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A
IGREJA DO DIABO - (DES)ORDEM RABELASIANA
por
Meire Oliveira
Silva
1
- O contador de histórias, Machado de Assis.
Até
o Romantismo, na literatura brasileira, era pouco
difundido o gênero do conto, sobretudo, porque
eram poucos os escritores que se dedicavam a essa
especialidade. Mas ainda hoje, mesmo os que não
conhecem, a fundo, as principais nuanças da nossa
literatura, já ouviram falar de algum conto de
Machado de Assis - um dos mais conhecidos escritores
brasileiros, que poderia ter sido ainda mais estudado
e aclamado em todo o mundo, segundo alguns críticos,
se não tivesse nascido aqui, e nem escrito em
português. Seus contos são mais conhecidos até
do que seus romances, e há quem diga, por exemplo,
que o contista Machado de Assis chega a superar
o romancista. Coube a ele dar aos seus contos
uma densidade e uma qualidade insuperáveis em
nossa literatura, que abriram caminhos para muitos
outros escritores que vieram após, como Clarice
Lispector e Mário de Andrade, para citar somente
alguns dos "machadianos modernos".
Machado de Assis é singular na Literatura Brasileira.
Ele adaptou a clássica língua portuguesa para
tratar dos assuntos pertinentes aos interesses
do brasileiro "atemporal", ou seja, do homem universal.
Essa língua sentia necessidades de expressar uma
realidade nova, e para isso a literatura machadiana
surgiu. Não se envolvendo em questões políticas,
seus romances e, principalmente, seus contos traziam
problemas ligados à psique humana; ao esmiuçamento
dos problemas referentes à alma humana. O Machado
de Assis contista em nada fica devendo ao Machado
de Assis romancista, porque seus próprios contos
já trazem uma grande profundidade, fazendo com
que esses últimos possam ser considerados como
"romances sintéticos", condensados em pequenas
páginas. Seu primeiro trabalho como contista,
o livro "Contos Fluminenses", assim como "Histórias
da Meia-Noite", o segundo, trazem a temática "romântica"
da questão da ascensão social a qualquer custo.
Esses temas já teriam sido explorados em "A Mão
e a Luva", "Iaiá Garcia", "Ressurreição", "Helena";
quatro romances de uma fase que ainda trazia muito
dos aspectos exercidos a esmo pelos escritores
românticos. Alguns chamam a essa uma fase de transição.
Há um certo "didatismo" ao nos atrevermos a classificar
o autor de "Dom Casmurro" desse modo, mas o fator
percebido é que, a partir de "Papéis Avulsos",
a situação muda significativamente, pois, nesse
livro há uma reunião de excelentes histórias a
partir do grande aperfeiçoamento da linguagem.
Existem, também, muitos aforismos, e nisso Machado
é mestre. Logo a seguir, em "Histórias Sem data",
de onde tiramos o conto que será estudado - A
Igreja do Diabo - a qualidade dos contos continua
a subir. Depois, seguem-se "Várias Histórias",
com os brilhantes contos "A cartomante" e "Uns
braços". E, já aqui, notamos algumas das mulheres
machadianas dos romances, que muito se identificam
com essas, dos contos. Também a intriga conjugal
e os pequenos deslizes matrimoniais são mostrados
continuamente. Isso se repete em "A Missa do Galo",
do próximo livro "Páginas Recolhidas". Já em "Outras
Relíquias" temos o brilhante "Viagem à Roda de
Mim mesmo".
Em
seus contos, Machado de Assis faz um estudo dos
pequenos problemas do ser humano. Através de apólogos,
diálogos, aforismos, o autor de "Esaú e Jacó"
tece uma teia de observação do ser humano e acaba
analisando-o psicologicamente. Analisa as mais
intrínsecas questões do indivíduo. Mas a predominância
do filosófico e do moralista é outro fato recorrente.
Também a sua narração, que tem como ponto central,
muitas vezes, as mulheres com seus pequenos dramas
e angústias, pode ser dividida entre o épico e
dramático, tais as surpresas que se revelam em
cada narrativa, que tem episódios curiosos e desfechos
amargos, como no célebre conto "O Relógio de Ouro".
O riso machadiano não é gratuito e a sua literatura
não é de fácil compreensão. Mesmo tendo na oralidade
a característica mais viva de seu estilo, as complexidades
da escrita e da organização de seus pensamentos
necessitam de grande dedicação para serem decifradas.
2.
A Igreja do Diabo
Nesse
conto, Machado de Assis conta a história narrada
num velho escrito beneditino, que numa certa vez,
o diabo teve a idéia de fundar uma igreja. Nela,
ele teria de recolher todos os fiéis que cometiam
pecados ou que possuíam vícios incontroláveis.
Quando vai contar a notícia a Deus, argumenta
de várias maneiras e já ri triunfante devido o
êxito sobre o mestre que, um dia, o venceu. Logo
ao chegar, fica na porta observando um velho senhor
que acabava de ser chegar aos céus por salvar
dois jovens noivos sacrificando sua própria vida.
