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Três
Leituras
Neste
ensaio tenta-se relacionar os três tipos
de leitura
que o estudioso da literatura habitualmente faz
em
separado (crítica, teórica e histórica);
a articulação
entre os três tipos é analisada numa
perspectiva
metodológica (ou seja, enquanto método)
e comparada a um
modelo científico.
Três
Leituras
Leitura crítica e teórica
Leitura histórica e metodológica
Três
Leituras
A
actividade incontornável dos críticos,
dos teóricos, ou dos historiadores literários,
é a da leitura. Não obrigatoriamente
a primeira, mas incontornável.
Dizemos
"não obrigatoriamente a primeira"
porque nos parece possível formular hipóteses
críticas, teóricas, ou históricas,
sem ser necessária uma leitura prévia
do corpus a considerar, pois temos à
partida uma ideia que nos fica de outras aquisições
e temos a possibilidade de deduzir hipóteses
a partir de postulados gerais, uma vez estabelecido
que as questões surgem antes da colheita
de dados1.
A
palavra leitura não é inócua.
A sua etimologia familiariza-a com o verbo colher
e com o acto posterior à colheita que é
o de juntar os frutos no cesto. O verbo legere,
que deu ler em português, significava
por isso "reunir, juntar, colher, apanhar
(flores, frutos, etc.)"2
, no que não deixa de se conjugar a pelo
menos um dos sentidos do parente grego logos,
que é o de "contar", na dupla
acepção de "somar" e de
"narrar"3 .
Mas
uma palavra não se define só pela
sua etimologia, tal como um filho não se
explica só pelo pai. A rede conceptual
abrangida por toda a família da palavra
que dá origem a leitura contribui
para formar uma ideia completa das potencialidades
do étimo e do campo semântico envolvido
pelo uso desse termo. Não deixa de ser
procedente, no caso, que a leitura seja
prima, não importa agora o grau, mas prima
de eleger e coligir, de lógos
e de lei.
Pegando
no termo que mais interfere com o nosso campo
de trabalho, é oportuno lembrar que logos
significava, já para Heraclito, "um
princípio subjacente e organizador do universo,
relacionado com o significado comum de logos
como proporção"4,
e demonstrando que a Grécia estava preparada
para receber o Evangelho segundo São João,
com a doutrina do verbo seminal. Na verdade, o
acto da leitura visa reunir, de uma forma organizada,
pelo menos alguns dos elementos do universo textual,
elegendo uma proporção, uma "regra
de ouro", que os relacione produtivamente.
Para
o fazer, a leitura precisa daquilo a que
a hermenêutica chama de maneira geral "interpretar",
confundindo-se muitas vezes o termo com o de "compreender",
ou o de "explicar". A interpretação
não pressupõe, se respeitarmos a
história da palavra, apenas dar um sentido
à totalidade das partes, mas dar-lhe "o
verdadeiro sentido"5,
sendo na frase tão importante o adjectivo
quanto o artigo definido, que sugere uma segunda
adjectivação (a de "único").
A
procura do "verdadeiro" e único
sentido prende-se com o facto de a palavra significar
originalmente "traduzir de uma língua
para outra", ou seja, ser intérprete,
o que implicava a traição necessária
de optar por um sentido apenas6. O que interpreta era em latim,
antes de tradutor, o "agente entre duas partes,
intermediário, medianeiro, negociador"7. O intérprete literário traduz,
por consequência, para uma linguagem não
poética8, para
uma "língua artificial" ou "natural",
ou para um sistema de comunicação
(U. Eco), o que é característico
do que Lotman9 chamava
de "sistema de simulação secundário"10
; e fá-lo baseado numa negociação
para estabelecer um consenso, como o pressuposta
por Eco no conceito de interpretante11.
No
entanto, o seu trabalho não se distingue
do dos exegetas da Bíblia, pois
ambos traduzem um significado oculto ou latente.
O mesmo sucede com os intérpretes dos filósofos
mais estudados nas Universidades. A tarefa do
intérpretre não deriva, portanto,
do que há de específico na actividade
literária, mas de ser ele o tradutor de
um sistema de simulação secundária12
para um sistema "artificial" e autorizado.
O
verbo interpretar tem, no Dicionário
Prático Ilustrado (ed. 1976), um significado
quase igual aos anteriores: "explicar o sentido
mais ou menos claro de: interpretar uma lei"13
. Tal significado especializou-se, no século
XIX, para o de anotar; no entanto, Fonseca e Roquete
nessa mesma altura distinguiam entre as anotações
e as interpretações com base na
imagem da clarificação: estas procuravam
um sentido geral único, aquelas aclarar
os significados ou explicá-los parcialmente
("assim que a annotação
instrue, e a interpretação
cinge-se a presentar as razões pró
e contra"14).
As anotações, neste sentido próprio,
alicerçam por sua vez as explicações,
"que se estendem a facilitar a intelligencia
das cousas ao vulgo dos leitores".
A
definição contrastiva de explicação
por aqueles autores é quase a mesma que,
noutros dicionários, encontramos para interpretação.
A diferença está em "facilitar
a inteligencia das cousas", expressão
que, para designar o trabalho do intérprete,
se veria substituída pela fixação
de um sentido único, em torno do qual examinam
os intérpretes "as razões pró
e contra". As explicações,
contrariamente ao que o sentido comum faria supor,
elas dão a perceber ao leitor as entrelinhas
que for descobrindo o exegeta, e fazem-no sem
a pretensão de fechar o sentido com a rolha
do rato do rei da rússia.
Não
é por acaso que preferimos, no período
anterior, usar a palavra [exegeta] em vez de "hermeneuta"15
ou "intérprete". [Exegeta] vem
de um verbo grego que significava explicar,
e esse verbo tem como étimo outro que exibia
dois sentidos: crer, e olhar como16.
Isso dá-lhe uma riqueza e uma propriedade
maiores.
Em
parte, a explicação leva a olhar
como num dos usos da expressão: ver
como funciona a obra de arte literária,
uma ou várias. No outro dos usos da expressão
(o mais comum), ela é sinónimo de
analogia, imagem ou metáfora:
dar a ver uma coisa através de uma segunda.
A essência do conhecimento (e, portanto,
do "ver como funciona") é imitativa,
lembra R. Kearney em A Poética Do Possível,
e vinha sendo dito já desde Aristóteles,
quando na Poética ele diz que o
homem aprende imitando. Conhecer é ver
como, ver uma coisa como outra, a partir de
outra. A formação das imagens exposta
pela neurobiologia nos últimos anos confirma
essa ideia, e muito particularmente no que diz
respeito aos "sistemas de simulação
secundária", que se fundamentam nas
imagens estimuladas por evocação,
tanto quanto se servem de "uma língua
natural como material"17.
