa passagem do texto.
        De uma complexidade incrível, "A Igreja do Diabo" funde vários elementos, o que dificulta a sua análise, sem antes explicarmos, passo a passo, a origem de cada um deles. A questão da abordagem do tema religioso sendo explorado parodicamente, remete o conto à Sátira Menipéia e a Rabelais, pois os símbolos tomados por Machado de Assis são mais do que tipos carnavalescos sem importância, porque em determinado momento, há uma crítica, não da religião, mas da própria fé humana. É uma crítica psicológica que dá uma realização artística do olhar do escritor sobre a realidade contemporânea.
        É o esmiuçamento do pessimismo machadiano que, ironicamente, aponta as mazelas humanas. O que parece é que assim como em seu conto, Machado de Assis prefere transferir aos homens todo o seu ódio e indiferença, porque com toda essa tirania e hipocrisia não há como acharmos na sua literatura exemplos das virtudes humanas. Tudo se reduz à maldade e ao egoísmo. Dessa forma, o Diabo no conto defendeu que o amor ao próximo era "uma invenção de parasitas" e que este não merecia nada além da indiferença; e em alguns casos, até mesmo o ódio e o desprezo. O que parece é que Machado de Assis encarna o próprio alter ego da figura do Diabo no conto, sendo seu próprio Fausto. Em seus contos, são raros os atos honestos e nobres e, se aparecem, estão sob a máscara do egoísmo, arrastando "as franjas de algodão na capa de veludo."
        Por meio de apólogos e máximas, o Diabo explica a necessidade da nova instituição, demonstrando-a com a maestria de manipulação de recursos de estilo, entre eles o uso da ironia a favor de jogos lingüísticos na criação de uma linguagem refinada. A visão machadiana do mundo é perseguida pela sombra do pessimismo, que se revela na descrença da melhora do espírito humano. Machado não acredita nas virtudes humanas. O mundo, na concepção machadiana, é aquele em que o Mau predomina sobre o Bem, e no qual, as virtudes estão submetidas às mazelas.

4. Os alicerces da Igreja

        O conto está dividido em 4 capítulos curtos. No primeiro, há a introdução, que é baseada na explicação da lenda sobre a idéia do Diabo fundar a sua própria Igreja para a destruição das outras religiões, negando tudo e sempre. Trata-se do reflexo da imagem da religião cristã num espelho invertido:

                "Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo."

        No segundo capítulo, há a imagem metafórica das "virtudes", quando comparadas às rainhas que têm mantos de veludo e franjas de algodão. Os mantos de veludo se referem aos fiéis cristãos e as franjas de algodão, aos seus pecados. Muitos, aparentemente, fiéis a Deus, estão na curiosidade limite entre a virtude e o pecado. O Diabo ainda toma a misantropia, que poderia estar tomando o aspecto da caridade, quando Deus conta-lhe a história do velho ancião que morrera para salvar um casal:

                
"...deixar a vida a outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los."

         Esse pensamento e aversão ao homem surge no melancólico desabafo de Brás Cubas:

                "Não tive filhos, não deixei a outrem o legado de nossa miséria."

        Justamente essa visão pessimista do mundo, de acordo com o escritor, que traz os homens à submissão do Diabo depois do "abandono" de Deus porque a vida na Terra nada mais é do que desilusão e fracasso, na concepção machadiana.