O Diabo não dá ouvidos e diz que aquele seria
o último, porque diante da possibilidade de liberdade
total, quem daria importância aos antigos dogmas
do cristianismo? Diante da retórica do velho Diabo,
Deus se aborrece e ordena-lhe que desça novamente
à Terra para fazer o que quiser, desde que pare
de repetir aquele velho discurso, dito e redito
pelos velhos moralistas, que já enfastiava até
os anjos divinos.
E
o Diabo volta à Terra, sem perder um minuto, para
transmitir as boas novas aos homens. Prega todo
o contrário das doutrinas cristãs e consegue muitos
adeptos. Só que, contraditoriamente, depois de
reunir vários fiéis que comungavam na negação
de todas as virtudes divinas junto a ele, começa
a notar a volta de certos hábitos antigos. Diante
da permissão de se cometerem pecados, há a proibição
implícita da bondade. Como toda a proibição só
estimula a ação, os homens começam a ser fiéis
a Deus novamente. O Diabo volta aos céus, sem
compreender, e Deus o consola com uma frase complacente,
a propósito de uma alegoria:
"
_ Que queres, tu, meu pobre Diabo? As capas de
algodão têm agora franjas de seda, como as de
veludo tiveram franjas de algodão. Que queres
tu? É a eterna contradição humana."
2.
Franjas de Algodão
O
conto "A Igreja do Diabo" traz uma série de alegorias
e símbolos. A literatura machadiana se baseia
muito na simbologia de uma forma geral, mas é
nesse conto que esse recurso aparece recorrentemente,
assim como o humor trágico e amargo dado o pessimismo
com que Machado de Assis enxerga a alma humana.
Nesse conto, Machado exercita a sua capacidade
de julgamento de atos buscando uma verdade que
se mostra cruel na máscara do riso.
O
esboço humano que o escritor traz nesse conto,
mais uma vez, é o do homem facilmente corruptível
e sujeito às influências malignas ou de qualquer
espécie. Neste quadro, retratado por Machado sobre
esse ser que só pensa em seus próprios benefícios,
mesmo que estes impliquem em sua moral, os vícios
humanos são mostrados de maneira sutil nos contos.
Já em "A Igreja do Diabo", o escritor tece uma
outra "nova teoria sobre a alma humana", depois
de "O Espelho". Essa teoria se dá por meio de
várias alegorias e mitos. O autor de "Quincas
Borba" mostra essa imagem humana refletida num
espelho invertido. O que o Diabo propõe é uma
doutrina muito semelhante a de Deus, com a única
diferença de que acaba sendo sua mais profunda
negação. O Diabo se propõe a negar o que reflete;
mostrar o contrário.
Trata-se
de um conto "moralizante" e, em vários pontos,
se assemelha a um apólogo. Só que as imagens de
que dispõe são elaboradas artisticamente. É notável
a influência de Rabelais que, inclusive, é citado
numa passagem do texto.
De
uma complexidade incrível, "A Igreja do Diabo"
funde vários elementos, o que dificulta a sua
análise, sem antes explicarmos, passo a passo,
a origem de cada um deles. A questão da abordagem
do tema religioso sendo explorado parodicamente,
remete o conto à Sátira Menipéia e a Rabelais,
pois os símbolos tomados por Machado de Assis
são mais do que tipos carnavalescos sem importância,
porque em determinado momento, há uma crítica,
não da religião, mas da própria fé humana. É uma
crítica psicológica que dá uma realização artística
do olhar do escritor sobre a realidade contemporânea.
É
o esmiuçamento do pessimismo machadiano que, ironicamente,
aponta as mazelas humanas. O que parece é que
assim como em seu conto, Machado de Assis prefere
transferir aos homens todo o seu ódio e indiferença,
porque com toda essa tirania e hipocrisia não
há como acharmos na sua literatura exemplos das
virtudes humanas. Tudo se reduz à maldade e ao
egoísmo. Dessa forma, o Diabo no conto defendeu
que o amor ao próximo era "uma invenção de parasitas"
e que este não merecia nada além da indiferença;
e em alguns casos, até mesmo o ódio e o desprezo.
O que parece é que Machado de Assis encarna o
próprio alter ego da figura do Diabo no conto,
sendo seu próprio Fausto. Em seus contos, são
raros os atos honestos e nobres e, se aparecem,
estão sob a máscara do egoísmo, arrastando "as
franjas de algodão na capa de veludo."
Por
meio de apólogos e máximas, o Diabo explica a
necessidade da nova instituição, demonstrando-a
com a maestria de manipulação de recursos de estilo,
entre eles o uso da ironia a favor de jogos lingüísticos
na criação de uma linguagem refinada. A visão
machadiana do mundo é perseguida pela sombra do
pessimismo, que se revela na descrença da melhora
do espírito humano. Machado não acredita nas virtudes
humanas. O mundo, na concepção machadiana, é aquele
em que o Mau predomina sobre o Bem, e no qual,
as virtudes estão submetidas às mazelas.