A
observação, que para Karl Popper
é o fundamento empírico de uma ciência18,
consiste na experimentada reconstrução
figurativa do objecto observado. A leitura explicativa,
tal como a concebemos, é uma observação
feita sobre o texto (o objecto observado) visto
como, no duplo sentido de como funciona
e visto em comparação com outros
tipos de discurso ou arte.
Essa
leitura constitui, não só a componente
experimental dos estudos literários críticos
e históricos, como também a tarefa
principal dos teóricos e, por isso, da
leitura teórica.
Se
a leitura inicial colige os elementos e os anota,
ela forma a nossa primeira imagem total do texto,
o seu primeiro fantasma no sentido em que Malrieu
usa a palavra; ela fixa os limites da nossa primeira
compreensão, sobre a qual organizamos ou
reunimos os elementos e as anotações.
Por sua vez a explicação abre, para
os que não estão familiarizados
com os problemas da composição poética,
algumas das várias perspectivas que permitem
perceber melhor o funcionamento de cada passagem
do texto. Fá-lo a partir da imagem total
que resulta das anotações, mas não
esgota o que a partir delas se pode referir.
A
palavra explicação, vista
pelo prisma filológico, é por isso
preferível à palavra interpretação.
Porque explicar se forma a partir do prefixo
ex (prefixo de negação, ou
significando o movimento de dentro para fora)
e do verbo latino plico, "dobrar,
enroscar, enrolar (um manuscrito)"19
, sendo plícito o enrolado e explícito
o desdobrado.
Comummente
conota-se explicar com a imagem de um texto
fechado, que visa dar um sentido único,
definitivo, à leitura. Ou seja, usa-se
explicar quando se devia dizer interpretar
e vice-versa20. Com
reconhecido rigor filológico, Fonseca e
Roquete situam claramente esta diferença
na passagem que citámos atrás. A
explicação desenrola o manuscrito,
ela propõe-se abrir possibilidades, não
fica presa de uma leitura única.
A palavra tem, portanto, o significado oposto
ao que se vulgarizou, em vez de fechamento ela
designa desenvolvimento e abertura de perspectivas.
Leitura
crítica e teórica
A
leitura é desenvolvida em dois momentos,
conforme vimos: um (o dos apontamentos) analítico;
outro explicativo. O desenvolvimento de cada um
destes aspectos dá origem a um género
próprio: o crítico e o teórico
respectivamente.
A
crítica, para começarmos por esse
termo, é, seguindo o mesmo método
filológico, o estudo dos critérios.
A crítica literária será,
por isso e em princípio, o estudo dos critérios
utilizados em literatura - mais precisamente,
na composição de obras literárias
ou poemas. Estamos assim diferenciados do significado
comum de comentário retórico à
literatura21, e próximos
da expressão croceana "caracterização
da poesia"22,
se ela for tomada no sentido de um estudo dos
critérios e não propriamente do
"conteúdo da poesia, [do] sentimento
que a poesia exprimiu"23
ou representou, porque o julgamento crítico
é o da eficácia estética
e o da consecução poética,
interessando-lhe por isso mais a relação
entre "forma" e "conteúdo"
que a discussão sobre a natureza dos conteúdos.
O crítico avalia, finalmente, se essa relação
é adequada, produtiva em termos dos significados
que permite produzir a partir dela num dado momento.
O
crítico julga sempre, mas não o
mesmo que o teólogo ou o juiz. A palavra
«crítica» tem na sua origem,
como «critério», um verbo cujo
significado primeiro era o de "apartar, escolher,
estremar, separar", razão pela
qual o crítico era primo da crise,
que era a descriminação decisiva
num julgamento24.
Em uma das suas acepções ("escolher"),
o crítico se aproximava assim do leitor,
e na outra ("separar") se declarava
especificador, analista. Pela sua etimologia a
crítica não é, portanto,
somente o estudo dos critérios, ela não
se reduz a uma "prática analítica"25, porque esse estudo construcionista é
realizado para produzir depois um julgamento que
permita escolher entre o verdadeiro e o falso,
o fruto bom e o que já não presta
para comer. A análise dos critérios
de composição serve então
para fundamentar o julgamento, a separação
entre o que é e o que não é.
Para
o caso artístico, o verdadeiro e o falso
podem-se traduzir como o que seja e o que não
seja poético. O enquadramento jurídico
em que se desenvolveu, num dado momento, o campo
semântico da palavra é que chama
pela retórica, pois quando se julga é-se
julgado e é preciso então convencer
quem nos lê da justeza das nossas posições,
é preciso argumentar. Daí se generalizou
a visão retórica da crítica,
passando-se a atribuir a categoria de substância
àquilo que era apenas consequência.
Mas o crítico não é propriamente
um advogado. O crítico só precisa
de ter meios para destrinçar o poético
do não poético, ele só
precisa definir os critérios que permitirão
distinguir a literatura dos outros discursos
e das outras artes - pensando-se, por exemplo,
na ficcionalidade ou na literariedade (problema
já antigo, e cujas "soluções"
intrínsecas no século XX - exceptuando
a aplicação do conceito wittgensteiniano
de "semelhanças de família",
que não é substancialista - apenas
actualizam as que Aristóteles na Poética
desenvolvia ou potenciava26).
--- No momento em que define critérios
distintivos, ainda que só a partir do
levantamento dos que usou o poeta para compor
a obra, o trabalho do crítico pode imiscuir-se
no campo teórico, numa relação
aliás desejável pelas implicações
biunívocas entre os dois géneros.
Convém, apesar dessa vantagem, que separemos
a crítica literária da teoria,
uma vez que a função de ambas
é diferente, e, no entanto, ambas parecem
ter às vezes à partida a mesma:
fornecer os critérios que permitam aferir
acerca da poeticidade dos textos que se nos
apresentam publicamente como tal. Para isso
precisamos primeiro de firmar filologicamente
o significado da palavra «teoria».
Costuma
utilizar-se o termo não reparando no seu
significado etimológico. Se por acaso se
fala dele é para relacionar a título
de curiosidade visão e teoria, não
orientando o facto qualquer reflexão mais
desenvolvida. No entanto, as origens e a história
da palavra esclarecem sem empobrecimento a tarefa
do teórico.
A
palavra [Theoria] compunha-se de duas raízes:
a primeira, [Thea], significava "espectáculo"
e, daí, por generalização,
"vista". A segunda aparece igualmente
em [Theore], que designava o deputado dos Estados
gregos aos grandes jogos: trata-se do verbo [oraw],
que nomeava o acto de "vigiar". O théore
vigiava, pois, o espectáculo em nome da
Polis e a théoria era essa deputação,
era essa missão. Daí que o teórico
(o que via) surgisse por oposição
ao prático (o que negociava), numa dualidade
marcada pela responsabilidade moral de um e pela
negociação do outro.