5. O mito de Ícaro


        Nada da literatura machadiana acontece por acaso. As várias referências de autores, histórias bíblicas, mitos e símbolos; tudo faz parte de um macrocosmo complexo de labirintos, por onde deve percorrer a imaginação do leitor ávido por novidades. Em "A Igreja do Diabo", conto riquíssimo em detalhes e analogias, podemos ver a atualização de uma lenda que trata de personagens do imaginário cristão, por outro lado, uma forma velada de se expor um mito.
        O mito traz uma nova maneira de se ver o mundo, tendo sua historicidade e, embora, estruturalmente ele volte a aparecer, essa retomada se faz em relação ao mundo genérico. Essa atualização da maneira de ser do mito, como sendo um objeto de renovação, é usada para a explicação das transformações do homem, e é disso que Machado de Assis se utiliza nesse conto; a tomada de um mito religioso para a demonstração do caráter humano. Essa evolução está associada a uma estrutura de tempo não retilinear, mas cíclica. Como na sucessão de dias ou de estações de ano, os mitos se renovam. Esse é um mundo motivado pelo tempo dialético, portanto, de oposições, num pensamento dicotômico. Essas oposições que nascem em síntese, por sua vez, originam uma antítese, e assim, sucessivamente. Numa analogia, podemos fundir o preto e o branco, tendo o mestiço, que será um produto que, involuntariamente, negará os dois primeiros fatores. Como nos gêmeos Pedro e Paulo, de Esaú e Jacó, que também renovando o mito de Caim e Abel, são idênticos e, paradoxalmente, sendo a negação um do outro. Ou seja, quando existe a fusão, existe simultaneamente, a negação da fusão.
         O que se apresenta aqui é, novamente, a idéia do espelho que acaba por refletir uma imagem inversamente ao objeto original. Deus e o Diabo, no conto, são também muito parecidos: ambos irônicos e perversos, até sob a máscara da bondade, e muito frios ao calcular todos os meios de se controlar e atrair seus fiéis. Ambos são reflexos da personalidade humana e por isso, popularmente, se ouve dizer que há um anjo e um demônio em cada indivíduo. O Diabo sugere, desde a sua origem bíblica, o mito de Ícaro; aquele que obtém do Pai asas para voar, mas cai nas águas profundas do Oceano, por desejar subir mais alto do que deveria ir. Deus é o mito bíblico do Pai, sempre disposto a perdoar com sua benevolência sem fim. No labirinto construído por Dédalo, pai de Ícaro, foi o próprio homem quem acabou tendo que percorrer. E Deus também deu-lhe asas ou opções; no livre-arbítrio para escolher entre querer voar com ele ou voar mais alto, indo para o outro lado.
         No conto "A Igreja do Diabo" há muitas simbologias portando-se como o verdadeiro labirinto da cultura clássica; indecifrável. Vê-lo de cima ao voar é dar asas à imaginação e ao sonho, mergulhando na linguagem indecifravelmente machadiana.