4.
Os alicerces da Igreja
O
conto está dividido em 4 capítulos curtos. No
primeiro, há a introdução, que é baseada na explicação
da lenda sobre a idéia do Diabo fundar a sua própria
Igreja para a destruição das outras religiões,
negando tudo e sempre. Trata-se do reflexo da
imagem da religião cristã num espelho invertido:
"Há
muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo."
No
segundo capítulo, há a imagem metafórica das "virtudes",
quando comparadas às rainhas que têm mantos de
veludo e franjas de algodão. Os mantos de veludo
se referem aos fiéis cristãos e as franjas de
algodão, aos seus pecados. Muitos, aparentemente,
fiéis a Deus, estão na curiosidade limite entre
a virtude e o pecado. O Diabo ainda toma a misantropia,
que poderia estar tomando o aspecto da caridade,
quando Deus conta-lhe a história do velho ancião
que morrera para salvar um casal:
"...deixar
a vida a outros, para um misantropo, é realmente
aborrecê-los."
Esse pensamento e aversão ao homem surge no melancólico
desabafo de Brás Cubas:
"Não
tive filhos, não deixei a outrem o legado de nossa
miséria."
Justamente
essa visão pessimista do mundo, de acordo com
o escritor, que traz os homens à submissão do
Diabo depois do "abandono" de Deus porque a vida
na Terra nada mais é do que desilusão e fracasso,
na concepção machadiana.
5.
O mito de Ícaro
Nada
da literatura machadiana acontece por acaso. As
várias referências de autores, histórias bíblicas,
mitos e símbolos; tudo faz parte de um macrocosmo
complexo de labirintos, por onde deve percorrer
a imaginação do leitor ávido por novidades. Em
"A Igreja do Diabo", conto riquíssimo em detalhes
e analogias, podemos ver a atualização de uma
lenda que trata de personagens do imaginário cristão,
por outro lado, uma forma velada de se expor um
mito.
O
mito traz uma nova maneira de se ver o mundo,
tendo sua historicidade e, embora, estruturalmente
ele volte a aparecer, essa retomada se faz em
relação ao mundo genérico. Essa atualização da
maneira de ser do mito, como sendo um objeto de
renovação, é usada para a explicação das transformações
do homem, e é disso que Machado de Assis se utiliza
nesse conto; a tomada de um mito religioso para
a demonstração do caráter humano. Essa evolução
está associada a uma estrutura de tempo não retilinear,
mas cíclica. Como na sucessão de dias ou de estações
de ano, os mitos se renovam. Esse é um mundo motivado
pelo tempo dialético, portanto, de oposições,
num pensamento dicotômico. Essas oposições que
nascem em síntese, por sua vez, originam uma antítese,
e assim, sucessivamente. Numa analogia, podemos
fundir o preto e o branco, tendo o mestiço, que
será um produto que, involuntariamente, negará
os dois primeiros fatores. Como nos gêmeos Pedro
e Paulo, de Esaú e Jacó, que também renovando
o mito de Caim e Abel, são idênticos e, paradoxalmente,
sendo a negação um do outro. Ou seja, quando existe
a fusão, existe simultaneamente, a negação da
fusão.
O que se apresenta aqui é, novamente, a idéia
do espelho que acaba por refletir uma imagem inversamente
ao objeto original. Deus e o Diabo, no conto,
são também muito parecidos: ambos irônicos e perversos,
até sob a máscara da bondade, e muito frios ao
calcular todos os meios de se controlar e atrair
seus fiéis. Ambos são reflexos da personalidade
humana e por isso, popularmente, se ouve dizer
que há um anjo e um demônio em cada indivíduo.
O Diabo sugere, desde a sua origem bíblica, o
mito de Ícaro; aquele que obtém do Pai asas para
voar, mas cai nas águas profundas do Oceano, por
desejar subir mais alto do que deveria ir. Deus
é o mito bíblico do Pai, sempre disposto a perdoar
com sua benevolência sem fim. No labirinto construído
por Dédalo, pai de Ícaro, foi o próprio homem
quem acabou tendo que percorrer. E Deus também
deu-lhe asas ou opções; no livre-arbítrio para
escolher entre querer voar com ele ou voar mais
alto, indo para o outro lado.
No conto "A Igreja do Diabo" há muitas simbologias
portando-se como o verdadeiro labirinto da cultura
clássica; indecifrável. Vê-lo de cima ao voar
é dar asas à imaginação e ao sonho, mergulhando
na linguagem indecifravelmente machadiana.
6.