Quando
o significado de Theoria passa, depois,
a ser o de visão filosófica ou sistemática
(por isso geral ou tendendo para construir uma
visão geral), ele já traz consigo
toda esta carga semântica. A theoria
é então, mais que uma visão,
a vigia do espectáculo. Ora, o espectáculo
era por excelência o teatro e o teatro era
principalmente uma representação
poética da vida; o theore, por sua
vez, é enviado em nome da cidade, melhor,
em nome de quem dirigia institucionalmente a polis.
Podemos pois dizer que a theoria é
a tradução política da representação
poética da vida, no sentido em que é
a interpretação, socialmente marcada,
do labor artístico.
Por
isso, a teoria da literatura, se fosse definida
só em função destes dados,
não seria um policiamento da literatura
em nome do Estado, mas a leitura do espectáculo
literário para a representação
politicamente organizada e em função
da urbe. Quer dizer que a teoria faz e estabelece
oficialmente (e por ofício) a ligação
institucional entre a comunidade politicamente
representada e a literatura, explicando àquela
o que se passa nesta, o que a poesia é
na sua existência, a cada momento.
Se
no poeta predomina a responsabilidade pessoal
da criação, da invenção
e da composição, no teórico
predomina a responsabilidade social da leitura
- e para isso é que ele precisa dar-nos
uma "visão geral" da literatura,
uma visão por referência à
qual se processem e enquadrem as explicações
e interpretações de cada uma das
obras. Ao construir uma visão geral, o
teórico procura por vezes o que há
de comum a todas as "partes" da literatura,
algo suposto naturalmente literário, específico
da arte verbal - e é aí que pela
seu lado se pode confundir com o crítico.
No
crítico, porém, se a responsabilidade
é à mesma social (na medida em que
ele vai dizer o que é e o que não
é poesia falando num discurso, não
obrigatoriamente científico, mas "completamente
inteligível"27),
a sua avaliação é feita por
referência à descoberta dos critérios
de composição rentabilizados pelos
poetas, é "técnica". Enquanto
se preocupa com a arte da composição,
o seu julgamento é meramente artístico
e o seu procedimento procura ser exacto na medida
em que traz para a linguagem racional, avaliando-a
e explicando-a, a utilização do
critério.
Separadas
ficariam desta maneira a teoria (visão
geral da literatura que enquadra "moralmente"
as leituras consequentes) e a crítica (determinação
da poeticidade a partir do estudo criterial das
composições tidas como poéticas).
O ponto de chegada do crítico (a determinação
da poeticidade de uma obra) e o ponto de partida
do teórico (a visão geral da literatura)
vivem numa espécie de relação
de causa e consequência, tendo por objecto
principal o segundo termo das expressões
crítica literária e teoria
da literatura.
Leitura
histórica e metodológica
Falta-nos
referir ainda uma terceira disciplina, que não
é a da leitura crítica nem a da
leitura teórica, mas a da leitura histórica.
A sua pertinência foi discutida e polemizada
por muitos autores de referência, o que
torna obrigatória uma reflexão sobre
ela. De forma geral, a ideia dominante foi a de
que os "métodos" das ciências
"históricas", "humanas"
ou "sociais" são intrinsecamente
diferentes dos métodos das "ciências
naturais". Karl Popper, em A Miséria
do Historicismo, desmonta várias dessas
posturas, ainda chamadas em seu socorro por René
Wellek28, que no
entanto reagia a uma apropriação
primária ou superficial do método
científico, apropriação que
estará na base do historicismo.
Wellek
perfilha uma ideia abrangente do que seja a teoria
da literatura (um "organon de métodos"29),
que não coincide com a que demos acima,
mas que se alicerça na distinção
entre o estudo da literatura nos aspectos diacrónico
e sincrónico. No aspecto sincrónico
teríamos a crítica literária,
no diacrónico a história literária
ou da literatura, sendo a teoria o "estudo
dos princípios da literatura e das suas
categorias, dos seus critérios e matérias
semelhantes"30.
A definição de Wellek respeita o
traço de "visão geral"
que estava bem no começo da história
por assim dizer intelectual da palavra theoria.
Para ele, a visão geral é a que
junta a leitura histórica e a leitura crítica,
reflectindo sobre o conjunto e concedendo aos
críticos e historiadores pontos de apoio
teórico. É uma visão geral
"tradicional". Mas, pelas razões
expostas até aqui, não nos parece
que a crítica deixe de estudar os critérios
e as categorias, ou que a história da literatura
deixe de estudar os princípios e as matérias
dominantes. E também nos parece que a perspectiva
de Wellek lucraria em se libertar do historicismo
que ainda lhe toca.
Ela
parece pressupor que o estudo da literatura em
geral, e a história da literatura em particular,
são feitos a partir da leitura das obras,
indo-se do particular para o geral e por indução.
Tal pressuposto vem dominando os estudos literários
há muito tempo, e aceita-se facilmente
que esse é o trajecto "co-natural"
à área, único também.
Ora pode-se construir uma teoria, ou uma hipótese,
por dedução31,
a partir de princípios ainda mais gerais
(do âmbito da Estética, por exemplo),
sendo posterior a leitura, que examina as deduções,
que as experimenta nos textos e, nesse particular,
é um exercício científico.
A fortuna do método dedutivo no nosso século,
no âmbito das ciências exactas, ou
puras, ou duras32,
que tudo são metáforas e nem sempre
muito próprias, aconselha-nos a pensar
ao contrário de Wellek.
À
luz do método dedutivo pensado para as
ciências sociais e humanas, a postura de
Wellek é, talvez sem querer, historicista,
no sentido de que fala Popper em A Miséria
do Historicismo. Para muitos o historicismo consiste
apenas na crença de que se pode penetrar
a mentalidade das épocas e perceber intrinsecamente
as atitudes e as obras que marcam essas épocas,
sendo consequentemente possível despirmo-nos
em relação aos nossos padrões
de comportamento e estudarmos os períodos
literários numa espécie de omnisciência.
A visão que Popper tem do historicismo
é, porém, mais incisiva, chamando
a atenção para uma característica
metodológica: o historicista é indutivo,
acredita que nas ciências humanas o melhor
método parte dos factos (no caso, as obras)
para os conceitos que explicam, traduzem ou localizam,
na sua especificidade histórica, as leis
do desenvolvimento literário, ou a biografia
do organismo e da instituição literários.
Daí que F. W. Bateson tenha, no passado,
querido isolar a história da literatura
da leitura crítica e da teoria, argumentando
falaciosamente que a história se ocupa
de factos verificáveis enquanto o "criticismo"
se preocupava com opiniões e crenças
(uma vez que parte das "ideias" e não
das obras).
Como
Wellek nota, trata-se de uma posição
insustentável. Desde logo porque a história
menos crítica é a menos literária33.