6. Faustos e Mefistófeles


        Quando o Diabo chega ao céu, diz a Deus não vir pelo servo Fausto, mas "por todos os Faustos do século e dos séculos" (e esse trecho já se trata de uma paródia do final da liturgia na missa católica), reporta-nos ao Mefistófeles, do escritor alemão Goethe. O evidente da obra alemã está na "simpatia" que Deus demonstra a Mefistófeles e que, aliás, é recíproca. Assim como nem em Fausto, de Goethe, e nem na literatura machadiana, as palavras são empregadas gratuitamente, vemos na primeira, o adjetivo alemão "gern" ("de muito bom grado", "prazerosamente") pronunciada por Deus e pelo Diabo. Da mesma maneira, no conto machadiano, quando Deus se dirige ao Diabo com "olhos cheios de doçura" e este o chama de "mestre", existem provas demonstrativas da mútua admiração que se traduz nessa constante troca de elogios das duas partes.
        Paradoxalmente, a existência de uma simpatia inesperada entre Deus e o Espírito Negador traz o 'inesperado' que é recorrente em Machado de Assis, no entanto só para o leitor atento. Assim, veladamente, pode denotar significações ainda mais profundas. Em Machado, essa "cumplicidade" entre os dois espíritos contrários chega a ser compreensível pois quando escreve a Joaquim Nabuco, em 29-08-1903, conta que, talvez seja "verdadeiro" o seu pessimismo. Completa dizendo que faz "às vezes mais justiça à Natureza do que ela a nós". Aquela mesma Natureza, "mãe e inimiga", que não poupa expondo as feridas humanas ao mundo. Ela segue errando e não preocupa com isso, pois também é má. Em Goethe: "A Natureza não se preocupa com erros; ela mesmo os repara e não pergunta qual seria o resultado de tudo isso." Isso também mostra a elasticidade do caráter humano e da complacência divina.
        O Mefistófeles machadiano, como espírito que nega, não se põe contra Deus, e sim, contra a Vida, que é ingrata. Aqui, existe muito do pessimismo machadiano. Assim como Mefistófeles pede a Fausto que pare "Verwille doch!", numa metáfora para a perdição da alma do outro, não está negando o Criador, mas a sua criação, a própria Vida.
        O "Diabo" de Machado de Assis, mesmo lutando contra o Bem, acaba colaborando com Deus, e por isso o criador o deixa fundar o seu ministério para recolher os homens que estão perdidos. Para o Mal personificado no conto, o erro é necessário à humanidade. O autor afirma que o Diabo comunica ao Senhor a fundação da Igreja, por "lealdade" e para "não ser acusado de dissimulação". Os motivos que o levam à tal empreendimento é o do desejo da organização e da retificação da sua imagem que, segundo ele, não era como diziam as "velhas beatas" e que, na verdade, era "gentil e airoso". Outras vezes, o Diabo se denomina o "próprio gênio da Natureza", provocando aqui uma inversão de papéis. O Diabo colocou-se no patamar de Pai de Deus. De quem é, afinal, o reino "casual e adventício"?
        Com a imposição de novos dogmas e crenças, o Diabo persuade até convencer os homens de que o Mal pode ser melhor do que o Bem. Multidões vêm a ele crendo nessa nova descoberta, assim como vieram a Jesus, quando este veio ao mundo como Messias enviado por Deus para salvar a humanidade. O Diabo também usa de apólogos e símbolos para exemplificar sua doutrina. Uma dessas alegorias é a das franjas e mantos de algodão ou de seda. O que demonstra o caráter ambíguo do homem. Mostra, dialeticamente, a convivência harmônica dos paradoxos que apresentam virtudes boas e más. A dissimulação da figura feminina na obra machadiana também traz a velha idéia da femme fatale, que tanto gostavam os simbolistas portugueses. A mulher anjo e demônio, que condensa o Bem e o Mal em si harmonicamente. Nesse âmbito, as mulheres machadianas podem ser consideradas uma espécie de renovação do mito de Salomé.
        Machado mostra a dualidade de caráter em cada um dos preceitos pregados pelo Diabo. Um exemplo é o do Padre Galiani, que ligado aos enciclopedistas franceses, mesmo sendo religioso levava em consideração a utilidade e a raridade das coisas: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" - frase que parece proferida da boca do próprio Machado.
        O Diabo também se assemelha às mulheres machadianas pela móvel combinação de interesse, desejo e ascensão social, sempre desejando ser maior do que Deus. Essas estranhas teorias de comportamento expostas por Machado, mesmo ao se tratar da idéia do Diabo de recolher fiéis, é explicada pelo mais sábio dos bonzos:

"Se puserdes as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos em um sujeito solitário, remoto de todo o contato com os outros homens, é como se eles não existissem. Os frutos de uma laranjeira, se ninguém as gostar, valem tanto como as urzes e plantas bravias, e, se ninguém as vir, não valem nada; ou por outras palavras mais enérgicas, não há espetáculo sem espectador."
(O Segredo do Bonzo)