Faustos e Mefistófeles
Quando
o Diabo chega ao céu, diz a Deus não vir pelo
servo Fausto, mas "por todos os Faustos do século
e dos séculos" (e esse trecho já se trata de uma
paródia do final da liturgia na missa católica),
reporta-nos ao Mefistófeles, do escritor alemão
Goethe. O evidente da obra alemã está na "simpatia"
que Deus demonstra a Mefistófeles e que, aliás,
é recíproca. Assim como nem em Fausto,
de Goethe, e nem na literatura machadiana, as
palavras são empregadas gratuitamente, vemos na
primeira, o adjetivo alemão "gern" ("de muito
bom grado", "prazerosamente") pronunciada por
Deus e pelo Diabo. Da mesma maneira, no conto
machadiano, quando Deus se dirige ao Diabo com
"olhos cheios de doçura" e este o chama de "mestre",
existem provas demonstrativas da mútua admiração
que se traduz nessa constante troca de elogios
das duas partes.
Paradoxalmente,
a existência de uma simpatia inesperada entre
Deus e o Espírito Negador traz o 'inesperado'
que é recorrente em Machado de Assis, no entanto
só para o leitor atento. Assim, veladamente, pode
denotar significações ainda mais profundas. Em
Machado, essa "cumplicidade" entre os dois espíritos
contrários chega a ser compreensível pois quando
escreve a Joaquim Nabuco, em 29-08-1903, conta
que, talvez seja "verdadeiro" o seu pessimismo.
Completa dizendo que faz "às vezes mais justiça
à Natureza do que ela a nós". Aquela mesma Natureza,
"mãe e inimiga", que não poupa expondo as feridas
humanas ao mundo. Ela segue errando e não preocupa
com isso, pois também é má. Em Goethe: "A Natureza
não se preocupa com erros; ela mesmo os repara
e não pergunta qual seria o resultado de tudo
isso." Isso também mostra a elasticidade do caráter
humano e da complacência divina.
O
Mefistófeles machadiano, como espírito que nega,
não se põe contra Deus, e sim, contra a Vida,
que é ingrata. Aqui, existe muito do pessimismo
machadiano. Assim como Mefistófeles pede a Fausto
que pare "Verwille doch!", numa metáfora para
a perdição da alma do outro, não está negando
o Criador, mas a sua criação, a própria Vida.
O
"Diabo" de Machado de Assis, mesmo lutando contra
o Bem, acaba colaborando com Deus, e por isso
o criador o deixa fundar o seu ministério para
recolher os homens que estão perdidos. Para o
Mal personificado no conto, o erro é necessário
à humanidade. O autor afirma que o Diabo comunica
ao Senhor a fundação da Igreja, por "lealdade"
e para "não ser acusado de dissimulação". Os motivos
que o levam à tal empreendimento é o do desejo
da organização e da retificação da sua imagem
que, segundo ele, não era como diziam as "velhas
beatas" e que, na verdade, era "gentil e airoso".
Outras vezes, o Diabo se denomina o "próprio gênio
da Natureza", provocando aqui uma inversão de
papéis. O Diabo colocou-se no patamar de Pai de
Deus. De quem é, afinal, o reino "casual e adventício"?
Com
a imposição de novos dogmas e crenças, o Diabo
persuade até convencer os homens de que o Mal
pode ser melhor do que o Bem. Multidões vêm a
ele crendo nessa nova descoberta, assim como vieram
a Jesus, quando este veio ao mundo como Messias
enviado por Deus para salvar a humanidade. O Diabo
também usa de apólogos e símbolos para exemplificar
sua doutrina. Uma dessas alegorias é a das franjas
e mantos de algodão ou de seda. O que demonstra
o caráter ambíguo do homem. Mostra, dialeticamente,
a convivência harmônica dos paradoxos que apresentam
virtudes boas e más. A dissimulação da figura
feminina na obra machadiana também traz a velha
idéia da femme fatale, que tanto gostavam os simbolistas
portugueses. A mulher anjo e demônio, que condensa
o Bem e o Mal em si harmonicamente. Nesse âmbito,
as mulheres machadianas podem ser consideradas
uma espécie de renovação do mito de Salomé.
Machado
mostra a dualidade de caráter em cada um dos preceitos
pregados pelo Diabo. Um exemplo é o do Padre Galiani,
que ligado aos enciclopedistas franceses, mesmo
sendo religioso levava em consideração a utilidade
e a raridade das coisas: "Leve a breca o próximo!
Não há próximo!" - frase que parece proferida
da boca do próprio Machado.
O
Diabo também se assemelha às mulheres machadianas
pela móvel combinação de interesse, desejo e ascensão
social, sempre desejando ser maior do que Deus.
Essas estranhas teorias de comportamento expostas
por Machado, mesmo ao se tratar da idéia do Diabo
de recolher fiéis, é explicada pelo mais sábio
dos bonzos:
"Se
puserdes as mais sublimes virtudes e os mais profundos
conhecimentos em um sujeito solitário, remoto
de todo o contato com os outros homens, é como
se eles não existissem. Os frutos de uma laranjeira,
se ninguém as gostar, valem tanto como as urzes
e plantas bravias, e, se ninguém as vir, não valem
nada; ou por outras palavras mais enérgicas, não
há espetáculo sem espectador."