Em segundo lugar porque não há facto
histórico mais fixo para examinar - e,
portanto, verificar - que uma obra após
a morte do seu autor, e a obra é o objecto
central da atenção crítica
ou teórica. O texto que fica escrito, no
final da vida, seja sob a forma de anotações
ou mudanças ao que está publicado,
seja sob a forma definitiva de um livro, não
muda mais. Podem mudar as teorias, os enquadramentos
históricos, as leituras críticas,
até mesmo a ideia dessa obra entre os leitores
especializados pode-se alterar pela descoberta
de manuscritos, etc.; mas aquele conjunto de letras
que forma o livro não muda quando o vemos.
O que muda é o seu funcionamento em nós,
o seu funcionamento histórico no sentido
que a palavra toma em Jauss, ou em nós
como entidades criativas, as de que falava Pobiebniá
na sua famosa definição: "um
predicado constante com um sujeito modificável"34.
Ora, por isso mesmo, a tarefa do historiador literário
é mais difícilmente "científica"
do que a do crítico ou do teórico,
porque ele resumirá as anotações,
explicações e interpretações
das leituras críticas e teóricas
adequando-as ao que na mesma época é
dito sobre outros aspectos da actividade cultural.
Ele aproxima interpretações ou explicações
sobre processos diacronicamente balizados. E nada
é mais arbitrário, nesse tipo de
estudo, nada é mais enganador do que o
agrupamento das obras em balizas cronológicas
ou categóricas.
A
história da literatura não tem sido,
realmente, uma ciência, mas uma forma de
historicismo, de importação de métodos
que são defendidos como os mais apropriados
aos estudos históricos, e que são
absorvidos com um pressuposto determinista35.
Se o objectivo central do historicismo é,
quando se dá o passo idêntico para
a Sociologia, o de estabelecer as leis da transformação
social36, quando
ele salta para os estudos literários o
que pretende é, quando muito, "estabelecer
as leis da transformação" literária.
O objectivo em si é discutível,
porque não precisamos pressupor a existência
de "leis" imutáveis para estudarmos
a "transformação". Mas
um dos problemas principais do historicismo em
literatura, ou da suposição dos
métodos "históricos" como
os mais apropriados à ciência literária,
não se prende só com o objectivo;
nasce de considerarem, os seus defensores, que
a inserção dos eventos literários
no contexto histórico, e o seu enquadramento
nas constantes da "evolução"
de uma literatura, dão por si sós
a imagem de como funciona o sistema respectivo.
Esta
procura de exclusividade científica foi
sentida já noutras áreas, por exemplo
na Sociologia ou no estudo de artes como a da
pintura. A redução é sempre
a mesma: "A ciência social não
é mais do que história"37; a ciência literária também
não seria mais do que isso. Ora o sistema
tem variáveis internas, ele é o
resultado da sociedade e da história mas
também é o resultado de si mesmo,
facto para o qual os formalistas e estruturalistas
haviam chamado a nossa atenção.
Há modos de um texto funcionar que não
dependem da época em que ele foi escrito,
nem da nossa, mas de condições estruturais,
por assim dizer38,
que se podem repetir em locais e tempos diversos
tal como sucede com muitos fenómenos físicos39. Por isso concordamos com Wellek em que
as vertentes sincrónica e diacrónica,
a do crítico e a do historiador, devem
ser conjugadas para alcançarmos uma visão
geral das obras literárias.
No
entanto o conceito de estudo da literatura de
Wellek junta-se com o dos historicistas no ponto
fulcral que é o da definição
dos métodos. A crença que o anima
é a de que as leis do sistema se atingem
por indução. Por indução,
na lógica, e pelo menos desde Bacon, quer
dizer partindo dos factos acumulados para inferir
os princípios que os produziram; consequentemente,
o raciocínio por indução
é um raciocínio a posteriori.
No nosso caso: só depois de escritas as
obras que definem a literatura podemos estabelecer,
por exemplo, o que seja a literariedade, e fazêmo-lo
por inferência.
Nos
estudos histórico-literários os
historicistas defendem que a inferência
funciona por abdução, ou seja, por
um tipo de raciocínio que só pode
ser um silogismo frágil, alcançar
uma conclusão meramente consensual, e a
partir do levantamento dos indícios disponíveis
como dissémos. Os estudos históricos
e literários haviam, por isso, de ser uma
espécie de parente pobre da ciência,
que não podia garantir explicações
cabais. E viam-se remetidos a uma espécie
de beco sem saída, o "de toda a história:
isto é, para descobrir o esquema de referência
[...] temos de estudar a história; mas
não podemos estudar a história sem
termos em mente algum esquema de selecção"40.
Como diria Fidelino de Figueiredo, é aqui
que desempenha o seu papel a hipótese.
Que Wellek exemplifica falando no soneto, "um
certo esquema externo, patente, de classificação"
que "proporciona o ponto de partida necessário"41.
O exemplo é ainda o de uma forma historica
e geograficamente muito marcada, mas proporciona
ainda assim uma identificação estrutural
que atravessa mais do que um período e
mais do que uma história literários.
De qualquer modo é ainda abdutivo.
A
abdução era, para Charles Peirce,
o método para a criação
das hipóteses e a tarefa descrita por
Wellek faz isso. Porém, a construção
de suposições provisórias,
tal como delas fala Fidelino de Figueiredo42,
não segue obrigatoriamente essa origem,
se considerarmos o seu funcionamento na maioria
das ciências.
Fidelino de Figueiredo era, nessa altura, uma
espécie muito bem definida de historicista:
reconhecia que a construção da
hipótese detinha um "grande papel"
nas ciências exactas, encontrando nos
cientistas ao mesmo tempo "os maiores constructores
do saber" e os "grandes creadores
de hypotheses"; mas acha que a crítica
só pode falar de factos "singulares".
A originalidade do seu pensamento vem depois
e consiste em perceber que as hipóteses
eram criações; e ela está
limitada pela ideia de que a crítica
tende a tornar "verdades definitivas"
as hipóteses "historico-litterarias,
quando se confirmam documentalmente por um dado
novo, não pela repetição
experimental".
Neste último ponto Fidelino de Figueiredo
está preso ao que disse antes sobre a
"singularidade" das explicações
histórico-literárias, motivo pelo
qual não prevê que a revisitação
de um mesmo documento, sob nova hipótese,
testa ainda compreensões anteriores,
sendo por essa repetição experimental
que testamos os programas de leitura anteriores,
"singulares" ou estruturais eles sejam.
Ora, marcado pelo "indutivismo", Fidelino
de Figueiredo supõe que, da notícia
de um novo "dado", chegamos à
confirmação de uma hipótese
anterior por generalização, inferência
e abdução.
Mas é de supor que os críticos
literários não visem ditar "verdades
definitivas", e também é
de esperar que não se reportem apenas
a factos singulares, mas a exemplos que expõem
critérios gerais de composição
seguidos pelos poetas, critérios que
são passíveis de uma definição
estrutural.