7. A Questão da Paródia - influência rabelaisiana


        O Diabo afirma, assim como o bonzo, que os homens só fazem o bem quando existem pessoas observando. Só que esse espetáculo que não existe sem observadores, tem um riso que é festivo e não somente amargo. Leitor ávido da Bíblia e de Rabelais, Machado, em muito, se inspirou na cultura clássica para escrever. A Sátira Menipéia é recorrentemente aludida em sua obra. Só que o humor machadiano é um humor refinado, importado, mas com vestígios desse riso carnavalesco pleno e duradouro de Rabelais.
        Luciano, com Diálogo dos Mortos, inspirou diretamente muitas obras machadianas, entre elas, o célebre "A Teoria do Medalhão". Em Mikhail Bakhtin, também podemos encontrar base para a interpretação de vários símbolos e alegorias que aparecem em Machado de Assis. Primeiramente, o riso que ele provoca em "A Igreja do Diabo" é ambivalente. Tem esse caráter porque só pode ser considerado dentro do seu relativismo; é alegre e, ao mesmo tempo, sarcástico. Negação e afirmação na dicotomia das figuras de Deus e do Diabo.
        Assim como o mito está em contínua renovação do mundo em evolução, o riso também tem essa função de renovar o homem porque ele se sente incompleto, em eterna transição. Como autor que satiriza, Machado de Assis emprega esse humor negativo atingindo, individualmente, a cada um de seus leitores. O resultado é a comoção coletiva do riso festivo popular, que expressa a opinião sobre um povo que está num mundo em plena evolução.
        Esse mundo que modifica-se continuamente, vem representado pelas mudanças de seu povo. A religião é um modo de se ligar de novo a determinada crença. É o estabelecimento de um elo com algo maior que o homem. Machado ri dessa intransigência humana: de agarrar o que lhe oferecem sem refletir sobre isso. Ri, inclusive, da "eterna contradição humana", e do gosto pelo proibido, preconizado desde o mito bíblico de Eva. Quando a primeira mulher come do fruto proibido, tem abertos os olhos passando a conhecer o Bem e o Mal. Querendo ser maior que Deus, ela cai, sendo uma das precursoras do Ícaro da cultura clássica.
        Como vimos, na Bíblia, o salário do pecado é a morte. No entanto, em "A Igreja do Diabo", o pecado tem seu aspecto positivo. O Diabo expõe o Decálogo num plano inverso. Mostra que a Lei de Deus pode ser falha, dando margem a várias interpretações. Nisso, apresenta que o seu Espírito de Negação é suficiente, que a negação é sublime e singular. Com a "carnavalização" de doutrinas, milagres, moralidades e mistérios divinos, Machado de Assis é que nega tudo. Essas 'blasfêmias' dirigidas a uma divindade, pelo diabo do conto, constituíam um elemento necessário nos cultos cômicos mais antigos, só que essas 'blasfêmias', ao mesmo tempo que degradavam, renovavam; negando e reiterando. É nesse jogo de palavras que Machado de Assis cria esse retrato cômico do mundo, dividido entre a luta do Bem e do Mal. Assim como os vários exemplos de personagens machadianos cindidos entre a eterna dúvida.