(O Segredo do Bonzo)
7. A Questão da Paródia - influência rabelaisiana
O
Diabo afirma, assim como o bonzo, que os homens
só fazem o bem quando existem pessoas observando.
Só que esse espetáculo que não existe sem observadores,
tem um riso que é festivo e não somente amargo.
Leitor ávido da Bíblia e de Rabelais, Machado,
em muito, se inspirou na cultura clássica para
escrever. A Sátira Menipéia é recorrentemente
aludida em sua obra. Só que o humor machadiano
é um humor refinado, importado, mas com vestígios
desse riso carnavalesco pleno e duradouro de Rabelais.
Luciano,
com Diálogo dos Mortos, inspirou diretamente
muitas obras machadianas, entre elas, o célebre
"A Teoria do Medalhão". Em Mikhail Bakhtin, também
podemos encontrar base para a interpretação de
vários símbolos e alegorias que aparecem em Machado
de Assis. Primeiramente, o riso que ele provoca
em "A Igreja do Diabo" é ambivalente. Tem esse
caráter porque só pode ser considerado dentro
do seu relativismo; é alegre e, ao mesmo tempo,
sarcástico. Negação e afirmação na dicotomia das
figuras de Deus e do Diabo.
Assim
como o mito está em contínua renovação do mundo
em evolução, o riso também tem essa função de
renovar o homem porque ele se sente incompleto,
em eterna transição. Como autor que satiriza,
Machado de Assis emprega esse humor negativo atingindo,
individualmente, a cada um de seus leitores. O
resultado é a comoção coletiva do riso festivo
popular, que expressa a opinião sobre um povo
que está num mundo em plena evolução.
Esse
mundo que modifica-se continuamente, vem representado
pelas mudanças de seu povo. A religião é um modo
de se ligar de novo a determinada crença. É o
estabelecimento de um elo com algo maior que o
homem. Machado ri dessa intransigência humana:
de agarrar o que lhe oferecem sem refletir sobre
isso. Ri, inclusive, da "eterna contradição humana",
e do gosto pelo proibido, preconizado desde o
mito bíblico de Eva. Quando a primeira mulher
come do fruto proibido, tem abertos os olhos passando
a conhecer o Bem e o Mal. Querendo ser maior que
Deus, ela cai, sendo uma das precursoras do Ícaro
da cultura clássica.
Como
vimos, na Bíblia, o salário do pecado é a morte.
No entanto, em "A Igreja do Diabo", o pecado tem
seu aspecto positivo. O Diabo expõe o Decálogo
num plano inverso. Mostra que a Lei de Deus pode
ser falha, dando margem a várias interpretações.
Nisso, apresenta que o seu Espírito de Negação
é suficiente, que a negação é sublime e singular.
Com a "carnavalização" de doutrinas, milagres,
moralidades e mistérios divinos, Machado de Assis
é que nega tudo. Essas 'blasfêmias' dirigidas
a uma divindade, pelo diabo do conto, constituíam
um elemento necessário nos cultos cômicos mais
antigos, só que essas 'blasfêmias', ao mesmo tempo
que degradavam, renovavam; negando e reiterando.
É nesse jogo de palavras que Machado de Assis
cria esse retrato cômico do mundo, dividido entre
a luta do Bem e do Mal. Assim como os vários exemplos
de personagens machadianos cindidos entre a eterna
dúvida.
Quando
Rabelais é citado com seus banquetes, como uma
desculpa para a absolvição da gula, Machado se
vale desse realismo grotesco para rebaixar o homem
à terra, corporificando-o cada vez mais. Mesmo
essa divisão Céu/Terra usa símbolos do "alto"
e do "baixo" material. Existe a aproximação da
terra, que na paródia medieval, tem o sentido
de entrar em comunhão com ela, num princípio de
absorção e de renascimento, porque havendo a morte,
há também a vida. A morte, como resultado do pecado
bíblico, pode ser analisada. Esse pecado original
teria um caráter dual, sendo negação e afirmação,
na literatura renascentista, tão bem explorada
por Machado de Assis.
O
motivo da máscara é ainda mais complexo e carregado
de significações. Constituindo uma alegre negação
da identidade e da consciência de si mesmo, as
máscaras, sempre presentes nas personagens machadianas,
em "A Igreja do Diabo", são vastamente utilizadas
nas figuras de Deus e do Diabo - um se torna a
negação recíproca do outro e sua fiel tradução,
simultaneamente. Essa máscara que dissimula, encobre
e engana, se presentifica na demonstração do Diabo
aos homens dos benefícios da sua doutrina. A figura
do Diabo é muito curiosa, na cultura clássica,
no sentido de se tratar de um alegre porta-voz
da ambivalência de opiniões não-oficiais, ou seja,
da santidade ao contrário. Diversas lendas búlgaras
também se referem ao Diabo como uma figura simpática
e criadora. Segundo uma dessas lendas, Deus e
o Diabo firmaram um contrato sobre a divisão do
universo: o Céu e os vivos para um, e a Terra
e os mortos para o outro, respectivamente. Provavelmente,
essa alusão à criação de uma Igreja para o Diabo
não seja mera paródia, mas fruto de uma dessas
lendas, e com isso, ponto de partida para o desenvolvimento
dessa idéia contada com toda a erudição que parte
das fontes machadianas.
