Gonçalves
Dias, o "primeiro poeta autêntico
a emergir em nosso Romantismo"1
é o autor das mais belas poesias indianistas
já produzidas. Inúmeros autores
já haviam versado sobre temas indígenas,
mas nenhum chegou perto da expressividade com
que Gonçalves Dias imprimiu em sua poesia.
Mas o que faz com que a poesia indianista de
Gonçalves Dias se destaque tanto de outros
autores? Como ele caracteriza a figura do índio?
O
primeiro indianista foi padre Anchieta, ainda
no século XVI (1554) com suas peças
teatrais catequistas. Basílio da Gama
com o Uraguai, de motivação histórica,
exalta os portugueses e ataca os jesuítas.
Santa Rita Durão, também no século
XVIII mostra a situação dos indígenas
roubados de sua terra, com o poema Caramuru.
Na Europa, Montaigne é o primeiro a introduzir
na literatura francesa a idéia do "bom
selvagem", que vai ser retomado com ênfase
no sentido social por Rousseau. Curiosamente,
"a essa altura, os exotismos decorrentes
do tupi já figuram nos léxicos
franceses, enquanto Portugal, por uma ordem
régia (1727), proíbe o uso de
língua brasílica no Brasil"2.
Talvez isso explique em parte a ausência
de indianismo produzido por autores lusitanos.
Com
o advento do Romantismo, o indianismo toma feições
nativistas, na criação do nosso
cavaleiro medieval. O indianismo Romântico,
na forma de uma epopéia nacional, é
uma fonte original e onde se situa Gonçalves
Dias.
Não
é só pela temática original
que se reconhece o índio de Gonçalves
Dias. Diferente do índio como pretexto
para versejar, como fez Gonçalves de
Magalhães em a Confederação
dos Tamoios, para Dias "O seu índio
dos poemas líricos ou épicos seria
índio mesmo, e não índio
de cartão postal. Era o índio
que havia nele e era o índio que ele
conheceu, desde menino, e reconheceu no rio
Negro; que ele compreendeu e defendeu."3
Gonçalves Dias sofre como índio
que é, era filho de uma guajarara com
um português, e mostra a perda cultural
e física do seu povo:
"Eu vivo sozinha, ninguém me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupá!
Se algum dentre os homens de mim não
se esconde:
- "Tu és", me responde,
"Tu és Marabá!"
[...]
E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem nas direi?
O ramo d'acácia na fronte de um homem
Jamais cingirei:
Jamais um guerreiro da minha arazóia
Me desprenderá:
Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!"
(Marabá)
Marabá
chora por não ser mais índia nem
européia. É a síntese da
perda de identidade, por mais linda que seja,
mas por não pertencer a nenhum povo,
todos a rejeitam.
Apesar
de intrinsecamente ligado a cultura indígena,
Gonçalves Dias não se utilizou
de mitos nos seus versos. Mas "se lhe faltaram
motivos ‘fabulosos', talvez isso esteja compensado
pelo índio de carne e osso de sua poética"4.
I Juca Pirama é um exemplo sublime de
poesia dramática, que só pode
ser compreendido a partir de uma visão
dos costumes indígenas, em especial da
antropofagia. A tribo oponente aprisiona o filho,
que na hora do ritual antropofágico quando
iria ser devorado para que adquirissem suas
virtudes, alega que é o único
a cuidar do pai que é velho e cego. Ante
a recusa à morte, os que se preparavam
para comê-lo desistem pela sua fraqueza.
Quando o pai descobre o que houve, esconjura-o:
"Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!"
[...]
Sé maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és."
Essa
passagem demonstra uma concepção
de morte extremamente indígena, nessas
circunstâncias, de costumes próprios
a esse povo.
O
poeta dos Primeiros Cantos também tencionou
fazer uma Ilíada Brasileira de dezesseis
cantos, dos quais só quatro foram publicados,
com Os Timbiras. Planejou um poema épico
de grande envergadura, retratando uma luta entre
os timbiras e os gamelas. O poema se desenvolve
vigorosamente, com muitos momentos de forte
lirismo, mas infelizmente a obra ficou inacabada.
Alerta
Massaud Moisés que "a despeito de
toda a brasilidade, o indianismo de Gonçalves
Dias respira ambiente medievalizante"5,
pela idealização do aborígene,
pelos arquétipos arturianos que são
transladados, com adaptações,
à selva brasileira. Contudo, trata-se
de algo natural para um escritor romântico,
e se a regra era justamente tomar o índio
como cavaleiro nacional, Gonçalves Dias
foi além. Ao coadunar justamente os preceitos
românticos com o que de mais puro tinha
o índio em sua cultura, Gonçalves
Dias foi responsável pelo devido redimensionamento
poético desse povo.
Notas Bibliográficas
1 - BOSI, Alfredo. História
Concisa da Literatura Brasileira. São
Paulo: Cultrix, 1994, p.104.
2 - COUTINHO, Afrânio
(Dir.). A Literatura no Brasil. São Paulo:
Global, 1997, p. 75.
3 - Ibid., p. 77.
4 - Ibid., p 94.
5 - MOISÉS, Massaud.
História da Literatura Brasileira: Romantismo.
8. ed. São Paulo: Cultrix, 1999, p. 37.
Bibliografia
BOSI, Alfredo. História concisa da
Literatura Brasileira.35 ed.
São Paulo: Cultrix,
1994. 528 p.
COUTINHO, Afrânio (Dir.). A Literatura
no Brasil. São Paulo: Global,
1997. 355 p.
MOISÉS, Massaud. História da Literatura
Brasileira: Romantismo. 8.
ed. São Paulo: Cultrix,
1999, 321p.
Renato
Lima