O método indutivo nem sequer detém
a exclusividade como passo inicial43,
por razões a que nos dedicaremos agora.
Em primeiro lugar a inferência, que se
liga à indução, ela funciona
realmente nos processos intuitivos, como estudou
a Psicologia44.
É quando nos deparamos com um escasso
número de dados que a inferência
funciona melhor e nos tipos de personalidade
mais intuitivos. Ou seja, quando ainda o conhecimento
sobre um assunto não é grande
é que se torna preciso construir hipóteses
por inferência.
A partir daí a inferência intuitiva
deixa de ser pertinente, podendo mesmo ser rejeitada.
Vejamos que argumentos há para rejeitá-la.
Em
primeiro lugar, a fraca ou vaga previsibilidade
comummente apontada às ciências humanas
não obriga ao uso do método indutivo,
como defendem os historicistas; e também
é característica das "antecipações
de largo escopo" de que fala Popper45,
antecipações que se encontram por
igual na astronomia.
Em
segundo lugar a previsibilidade existe nos estudos
literários e é assegurada por mecanismos
autoreguladores do sistema, como sejam os determinados
pelos géneros, os cronótopos, os
temas. Os dispositivos discursivos estudados pela
retórica e úteis à poética,
tal como os preceitos de "escola" e
"militância", baseiam-se também
no conhecimento prático de efeitos previsíveis
de usos tipificados da palavra. Conhecimento equivalente
ao que na música permite associar uma variação
melódica fraca a um sentimento de tristeza,
ou um ritmo irregular ao sentimento de alegria
ou, mais genericamente, a um estado de excitação46.
Todos
estes preceitos e efeitos são detectados
pelo crítico na descodificação
dos textos e postos em relação directa
com uma poética ou uma estética,
por um lado, e, por outro lado, com uma história,
pois as categorias literárias são
dinâmicas.
Mas
o historicismo, apesar de não o ser em
Wellek, é tendencialmente separador, caindo
na tentação de criar dicotomias
falsas ou de apontar inimigos entre os vizinhos.
Bateson fê-lo separando a história
da literatura da crítica e da teoria; recentemente,
a impugnação da pertinência
textual e da prepotência da teoria acorda-se,
mesmo quando não confessadamente, à
relativização das interpretações
que se prende, não só com o deconstrucionismo,
também com a valoração excessiva
da posição histórica do leitor.
Estamos, aí, perante um novo tipo de historicismo,
aquele que militantemente rejeita a possibilidade
de previsão "de coisas que ainda nem
sequer existem (o aparecimento de novas obras
literárias)". Esta espécie
nova de historicismo vem até ao presente;
veja-se um exemplo, que é o de Rui Estrada
em A Leitura Da Teoria47.
A
maioria destes autores nega a pertinência
de estudos textuais usando como argumento o facto
de eles não terem a capacidade de prever
as obras. A perspectiva que imputam aos estudos
textuais é a do indutivismo, ou seja, a
de que a investigação em literatura
só é verdadeira no que diz respeito
aos factos, aos livros, passados. É evidente
a redução de campo: pressupõe-se
que as profecias prevêem as obras, não
o funcionamento, emergência, mudança
ou desaparecimento possíveis, ou os efeitos
esperados, das estratégias e recursos que
as constituem. O esvaziamento "ontológico"
das obras, que a vaga interpretacionista não
põe em causa em si próprio, mesmo
praticando-o ou defendendo os direitos inalienáveis
da leitura, ignora como é devedor do historicismo,
sobretudo após a chamada de atenção
de Jauss para as problemáticas da recepção
literária.
A
marca separadora do historicismo está de
resto presente nesse livro de Rui Estrada, pela
dicotomia exasperada sobre que se estriba combatendo
a teoria em nome da leitura. Procurando-se, como
diz, "não cair em nenhum destes extremos"
(o da indeterminação absoluta e
o da absoluta determinação das "obras
literárias"), e não tomando
por gratuito gosto pelo centro a frase, a conjugação
entre as várias disciplinas, não
o seu isolamento, mostrar-nos-á o quanto
elas são complementares e o quanto contribuem
para o equilíbrio entre a experiência
da intraduzibilidade e a constatação
de recorrências, ou a identificação
de técnicas eficazes o suficiente para
as reconhecermos.
Rui
Estrada força um pouco a nota ao falar
na conflitualidade "histórica"
entre leitura e teoria. É um princípio
científico básico o de que a experimentação
(ou leitura) serve para que a teoria reconheça,
ao mesmo tempo, duas coisas importantes: que "não
apenas a tentativa, mas o erro são necessários"48, mas também que a disciplina científica
deve planear a sua própria contradição.
A leitura é, nesta perspectiva, por natureza,
a experimentação da possibilidade
de contradição da teoria, e aceitamos
esse postulado na versão que dele dá
o próprio ensaísta49;
mas também compreendemos que, reescrevendo
a teoria, a leitura crítica devolve a esta
os critérios principais e próprios
da arte após a sua verificação,
numa obra ou em várias. Ou seja, complementa
a teoria (melhor seria dizer: a hipótese)
ao tentar contradizê-la e ao provocar e
elaborar a sua reformulação. A conjugação
dos esforços disciplinares da área
é, por isso, determinante sem que tenha
pretensões totalitárias, ou seja,
é explicativa, mais do que interpretativa.
A
conjugação da leitura crítica,
da leitura teórica e da leitura histórica
acciona um método científico aceitável
como tal, mesmo no sentido contemporâneo
de "ciência". Em conjunto as três
leituras estabelecem critérios, examinam-nos
através de experiências textuais
ou de contextualizações experimentais,
e reformulam a visão geral após
a reflexão sobre os resultados de cada
experiência. Os trabalhos académicos
são, na maioria dos casos, experiências
localizadas num processo de exame de uma hipótese,
que tanto pode ser crítica, como histórica
ou teórica. O conjunto das leituras age
portanto como se alguém seguisse, desse
modo, um método hipotético-dedutivo
(hipótese -> experiência ->
reformulação), que não vemos
porque não há-de ser aplicado ao
estudo da literatura.
Porém
a visão tradicional da relação
entre a teoria e a crítica, mesmo na versão
de Rui Estrada, aponta para discursos teóricos,
discursos históricos e discursos críticos
separadamente, pressupondo-se que de um lado ficam
as hipóteses ("teorias") e do
outro a sua reescrita, ou a análise dos
factos. A conjugação do esforço
teórico, histórico e crítico
de que falamos é diferente: ela propõe-se
experimentar, pelas vantagens da sua simultaneidade,
as três vertentes no mesmo discurso ou no
mesmo ensaio. O erro de muitos teóricos
e ensaístas é precisamente o de
pensarem que a teoria explica a leitura50,
esquecendo-se de que ela a implica.