        Quando Rabelais é citado com seus banquetes, como uma desculpa para a absolvição da gula, Machado se vale desse realismo grotesco para rebaixar o homem à terra, corporificando-o cada vez mais. Mesmo essa divisão Céu/Terra usa símbolos do "alto" e do "baixo" material. Existe a aproximação da terra, que na paródia medieval, tem o sentido de entrar em comunhão com ela, num princípio de absorção e de renascimento, porque havendo a morte, há também a vida. A morte, como resultado do pecado bíblico, pode ser analisada. Esse pecado original teria um caráter dual, sendo negação e afirmação, na literatura renascentista, tão bem explorada por Machado de Assis.
        O motivo da máscara é ainda mais complexo e carregado de significações. Constituindo uma alegre negação da identidade e da consciência de si mesmo, as máscaras, sempre presentes nas personagens machadianas, em "A Igreja do Diabo", são vastamente utilizadas nas figuras de Deus e do Diabo - um se torna a negação recíproca do outro e sua fiel tradução, simultaneamente. Essa máscara que dissimula, encobre e engana, se presentifica na demonstração do Diabo aos homens dos benefícios da sua doutrina. A figura do Diabo é muito curiosa, na cultura clássica, no sentido de se tratar de um alegre porta-voz da ambivalência de opiniões não-oficiais, ou seja, da santidade ao contrário. Diversas lendas búlgaras também se referem ao Diabo como uma figura simpática e criadora. Segundo uma dessas lendas, Deus e o Diabo firmaram um contrato sobre a divisão do universo: o Céu e os vivos para um, e a Terra e os mortos para o outro, respectivamente. Provavelmente, essa alusão à criação de uma Igreja para o Diabo não seja mera paródia, mas fruto de uma dessas lendas, e com isso, ponto de partida para o desenvolvimento dessa idéia contada com toda a erudição que parte das fontes machadianas.
        O Diabo machadiano não tem nada de aterrorizante ou estranho. Esse contraste entre Deus e o Diabo se torna uma antítese, onde o que se predomina é a dualidade que não distingue os limites entre o Bem e o Mal. Esse riso do Diabo que, como na acepção romântica, também é grande humorista, se opõe ao pessimismo característico machadiano. Na verdade, essa oposição reitera; é ambivalente. Mesmo quando o Mal supera o Bem, há um motivo para o humor. É interessante a idéia do Diabo, curiosa e cômica ao mesmo tempo. A postura de Deus diante do fato também o é, assim como o motivo final da surpresa, que é a própria contradição humana; o inesperado.