O
Diabo machadiano não tem nada de aterrorizante
ou estranho. Esse contraste entre Deus e o Diabo
se torna uma antítese, onde o que se predomina
é a dualidade que não distingue os limites entre
o Bem e o Mal. Esse riso do Diabo que, como na
acepção romântica, também é grande humorista,
se opõe ao pessimismo característico machadiano.
Na verdade, essa oposição reitera; é ambivalente.
Mesmo quando o Mal supera o Bem, há um motivo
para o humor. É interessante a idéia do Diabo,
curiosa e cômica ao mesmo tempo. A postura de
Deus diante do fato também o é, assim como o motivo
final da surpresa, que é a própria contradição
humana; o inesperado.
8.
Os novos dogmas
A
idéia de que o Diabo, o espírito da confusão,
buscava a organização de seu reino é interessante.
Além disso, ele queria também a própria missa
com muito vinho e pão, mesma alusão direta ao
jejum cristão e à celebração do corpo e sangue
de Cristo. O Diabo faz referências bíblicas, como
a da "tenda de Abraão". Numa aspiração a reunir
todos os povos - divididos pelas outras religiões
- busca a religião única e suprema, que terá uma
unidade fiel e verdadeira. Maomé e Lutero aparecem,
não como a ameaça da religião islâmica ou protestante,
mas como obstáculo facilmente transponível.
A
descrição que Machado faz do Diabo atribui-lhe
uma imagem majestosa: "magnífico e varonil". Nos
próprios gestos, o Diabo tem uma suntuosidade
superior à divina, segundo a descrição do autor.
O Diabo não apenas conversa com Deus sobre seus
planos, mas o desafia. O ódio e a ânsia de vingança
aparecem remontando ao episódio bíblico da expulsão
de Lúcifer, o anjo de luz, dos céus por Deus.
Os recursos de estilo são inúmeros, ornamentando
a linguagem de Machado de Assis e criando um espelho
de contraste imenso, mas que em determinado momento
se turva já não reproduzindo imagens fiéis.
Quando
o Diabo chega aos céus, não entra. Inicia seu
discurso retórico na entrada e só depois de Deus
perguntar-lhe se sabe porque aquele velho ancião
foi mandado para os céus, é que o Diabo ironiza
dizendo não saber, aproveitando a oportunidade
para expor suas idéias. O Diabo se refere ao céu
como uma hospedaria de preço alto. Comparando
a imagem divina a de um negociador. Por meio de
várias ironias, o Diabo acaba transferindo a sua
veia sarcástica para o autor. Diante do discurso
do Diabo, comparando pessoas de boa índole a mantos
de veludo e os bons atos a franjas de seda, o
Senhor mostra dissimulação ao murmurar que se
tratam de pensamentos de um "velho retórico".
Enquanto o Diabo sorri triunfante, Deus parece
se submeter "murmurando"; mais um indício de papéis
inversos.
Deus
tenta demonstrar que o velho ancião, que acabara
de chegar ao céu, salvou outras vidas, mesmo sem
nenhum público. Não havia nenhum interesse, não
tinham "franjas de algodão" no ato. O Diabo repele
essa afirmativa com a ironia de que a misantropia
pode ser só uma simulação de caridade. As imagens
e os símbolos são inúmeros, sendo todos muito
importantes dentro da narrativa.
Ao
se tratarem de pecados capitais, o Diabo toma
exemplos literários a princípio. Justifica a ira
de Aquiles, como responsável pela Ilíada,
e só cometida por ele, por ser fruto do rapto
de sua escrava, Briseida, e pela perda do amigo,
Pátroclo. A gula encontra justificativa em Rabelais
e seus banquetes - o comer e o beber estão amplamente
explorados nesse autor por estarem ligados às
festas, à palavra e à verdade alegre. Essas imagens
mostram o homem num corpo que interage com o mundo.
A imagem dos banquetes simbolizava a devoração
dos bens que o homem conseguira por meio de seu
suor, como manda a Bíblia; esse triunfo o opõe
a Deus. Mesmo o pão e vinho, mencionados anteriormente,
representam o mundo vencido pela luta e trabalho
do homem. Trata-se de uma imagem idealista sobre
a devoração do mundo vencido - há uma certa dose
de paganismo nessa metáfora da superação de Deus.
A alusão ao vinho é muito significativa, por sua
vez, trazendo em oposição à seriedade do azeite,
a liberdade: "As vinhas do Diabo" - sempre com
muito exagero.