História
literária e história da literatura
Ao
falarmos no historicismo, referimo-nos indistintamente
à história da literatura, à
história literária e à leitura
histórica. Cabe agora fazermos uma distinção
entre esses três termos.
A
leitura histórica não coincide por
inteiro com o que se chamava história da
literatura, com o que, por exemplo para Bateson,
era história da literatura.
Os
campos que envolvem a leitura poético-literária
definem-se por termos como psico-crítica,
socio-crítica e outros que remetem para
uma sociologia da literatura, uma psicologia das
relações reguladas no triângulo
autor - obra - leitor, que se podia chamar uma
psicologia da literatura, uma filosofia da literatura,
etc. Neste etc entra a história
da literatura, termo que devemos distinguir de
uma história literária, tal como
distinguimos a filosofia literária51
da filosofia da literatura, ou uma sociologia
literária52
de uma sociologia da literatura53,
ou, finalmente, a antropologia literária
da antropologia da literatura54.
Não
é por acaso que as histórias da
literatura são sempre acompanhadas por
biografias dos autores, a par ou não de
uma crítica das suas obras, reservada a
edições de luxo académico.
É que são histórias e, portanto,
precisam de personagens. São histórias
da literatura, das personagens literárias
e dos seus feitos numa dada sociedade, demarcada
no calendário e no mapa.
Diferentemente,
a personagem das histórias literárias
é a literatura, o "processo literário".
Mas o processo literário num sentido específico,
o vislumbrado por Chklovsky ao pensar os géneros
e a intertextualidade, esse é já
o de uma leitura histórica da poesia no
sentido que definimos acima, dependente do estudo
dos critérios e penetrada pela compreensão
teórica, funcionando numa das vertentes
da experimentação das hipóteses
da engenharia literária.
As
explicações do leitor especializado
são dadas, então, no sentido de
mostrar ao leitor generalizado como determinados
traços ou critérios ali empregues
sustentam umas e outras hipóteses de leitura.
A
estas três vertentes da recepção
profissional da poesia há só que
somar agora a quarta, a metodológica, exemplificada
pelas reflexões que acabámos de
fazer.
O método
Até
aqui falámos do método puxados pelas
discussões acerca da história literária.
Discussões em torno de um eixo central:
o de colocar a leitura, não disciplinarmente
no interior do seu campo, mas em face das ciências
da vida ou das ciências exactas. O dilema
sobre a cientificidade dos estudos literários
(a teoria, a crítica e a história)
divide os ensaístas que se debruçaram
sobre o assunto, levando uns a integrar (inteira
ou parcialmente) esses estudos no campo científico,
e outros a rejeitar liminarmente uma tal integração.
Sem dúvida que o segundo grupo é
hoje muito comum, o que nos leva a examiná-lo.
Mas agora falando no método em si.
O
nosso ponto de partida será, naturalmente,
o oposto: achamos que a leitura literária,
de acordo com as reflexões da secção
anterior, é uma actividade científica.
Para que as actividades de leitura e as reflexões
sobre elas tenham um carácter científico
é preciso que o seu método apresente
o mesmo carácter.
A
cientificidade do método exige que, na
situação receptiva que idealizamos,
existam as condições essenciais
ao processo de criação na ciência.
As três condições fundamentais
são: a existência de um problema
insólito; a existência de hipóteses
ou antecipações de solução
do problema; e a possibilidade de experimentar
essas hipóteses.
Na
leitura de uma obra podemos encontrar as três
condições: a exigência de
originalidade conduz à primeira; o carrilhão
de hipóteses e teorias que a disciplina
acumulou ao longo dos séculos sustenta
a segunda; e a publicação dos textos
garante a terceira.
Julgamos
ter exemplificado o funcionamento do processo
com um estudo resumido no livro Quicôla
: Estudo. Fazendo uma leitura comparativa,
da lírica escrita em Angola na segunda
metade do século passado com o tratado
de metrificação de António
Feliciano de Castilho, deparámos com preceitos
que não eram respeitados. Preceitos que
eram complexos de regras, como o que determinava
que as oitavas fossem escritas assim: a estrofe
dividia-se em dois períodos, o primeiro
terminando rigorosamente a meio; a rima [B] devia
assentar em palavras agudas e as restantes em
graves, podendo ser esdrúxulos ou não
os termos que não rimavam (versos 1 e 5).
A maioria dos poetas não seguia rigorosamente
essas regras, o que fez com que, num momento inicial,
não pensasse no facto; porém o facto
não jogava com o habitual seguidismo dos
versejadores angolenses em relação
aos ditames de Castilho, o que me fez desconfiar
de que podia haver uma outra hipótese para
ler essas fugas que não as interpretasse
como "desleixo". De facto havia: na
maioria dos casos a colocação do
cumprimento e do incumprimento da regra compunha
simetrias as mais variadas. O passo seguinte foi
o de saber se a composição de simetrias
era circunscrita a fenómenos de incumprimento
de regras canónicas, ou se elas surgiam
também a partir de outras variações
formais, ou técnicas. Efectivamente isso
acontecia, com a distribuição dos
tipos de rima (pobre / rica; grave / aguda) e
em relação a regras que podiam ser
próprias só de um dado poema. Foi
necessário, então, construir uma
hipótese de leitura para cada composição,
chegando-se a formulações do tipo:
«se as rimas dos versos pares são
agudas nas estrofes ímpares, serão
graves nas estrofes pares»; as hipóteses
iam-se transformando conforme progredíamos
na verificação, até sermos
capazes de explicar as variações
existentes pelas figuras que elas compunham. Isso
permitiu-nos concluir que os poetas desse tempo
em Angola praticavam uma lírica figurativa,
charadística, barroca, personalizando as
regras do mestre da escola ultra-romântica
luso-brasileira55.
A partir do postulado inicial (haver significado
no incumprimento de uma regra) chegámos
uma hipótese de leitura nova: o ultra-romantismo
angolano devia ser lido como arte figurativa,
barroca, pré-concreta.
O
método de que vimos falando, ao operar
assim, não ignora nem desvaloriza a importância
do raciocínio analógico e metafórico.
A
analogia era vista como própria de um discurso
não-racional, artístico ou outro.
No entanto, o estudo da analogia integra hoje,
por exemplo, as pesquisas sobre a criatividade
científica e tecnológica, aquela
que gera os discursos tidos por modelos de racionalidade.
Num texto destinado a estudar a "estimulação
das faculdades criadoras nos grupos de investigação
pelo método sinético", W. J.
