7 April, 2003 10:42
 

O Indianismo de Gonçalves Dias


         Gonçalves Dias, o "primeiro poeta autêntico a emergir em nosso Romantismo"1 é o autor das mais belas poesias indianistas já produzidas. Inúmeros autores já haviam versado sobre temas indígenas, mas nenhum chegou perto da expressividade com que Gonçalves Dias imprimiu em sua poesia. Mas o que faz com que a poesia indianista de Gonçalves Dias se destaque tanto de outros autores? Como ele caracteriza a figura do índio?
         O primeiro indianista foi padre Anchieta, ainda no século XVI (1554) com suas peças teatrais catequistas. Basílio da Gama com o Uraguai, de motivação histórica, exalta os portugueses e ataca os jesuítas. Santa Rita Durão, também no século XVIII mostra a situação dos indígenas roubados de sua terra, com o poema Caramuru. Na Europa, Montaigne é o primeiro a introduzir na literatura francesa a idéia do "bom selvagem", que vai ser retomado com ênfase no sentido social por Rousseau. Curiosamente, "a essa altura, os exotismos decorrentes do tupi já figuram nos léxicos franceses, enquanto Portugal, por uma ordem régia (1727), proíbe o uso de língua brasílica no Brasil"2. Talvez isso explique em parte a ausência de indianismo produzido por autores lusitanos.
         Com o advento do Romantismo, o indianismo toma feições nativistas, na criação do nosso cavaleiro medieval. O indianismo Romântico, na forma de uma epopéia nacional, é uma fonte original e onde se situa Gonçalves Dias.
         Não é só pela temática original que se reconhece o índio de Gonçalves Dias. Diferente do índio como pretexto para versejar, como fez Gonçalves de Magalhães em a Confederação dos Tamoios, para Dias "O seu índio dos poemas líricos ou épicos seria índio mesmo, e não índio de cartão postal. Era o índio que havia nele e era o índio que ele conheceu, desde menino, e reconheceu no rio Negro; que ele compreendeu e defendeu."3 Gonçalves Dias sofre como índio que é, era filho de uma guajarara com um português, e mostra a perda cultural e física do seu povo:

"Eu vivo sozinha, ninguém me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupá!
Se algum dentre os homens de mim não se esconde:
- "Tu és", me responde,
"Tu és Marabá!"

[...]

E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem nas direi?
O ramo d'acácia na fronte de um homem
Jamais cingirei:

Jamais um guerreiro da minha arazóia
Me desprenderá:
Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!"

(Marabá)

         Marabá chora por não ser mais índia nem européia. É a síntese da perda de identidade, por mais linda que seja, mas por não pertencer a nenhum povo, todos a rejeitam.
         Apesar de intrinsecamente ligado a cultura indígena, Gonçalves Dias não se utilizou de mitos nos seus versos. Mas "se lhe faltaram motivos ‘fabulosos', talvez isso esteja compensado pelo índio de carne e osso de sua poética"4. I Juca Pirama é um exemplo sublime de poesia dramática, que só pode ser compreendido a partir de uma visão dos costumes indígenas, em especial da antropofagia. A tribo oponente aprisiona o filho, que na hora do ritual antropofágico quando iria ser devorado para que adquirissem suas virtudes, alega que é o único a cuidar do pai que é velho e cego. Ante a recusa à morte, os que se preparavam para comê-lo desistem pela sua fraqueza. Quando o pai descobre o que houve, esconjura-o:

"Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!"

[...]

Sé maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és."

         Essa passagem demonstra uma concepção de morte extremamente indígena, nessas circunstâncias, de costumes próprios a esse povo.

         O poeta dos Primeiros Cantos também tencionou fazer uma Ilíada Brasileira de dezesseis cantos, dos quais só quatro foram publicados, com Os Timbiras. Planejou um poema épico de grande envergadura, retratando uma luta entre os timbiras e os gamelas. O poema se desenvolve vigorosamente, com muitos momentos de forte lirismo, mas infelizmente a obra ficou inacabada.
         Alerta Massaud Moisés que "a despeito de toda a brasilidade, o indianismo de Gonçalves Dias respira ambiente medievalizante"5, pela idealização do aborígene, pelos arquétipos arturianos que são transladados, com adaptações, à selva brasileira. Contudo, trata-se de algo natural para um escritor romântico, e se a regra era justamente tomar o índio como cavaleiro nacional, Gonçalves Dias foi além. Ao coadunar justamente os preceitos românticos com o que de mais puro tinha o índio em sua cultura, Gonçalves Dias foi responsável pelo devido redimensionamento poético desse povo.



Notas Bibliográficas

1 - BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994, p.104.
2 - COUTINHO, Afrânio (Dir.). A Literatura no Brasil. São Paulo: Global, 1997, p. 75.

3 - Ibid., p. 77.

4 - Ibid., p 94.

5 - MOISÉS, Massaud. História da Literatura Brasileira: Romantismo. 8. ed. São Paulo: Cultrix, 1999, p. 37.


Bibliografia

BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira.35 ed.
    São Paulo: Cultrix, 1994. 528 p.

COUTINHO, Afrânio (Dir.). A Literatura no Brasil. São Paulo: Global,
    1997. 355 p.

MOISÉS, Massaud. História da Literatura Brasileira: Romantismo. 8.
    ed. São Paulo: Cultrix, 1999, 321p.

Renato Lima

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