O
Diabo também refere-se ao pão e ao vinho para,
como Cristo, dar um exemplo de preocupação com
o homem. Na religião, o homem ao se referir a
Deus, volta-se para suas necessidades básicas
de sobrevivência: "O pão nosso de cada dia, dai-nos
hoje." O Diabo quer ocupar esse lugar de Pai no
conto. A Igreja como "hospedaria barata" mostra
o acolhimento dos filhos que não tem como pagar
as exigências divinas tão altas.
Quanto à inveja, dá a simples explicação de que
seria o estímulo à prosperidade. Uma grande inversão
das coisas de todo o tipo. A venalidade foi tão
logicamente explicada, que tornou-se "um monumento
da lógica", como exemplifica o conto mostrando
sua negação como hipocrisia e contradição. Indo
dessa forma com todos os preceitos divinos, ao
passo que distorce o outro; "não se deve amar
ao próximo, a não ser que se tratem de mulheres
alheias". Também por meio de um apólogo, que "foi
incluído no livro da sabedoria", o Diabo se assemelha
a Cristo, que por meio de parábolas ensinava aos
homens na Terra:
"Usarei
comparações quando falar com eles e explicarei
coisas desconhecidas desde a Criação do Mundo"
(Mateus, 13:34)
É
como se o Diabo tivesse percorrendo o mesmo caminho,
desde Moisés, com o Decálogo, até o Messias, que
"evangelizou" os homens ao fim de salvá-los. O
apólogo: "Cem pessoas tomam ações de um banco,
para operações comuns; mas cada acionista não
cuida senão dos seus dividendos...", pode
ser considerado como uma paródia à parábola da
ovelha perdida, que prega que se um pastor tiver
cem ovelhas e uma se perder, deve-se sair para
procurá-la deixando as outras. Entretanto, o homem
hoje se preocupa, fundamentalmente, com sua vantagens
e lucros, ou seja, nos dividendos que lhe pesarão
depois. Pode ser associada também a usura e à
mesquinhez, considerados grandes pecados.
9.
A Contradição Humana.
O
jogo de símbolos no conto é primoroso. Porém,
a comicidade se propõe tragicamente quando, depois
de seduzidos, os homens voltam a praticar as antigas
virtudes e, às escondidas - de acordo com os ensinamentos
cristãos, para os homens não praticarem seus deveres
religiosos em público - sendo assim recompensados
por Deus. Mesmo assim, praticavam as tais boas
ações, de vez em quando e sozinhos, fazendo com
que seus "mantos de algodão" tenham "franjas de
seda"... O Diabo, inconformado com atitudes das
mais curiosas e surpreendentes, deparou-se com
o grande Mal verdadeiro; a contradição humana.
Com o trecho: "... o pasmo não lhe deu tempo
para refletir, comparar e concluir do espetáculo
presente, alguma coisa análoga ao passado",
Machado de Assis chama a atenção do leitor para
a comparação da conquista inversa de Cristo na
Terra convertendo os homens para salvá-los. O
homem é pecador, mas Deus procura salvá-los a
qualquer custo, olhando só seus bons atos. Segundo
as Escrituras Sagradas, o arrependimento dos pecados
garante a salvação.
A
"contradição humana" aludida no texto remete à
contradição da religião cristã em eterno conflito
com a essência do homem. Se, para a religião,
só Deus existe e atua, agindo verdadeiramente,
essa idéia religiosa contradiz o entendimento
e o sentido natural que concede às coisas naturais
uma certa espontaneidade; o livre-arbítrio humano.
Criam-se dois pólos, um positivo que é Deus, e
outro negativo que é o mundo. Deus só existe,
na verdade, para explicar o sentido da máquina
do universo. O homem, que é limitado de entendimento,
revolta-se contra esse poder originalmente divino.
A religião cristã vê o mundo num sentido prático,
de uma origem mecanicista, como algo que foi criado
por Deus. Essa máquina controlada divinamente
leva o homem a crer alegremente numa força desconhecida
despertando, desse modo, a consciência do homem
de sua nulidade e dependência de Deus. O homem
quer se libertar contra essas verdades presentes,
contestando sua origem.
Quando
em "A Igreja do Diabo", os homens voltam a praticar
as antigas ações é porque aquelas, de certa forma,
tinham uma explicação, senão científica, metafísica.
Já quando se revoltam contra o Diabo, é porque
este estava impondo-lhes os antigos preceitos
de obediência, indo contra a liberdade e adquirindo
seu direito de controle da humanidade, sob a desculpa
de uma religião, indo contra o direito natural
do homem para seu próprio engrandecimento, obtendo
maior espaço para suas ações. A estrutura religiosa,
vista desse modo, é muito desoladora, explicando
o pessimismo de Machado diante do mundo.
A
volta à prática das antigas virtudes pelos homens
atordoa o Diabo. O homem seria tão contraditório
que nada é capaz de defini-lo? Em Macário,
de Álvares de Azevedo, o próprio Diabo diz que
"de mulheres, nem eu que sou o diabo, as entendo".