J. Gordon distingue quatro tipos de analogias.
Estas analogias não são as figuras
características do "estilo" dos
cientistas, mas quatro tipos de raciocínio
analógico empregue pelos cientistas quando
precisam de criar hipóteses:
A
analogia pessoal (em que o investigador se
coloca no papel de "uma ou muitas componentes
do problema", imaginando-se «mola»,
«engrenagem», «molécula»,
«avião», etc). Esta analogia
integra-se no que a Retórica antiga chamava
de personificação e não
deixa de ser significativo que a Retórica
e o estudo da criatividade científica estejam
tão próximos.
A
analogia directa (quando o investigador transfere
um conjunto de conhecimentos de uma área
para outra56, ou
do estudo de um elemento para o de outro, o que
levava Gordon a aconselhar a familiaridade com
as mais diversas disciplinas57).
A
analogia simbólica (a substituição
momentânea do objecto de estudo por uma
imagem de variáveis controladas mais facilmente).
A
analogia fantástica (uso do devaneio
para descobrir hipóteses novas).
Estes
quatro tipos de analogia acompanham também
o estudioso da literatura em qualquer das três
vertentes (crítica, histórica ou
teórica). A analogia pessoal desde logo
na medida em que o leitor especializado se tenta
colocar, ora no papel do autor, ora no papel de
outro(s) leitor(es); a analogia directa, essa,
é de tal forma intensa que chegou, por
vezes, a desviar a disciplina dos seus objectivos
específicos, e desembocou recentemente
nas teorias sobre a inter e a transtextualidade;
a analogia simbólica sustentou, precisamente,
muitas dessas leituras que nos conduziram para
fora do específico do nosso trabalho, como
por exemplo as interpretações psicanalíticas
das obras, equiparadas a orgãos e aos sonhos;
finalmente, as analogias fantásticas alimentam
as hipóteses mais audaciosas na leitura
literária.
A
integração do estudo da analogia
nas considerações sobre a criatividade
científica levou, nos anos 80, Fustier
a considerar a "ascese logica" a "mãe
da criatividade", precisamente pelo que ela
tem de... analógico: "porque desenvolveu
em nós a capacidade de apreender as
semelhanças"58, facto que terá contribuído
para que Einstein dissesse que "o jogo combinatório
parece ser a característica essencial do
pensamento criativo"59.
Uma
analogia afortunada é a metáfora.
Associada por muitos autores, e das mais diversas
formas, ao discurso lírico, ela é
no entanto fundamental para estudar a criatividade
científica. A tal ponto que levou Rouquette,
no seu manual sobre o assunto, a reservar um capítulo
à "teoria elementar da metáfora".
Ela fornece o analogon que permite ao investigador
ultrapassar o estado de incerteza pela aceitação
de uma "certeza" provisória,
ou "substituída"60.
Este analogon, ou representação
metafórica, é muito mais abstracto
"do que as imagens físicas de que
conservam as formas, as propriedades topológicas
e, sob certas condições, as distâncias"61.
A
metáfora tem, segundo Rouquette, "duas
funções complementares [...] no
discurso científico e técnico: uma
de valor heurístico, a outra de finalidade
didáctica". A componente heurística,
que se define "pela aplicação
da negação", ocupa um lugar
central, visto que "assenta em primeiro lugar
na exploração da incerteza e na
sua conversão em cobertura ou afastamento".
A meta procurada é o "equilíbrio
ótimo entre incerteza inicial e cobertura",
que faria, de acordo com Westcott, a metáfora
fecunda, aquela que "deve simultaneamente
ser bastante afastada para se revelar interessante,
e suficientemente próxima para permanecer
ilegível"62.
Esta
definição de metáfora aparenta-se
com o método científico, de que
procuramos fazer um resumo acima: tem com ele
em comum o carácter insólito, que
de resto às obras literárias é
também requerido; tem a situação
problemática (expressa pela "incerteza
inicial"); e tem a hipótese experimentada
(com base nos mais diversos ensaios para integrar
o insólito na categoria da cobertura ou
na do afastamento). A constituição
de uma metáfora é como a apresentação
de conclusões numa comunicação
académica: numa comunicação
académica, ou num relatório científico,
procede-se à reorganização
do espaço teórico anterior em função
da experiência desenvolvida; na metáfora
dá-se, por uma analogia inédita
mas legível, a recomposição
do espaço semântico anterior.
A
metáfora aparenta-se ainda com o método
científico pela função heurística
de outros tipos metafóricos "negativos",
como a "negação" ou interrogação
da "cobertura" (o que é que faz
dois objectos parecidos não poderem ser
os mesmos?), ou ainda pela "negação
do afastamento", mais rara esta. Dos três
tipos, o tipo ideal (aquele que é colocado
"em primeiro lugar") é o que
mais nos interessa, por um segundo motivo: porque
esta definição de metáfora
se aparenta igualmente com a que foi dada por
Aristóteles na Poética, e
parece-me até que podemos capitalizar sobre
a comparação das duas, ambas atentas
à função heurística
e à definição lógica
da "substituição".
O
caminho é, portanto, de grande exigência
lógica, mas também de grande incidência
sobre analogias e contrastes que visam facilitar
a emergência de novas hipóteses.
Francisco Soares
Universidade de Évora
Notas
1
- Karl Popper, a Miséria Do Historicismo,
São Paulo, Cultrix;
Edusp, 1980, p. 95.
2
- A. Gomes Ferreira, Dicionário De Latim-Português,
Porto, Porto ed., s.d., p. 655. Em grego, o
verbo tinha o sentido de "reunir"
(cf. F. Martin, Les Mots Grecs, Paris, Hachette,
1985, p.96 [ed. or.: 1937]).
3
- Logos deriva do grego légw, que significava
originalmente "dizer", de onde saíram
palavras importantes para a literatura, como
apólogo, diálogo, epílogo
e apologia (cf. F. Martin, op. cit., p. 96).
4
- F. E. Peters, Termos Filosóficos
Gregos : Um Léxico Histórico,
2ª ed. port., Lisboa, F.C.G., [1983] (Junho
1983), p. 136. A acepção foi depois
o "ponto de partida estóico"
para a concepção espermática
do logos (id., p. 137).
5
- J. I. Roquete e José da Fonseca, Diccionario
Dos Synonymos Poetico E De Epithetos Da Lingua
Portugueza, Paris ; Lisboa, Guillard, Aillaud
& Cie, p. 63.
6
- Dicionário Prático Ilustrado
: Novo Dicionário Enciclopédico
Luso-Brasileiro Publicado Sob A Direcção
De Jaime De Séguier, ed. act. e aum.
por José e Edgar Lello, Porto, Lello
& Irmão, 1976, p.655. O Elucidário
Das Palavras, Termos E Frases Que Em Portugal
Antigamente Se Usaram E Que Hoje Regularmente
Se Ignoram, de Fr. Joaquim de Santa Rosa
de Viterbo (v. II), não refere a palavra,
nem qualquer congénere.
7
- A. Gomes Ferreira, op. cit., p. 615.