8. Os novos dogmas


        A idéia de que o Diabo, o espírito da confusão, buscava a organização de seu reino é interessante. Além disso, ele queria também a própria missa com muito vinho e pão, mesma alusão direta ao jejum cristão e à celebração do corpo e sangue de Cristo. O Diabo faz referências bíblicas, como a da "tenda de Abraão". Numa aspiração a reunir todos os povos - divididos pelas outras religiões - busca a religião única e suprema, que terá uma unidade fiel e verdadeira. Maomé e Lutero aparecem, não como a ameaça da religião islâmica ou protestante, mas como obstáculo facilmente transponível.
        A descrição que Machado faz do Diabo atribui-lhe uma imagem majestosa: "magnífico e varonil". Nos próprios gestos, o Diabo tem uma suntuosidade superior à divina, segundo a descrição do autor. O Diabo não apenas conversa com Deus sobre seus planos, mas o desafia. O ódio e a ânsia de vingança aparecem remontando ao episódio bíblico da expulsão de Lúcifer, o anjo de luz, dos céus por Deus. Os recursos de estilo são inúmeros, ornamentando a linguagem de Machado de Assis e criando um espelho de contraste imenso, mas que em determinado momento se turva já não reproduzindo imagens fiéis.
        Quando o Diabo chega aos céus, não entra. Inicia seu discurso retórico na entrada e só depois de Deus perguntar-lhe se sabe porque aquele velho ancião foi mandado para os céus, é que o Diabo ironiza dizendo não saber, aproveitando a oportunidade para expor suas idéias. O Diabo se refere ao céu como uma hospedaria de preço alto. Comparando a imagem divina a de um negociador. Por meio de várias ironias, o Diabo acaba transferindo a sua veia sarcástica para o autor. Diante do discurso do Diabo, comparando pessoas de boa índole a mantos de veludo e os bons atos a franjas de seda, o Senhor mostra dissimulação ao murmurar que se tratam de pensamentos de um "velho retórico". Enquanto o Diabo sorri triunfante, Deus parece se submeter "murmurando"; mais um indício de papéis inversos.
        Deus tenta demonstrar que o velho ancião, que acabara de chegar ao céu, salvou outras vidas, mesmo sem nenhum público. Não havia nenhum interesse, não tinham "franjas de algodão" no ato. O Diabo repele essa afirmativa com a ironia de que a misantropia pode ser só uma simulação de caridade. As imagens e os símbolos são inúmeros, sendo todos muito importantes dentro da narrativa.
        Ao se tratarem de pecados capitais, o Diabo toma exemplos literários a princípio. Justifica a ira de Aquiles, como responsável pela Ilíada, e só cometida por ele, por ser fruto do rapto de sua escrava, Briseida, e pela perda do amigo, Pátroclo. A gula encontra justificativa em Rabelais e seus banquetes - o comer e o beber estão amplamente explorados nesse autor por estarem ligados às festas, à palavra e à verdade alegre. Essas imagens mostram o homem num corpo que interage com o mundo. A imagem dos banquetes simbolizava a devoração dos bens que o homem conseguira por meio de seu suor, como manda a Bíblia; esse triunfo o opõe a Deus. Mesmo o pão e vinho, mencionados anteriormente, representam o mundo vencido pela luta e trabalho do homem. Trata-se de uma imagem idealista sobre a devoração do mundo vencido - há uma certa dose de paganismo nessa metáfora da superação de Deus. A alusão ao vinho é muito significativa, por sua vez, trazendo em oposição à seriedade do azeite, a liberdade: "As vinhas do Diabo" - sempre com muito exagero.
        O Diabo também refere-se ao pão e ao vinho para, como Cristo, dar um exemplo de preocupação com o homem. Na religião, o homem ao se referir a Deus, volta-se para suas necessidades básicas de sobrevivência: "O pão nosso de cada dia, dai-nos hoje." O Diabo quer ocupar esse lugar de Pai no conto. A Igreja como "hospedaria barata" mostra o acolhimento dos filhos que não tem como pagar as exigências divinas tão altas.
         Quanto à inveja, dá a simples explicação de que seria o estímulo à prosperidade. Uma grande inversão das coisas de todo o tipo. A venalidade foi tão logicamente explicada, que tornou-se "um monumento da lógica", como exemplifica o conto mostrando sua negação como hipocrisia e contradição. Indo dessa forma com todos os preceitos divinos, ao passo que distorce o outro; "não se deve amar ao próximo, a não ser que se tratem de mulheres alheias". Também por meio de um apólogo, que "foi incluído no livro da sabedoria", o Diabo se assemelha a Cristo, que por meio de parábolas ensinava aos homens na Terra:

"Usarei comparações quando falar com eles e explicarei coisas desconhecidas desde a Criação do Mundo" (Mateus, 13:34)

        É como se o Diabo tivesse percorrendo o mesmo caminho, desde Moisés, com o Decálogo, até o Messias, que "evangelizou" os homens ao fim de salvá-los. O apólogo: "Cem pessoas tomam ações de um banco, para operações comuns; mas cada acionista não cuida senão dos seus dividendos...", pode ser considerado como uma paródia à parábola da ovelha perdida, que prega que se um pastor tiver cem ovelhas e uma se perder, deve-se sair para procurá-la deixando as outras. Entretanto, o homem hoje se preocupa, fundamentalmente, com sua vantagens e lucros, ou seja, nos dividendos que lhe pesarão depois. Pode ser associada também a usura e à mesquinhez, considerados grandes pecados.

9. A Contradição Humana.


        O jogo de símbolos no conto é primoroso. Porém, a comicidade se propõe tragicamente quando, depois de seduzidos, os homens voltam a praticar as antigas virtudes e, às escondidas - de acordo com os ensinamentos cristãos, para os homens não praticarem seus deveres religiosos em público - sendo assim recompensados por Deus. Mesmo assim, praticavam as tais boas ações, de vez em quando e sozinhos, fazendo com que seus "mantos de algodão" tenham "franjas de seda"... O Diabo, inconformado com atitudes das mais curiosas e surpreendentes, deparou-se com o grande Mal verdadeiro; a contradição humana. Com o trecho: "... o pasmo não lhe deu tempo para refletir, comparar e concluir do espetáculo presente, alguma coisa análoga ao passado", Machado de Assis chama a atenção do leitor para a comparação da conquista inversa de Cristo na Terra convertendo os homens para salvá-los. O homem é pecador, mas Deus procura salvá-los a qualquer custo, olhando só seus bons atos. Segundo as Escrituras Sagradas, o arrependimento dos pecados garante a salvação.
        A "contradição humana" aludida no texto remete à contradição da religião cristã em eterno conflito com a essência do homem. Se, para a religião, só Deus existe e atua, agindo verdadeiramente, essa idéia religiosa contradiz o entendimento e o sentido natural que concede às coisas naturais uma certa espontaneidade; o livre-arbítrio humano. Criam-se dois pólos, um positivo que é Deus, e outro negativo que é o mundo. Deus só existe, na verdade, para explicar o sentido da máquina do universo. O homem, que é limitado de entendimento, revolta-se contra esse poder originalmente divino. A religião cristã vê o mundo num sentido prático, de uma origem mecanicista, como algo que foi criado por Deus. Essa máquina controlada divinamente leva o homem a crer alegremente numa força desconhecida despertando, desse modo, a consciência do homem de sua nulidade e dependência de Deus. O homem quer se libertar contra essas verdades presentes, contestando sua origem.
        Quando em "A Igreja do Diabo", os homens voltam a praticar as antigas ações é porque aquelas, de certa forma, tinham uma explicação, senão científica, metafísica. Já quando se revoltam contra o Diabo, é porque este estava impondo-lhes os antigos preceitos de obediência, indo contra a liberdade e adquirindo seu direito de controle da humanidade, sob a desculpa de uma religião, indo contra o direito natural do homem para seu próprio engrandecimento, obtendo maior espaço para suas ações. A estrutura religiosa, vista desse modo, é muito desoladora, explicando o pessimismo de Machado diante do mundo.
        A volta à prática das antigas virtudes pelos homens atordoa o Diabo. O homem seria tão contraditório que nada é capaz de defini-lo? Em Macário, de Álvares de Azevedo, o próprio Diabo diz que "de mulheres, nem eu que sou o diabo, as entendo". As mulheres de Machado de Assis também são enigmas indecifráveis. O homem é um ser inexplicável, só que o mais perturbador e surpreendente é a maneira pela qual ele usa o seu tão cotado livre-arbítrio.
        De acordo com a religião cristã, a verdade absoluta está na Bíblia e a fé é um objeto dessa verdade. Só que a Bíblia contradiz a moral e a razão, porque essa verdade está intimamente ligada a uma superstição. A Bíblia contradiz-se inúmeras vezes a si mesma; mas ela é a palavra de Deus, a verdade eterna. Se Deus é contraditório, por que o homem não seria também, já que é feito a imagem e semelhança do Divino? Quanto mais o homem se afasta da revelação divina, mais se aproxima do entendimento de Deus. Quando o homem se converte à Verdade da santidade e da fé entra, conscientemente, em contradição consigo mesmo, com o entendimento, por meio do livre-arbítrio confuso e desnorteante.
        No conto, Deus está conformado com essa contradição humana, justamente, porque sabe que esse sentimento de confusão parte d'Ele mesmo. Ao mesmo tempo que o Espírito Santo está contra o Espírito Negador, o pecado pode estar a favor do homem, por que, afinal, o que é o pecado, fora dos limites da religião cristã? O Diabo não propõe nada de extraordinário aos seus súditos, somente mais uma manipulação em forma da liberdade tão almejada do pecado. E o homem quer ser livre, por isso, vive se contradizendo o tempo todo. Porque quando não se está sobre domínio de um deus, há a negação de todos os princípios morais; suprime-se toda a diferença entre bom e mau, virtude e vício.