As mulheres de Machado de Assis também são enigmas
indecifráveis. O homem é um ser inexplicável,
só que o mais perturbador e surpreendente é a
maneira pela qual ele usa o seu tão cotado livre-arbítrio.
De
acordo com a religião cristã, a verdade absoluta
está na Bíblia e a fé é um objeto dessa verdade.
Só que a Bíblia contradiz a moral e a razão, porque
essa verdade está intimamente ligada a uma superstição.
A Bíblia contradiz-se inúmeras vezes a si mesma;
mas ela é a palavra de Deus, a verdade eterna.
Se Deus é contraditório, por que o homem não seria
também, já que é feito a imagem e semelhança do
Divino? Quanto mais o homem se afasta da revelação
divina, mais se aproxima do entendimento de Deus.
Quando o homem se converte à Verdade da santidade
e da fé entra, conscientemente, em contradição
consigo mesmo, com o entendimento, por meio do
livre-arbítrio confuso e desnorteante.
No
conto, Deus está conformado com essa contradição
humana, justamente, porque sabe que esse sentimento
de confusão parte d'Ele mesmo. Ao mesmo tempo
que o Espírito Santo está contra o Espírito Negador,
o pecado pode estar a favor do homem, por que,
afinal, o que é o pecado, fora dos limites da
religião cristã? O Diabo não propõe nada de extraordinário
aos seus súditos, somente mais uma manipulação
em forma da liberdade tão almejada do pecado.
E o homem quer ser livre, por isso, vive se contradizendo
o tempo todo. Porque quando não se está sobre
domínio de um deus, há a negação de todos os princípios
morais; suprime-se toda a diferença entre bom
e mau, virtude e vício.
10.
O salário do pecado
A
obra machadiana é permeada de surpresas e fatos
curiosos; não só em suas histórias, como nos fatos
que a constituem. Com personagens densos e "humanamente
verdadeiros" - no sentido amplo que essa expressão
impõe, com todos os pormenores que existem no
coração humano - Machado de Assis cria uma narrativa
de tensão por ser tão perturbadora, deixando no
leitor aquela sensação de asfixia.
As
tramas, muito bem elaboradas, primam pela maestria
de manipular bem as expressões, originando situações
inteligentes e de um fino teor irônico e sarcástico.
Em "A Igreja do Diabo", o que temos é uma narrativa
densa e, aparentemente, banal e de simples interpretação.
Porém, para o leitor atento e bem munido de exemplos
referencialmente citados ao longo do texto, a
interpretação não se torna tão objetiva assim.
Sobretudo, o mais importante é que se trata de
uma grande apólogo constituído por outros menores;
daí o seu caráter moralizante. Mas o que dá o
toque genial ao conto são as inúmeras referências
ao longo do texto. Quando esse fator é atentamente
observado percebemos, claramente, os valores da
sátira e da paródia constituindo um pilar que
serve de base para a criação machadiana, principalmente,
nesse texto, onde os elementos carnavalescos são
fartamente explorados.
A
questão do mito também se remete à Bíblia e à
cultura clássica. E esta última está intimamente
ligada às culturas antigas que sacralizavam figuras
pagãs. Ao rir disso, com sua ironia característica,
Machado de Assis funde o riso festivo com o riso
amargo do escritor que vê a vida com um pessimismo
avassalador.
A
religião está sujeita à crítica ferina do escritor.
As palavras não são em oposição a Deus, mas à
Vida e ao Homem. Subvertendo todas as leis cristãs,
Machado cria um Diabo bem diferente do imaginário
popular, dando-lhe um caráter mais persuasivo
e manipulador, nunca deixando de ser sedutor e
excessivamente atraente. Não choca e nem ofende
o leitor em nenhum momento, mas o perturba; deixa-o
mais preocupado nas decifrações de analogias do
que com assunto ali tratado; que na verdade o
levaria para bem longe da Bíblia e do Sagrado,
mergulhando-o dentro de si mesmo. Na realidade,
o que faz rir é o caráter contestador da ordem
vigente e da subversão de tudo o que é mais sagrado
e oficial.
Machado
revela que sabe fazer uma brilhante sondagem psicológica
do ser humano, mesmo quando prefere lidar com
personagens simbólicas e não meras estereótipos.
A verossimilhança apresentada no conto é paradoxal,
porque não revela, antes de tudo, uma grande metáfora.
Faz uma brincadeira muito perspicaz com o leitor,
usando inúmeros recursos de várias fontes, chegando
a ser sufocante. O retrato é cruel e melancólico,
mas o resultado é imensamente satisfatório; sentimo-nos
devorando Machado de Assis e rindo do par carnavalesco
de Deus e do Diabo num banquete deliciosamente
rabelaisiano.
BIBLIOGRAFIA
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COMPLETA. Rio
de Janeiro: Editora Nova
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