8
- Por ex. para o "relato verdadeiro e analítico",
"acepção comum" e platónica
do logos, que teve consequências
epistemológicas conhecidas (F. E. Peters,
loc. cit.).
9
- La Struttura Del Testo Poetico, ed.
de Eridano Bazzarelli, Milão, Mursia,
1993, p. 15.
10
- Loc. cit.
11
- Termo definido resumidamente em O Signo:
"é o mecanismo semiótico
através do qual o significado é
predicado de um significante", o que pressupõe
uma metalinguagem (Lisboa, Presença,
sd, p. 154).
12
- Tal sistema inclui o mito e a religião.
13
- Loc. cit.
14
- Loc. cit.
15
- Hermeneuta significava intérprete no
grego antigo, dando F. Martin a sua etimologia
como "obscura" (Les Mots Grecs,
p. 63).
16
- F. Martin, Les Mots Grecs, p. 69.
17
- Jurij M. Lotman, La Struttura Del Testo
Poetico, p. 15.
18
- A Miséria do Historicismo, p.
30.
19
- A. Gomes Ferreira, op. cit., p. 877.
20
- Por ex. U. Eco, em O Signo, p. 155,
reconhece ao interpretante a característica
do explicativo, visto que diz: "Neste sentido
o interpretante não é apenas um
simples signo que traduz um outro signo (mesmo
se muitas vezes o é); é sempre
e em todos os casos um desenvolvimento do signo,
um incremento cognoscitivo estimulado
pelo signo inicial".
21
- F. Lyotard, La Conditio Póst-Moderne,
p. 164. A ideia é mesmo geral e Lyotard
fala dela a propósito de Freud. Recorde-se
ainda o papel que Paul de Man concede à
Retórica na sua definição
de literariedade (e, já agora, o comentário
que lhe é feito por Kwame Anthony Appiah
em A Casa De Meu Pai : A África Na
Filosofia Da Cultura, Rio de Janeiro, Contraponto,
1997).
22
- La Poesia, ed. cit., p. 126.
23
- La Poesia, ed. cit., p. 126.
24
- F. Martin, op. cit., p. 91. Para a trad. do
francês ao português usámos
o Novo Dicionário Lello Francês/Português,
dir. e adapt. de José da Fonseca, Porto,
Lello, 1997. O verbo do qual derivam crítico,
critério e crise é
cri-n-w, que o dicionarista aconselha a comparar
com cri-brum (de onde veio crível)
e cerno em secerno ("separar").
25
- Expressão retirada a Gilberto Mendonça
Teles, Estudos De Poesia Brasileira,
p. 34.
26
- Cf Aguiar e Silva, Teoria Da Literatura,
6ª ed., Coimbra, Almedina, cp. I.
27
- Cf. N. Frye, Anatomy Of Criticism,
Princeton, P.U.P., 1957, pp. 17-18. O sublinhado
é nosso.
28
- R. Wellek e A. Warren, Teoria Da Literatura,
4ª ed. port.ª, Lisboa, Europa-América,
sd, pp. 14-17.
29
- Id., p. 18.
30
- p. 44.
31
- Karl Popper, em A Miséria do Historicismo
(p. 77) afirma mesmo que "as teorias precedem
as observações e os experimentos".
32
- [duras] é um substituto muito vulgar
de "rigorosas", no discurso dos cientistas
e dos teóricos da ciência.
33
- Cf. p. 325.
34
- A. Potniebiá, Pensamento e Linguagem,
Cravóvia, 1905, apud Krystyna
Pomorska, Formalismo e Estruturalismo,
São Paulo, Perspectiva, p. 85.
35
- No sentido que a palavra toma em Popper.
36
- K. Popper, A Miséria do Historicismo,
p. 34.
37
- K. Popper, A Miséria do Historicismo,
p. 34.
38
- Cf. Rosalind Krauss, O Mito Da Vanguarda
E Outros Mitos Modernos; Wellek, op. cit.,
pp. 318-319.
39
- K. Popper, op. cit., pp. 78-79.
40
- O autor reconhece isso: "Devemos reconhecer
que estamos perante um círculo lógico:
o processo histórico tem de ser julgado
por valores, enquanto a própria escala
de valores resulta da história"
(p. 321).
41
- p. 326.
42
- Aristarchos, 2ª ed. rev. e precedida
de dois estudos de Tristao de Athayde, Rio de
Janeiro, H. Antunes, 1941. , p. 117. Para ele
a hipótese era "o expediente de
suppôr provisoriamente coisas".
43
- K. Popper, op. cit., p. 105.
44
- V. Michel-Louis Rouquette, A Criatividade,
Lisboa, Livros do Brasil, sd (ed. or.: Paris,
PUF, [1973]).
45
- A Miséria do Historicismo, p.
31.
46
- V. Rodrigo Sá Nogueira Saraiva, «A
Música, Porta Para O Sagrado»,
in A Vivência Do Sagrado, Lisboa,
Huguin, 1998, p. 193.
47
- Braga ; Coimbra, Angelus Novus,1996, p. 2.
48
- Karl Popper, op. cit., p. 69.
49
- Op. cit., p. 10.
50
- Cf. Rui Estrada, op. cit., p. 11. Explicar
não tem aqui, naturalmente, o sentido
que demos à palavra no nosso texto.
51
- P. ex., a que Fidelino de Figueiredo tentou
em A luta pela Expressão, Lisboa,
Ática, 1960.
52
- Por exemplo a do romance neo-realista no espaço
lusófono.
53
- Como a de Pierre Bordieu.
54
- V. O prefácio de José Carlos
Venâncio ao livro A Autobiografia Lírica
De «M. António» : Uma Estética
E Uma Ética Da Crioulidade Angolana
(Évora, Pendor, 1997).
55
- O que fizemos, para além daquele livro,
em Notícia Da Literatura Angolana
(Lisboa, IN-CM, no prelo) e, antes, na conferência
«O Barroco E As Origens Da Literatura
Angolana», lida no Palácio Fronteira,
Lisboa, em 1992.
56
- Michel-Louis Rouquette, em A Criatividade,
p. 116, onde resume estes tipos de Gordon, dá
o exemplo de Graham Bell, que "tomou por
modelo o funcionamento do tímpano para
construir o seu telefone".
57
- Rouquette, loc. cit..
58
- M. Fustier, Pratique De La Créativité,
Paris, ESF, 1985, citado por Teresa Vergani
em Educação Matemática,
Lisboa, Univ. Aberta, 1993, p. 62.
59
- Citado por Teresa Vergani, op. cit., p. 63.
60
- Cf. op. cit., p. 126.
61
- Vignaux, op. cit., p. 231 (citação
de J. F. Richard, «Introdution»,
Traité De Psichologie Cognitive,
II, Paris, Dunod, 1990).
62
- Rouquette, op. cit., pp. 121-122.
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