10. O salário do pecado


        A obra machadiana é permeada de surpresas e fatos curiosos; não só em suas histórias, como nos fatos que a constituem. Com personagens densos e "humanamente verdadeiros" - no sentido amplo que essa expressão impõe, com todos os pormenores que existem no coração humano - Machado de Assis cria uma narrativa de tensão por ser tão perturbadora, deixando no leitor aquela sensação de asfixia.
        As tramas, muito bem elaboradas, primam pela maestria de manipular bem as expressões, originando situações inteligentes e de um fino teor irônico e sarcástico. Em "A Igreja do Diabo", o que temos é uma narrativa densa e, aparentemente, banal e de simples interpretação. Porém, para o leitor atento e bem munido de exemplos referencialmente citados ao longo do texto, a interpretação não se torna tão objetiva assim. Sobretudo, o mais importante é que se trata de uma grande apólogo constituído por outros menores; daí o seu caráter moralizante. Mas o que dá o toque genial ao conto são as inúmeras referências ao longo do texto. Quando esse fator é atentamente observado percebemos, claramente, os valores da sátira e da paródia constituindo um pilar que serve de base para a criação machadiana, principalmente, nesse texto, onde os elementos carnavalescos são fartamente explorados.
        A questão do mito também se remete à Bíblia e à cultura clássica. E esta última está intimamente ligada às culturas antigas que sacralizavam figuras pagãs. Ao rir disso, com sua ironia característica, Machado de Assis funde o riso festivo com o riso amargo do escritor que vê a vida com um pessimismo avassalador.
        A religião está sujeita à crítica ferina do escritor. As palavras não são em oposição a Deus, mas à Vida e ao Homem. Subvertendo todas as leis cristãs, Machado cria um Diabo bem diferente do imaginário popular, dando-lhe um caráter mais persuasivo e manipulador, nunca deixando de ser sedutor e excessivamente atraente. Não choca e nem ofende o leitor em nenhum momento, mas o perturba; deixa-o mais preocupado nas decifrações de analogias do que com assunto ali tratado; que na verdade o levaria para bem longe da Bíblia e do Sagrado, mergulhando-o dentro de si mesmo. Na realidade, o que faz rir é o caráter contestador da ordem vigente e da subversão de tudo o que é mais sagrado e oficial.
        Machado revela que sabe fazer uma brilhante sondagem psicológica do ser humano, mesmo quando prefere lidar com personagens simbólicas e não meras estereótipos. A verossimilhança apresentada no conto é paradoxal, porque não revela, antes de tudo, uma grande metáfora. Faz uma brincadeira muito perspicaz com o leitor, usando inúmeros recursos de várias fontes, chegando a ser sufocante. O retrato é cruel e melancólico, mas o resultado é imensamente satisfatório; sentimo-nos devorando Machado de Assis e rindo do par carnavalesco de Deus e do Diabo num banquete deliciosamente rabelaisiano.

 

BIBLIOGRAFIA

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     de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1997. Org. Afrânio Coutinho.

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular e no renascimento: o contexto
     de François Rabelais. Brasília: Hucitec, 1999. Trad. Yara
     Frateschi Vieira.

BERGSON, Henri. O riso - ensaio sobre a significação do cômico.
     Rio de Janeiro, Zahar, 1983. Trad.

BÍBLIA - Português. Bíblia Sagrada/Trad. Na linguagem de hoje -
     São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1998.

BOSI, Alfredo. "Uma figura machadiana", In: Céu, inferno. São Paulo:
     Editora Ática, 1998.

CANDIDO, Antonio. "Esquema de Machado de Assis", In:
    Vários Escritos. 3a ed. São Paulo: Duas Cidades, 1995.

ELIADE, Mircea. Mefistófeles e o Andrógino. Trad. Ivone C.
     Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 1991. (Coleção Tópicos).

FEUERBACH, Ludwig. A Essência do Cristianismo. Lisboa: Fundação
    Calouste Gulbenkian, 1994.

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