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PEQUENO
MOSAICO DO SERTÃO EM GUIMARÃES ROSA
Carlos
Eduardo Pereira Theobaldo
Resumo
Grande
sertão: veredas, obra-prima de João Guimarães
Rosa, é uma narrativa extremamente multifacetada
- as várias vertentes do homem se apresentam nos
caminhos e descaminhos da personagem principal,
Riobaldo e seu (sua) companheiro(a) Diadorim,
nessa busca. A toponímia, onde notamos as influências
portuguesa, africana e indígena nos vocábulos.
A força dos nomes Riobaldo e Diadorim, e os dois
juntos, contrastes e semelhanças. Os números na
narrativa. O tempo, observado sob o ponto de vista
entre Luz (o Divino) e sombras (o mal, em todas
as suas acepções). A união do tempo conceitual
(absoluto) com o tempo psicológico (relativo).
O tempo como consciência cósmica.
Abstract
Grande
sertão: veredas, João Guimarães Rosa's masterpiece,
is a complex narrative that offers the reader
many different points of view of life. The several
ways of man are presented by the right and wrong
paths of the main character, Riobaldo, and his
friend Diadorim. In various toponymy we can see
Portuguese, African and Indian influences. A detailed
analysis of Riobaldo and Diadorim's names describes
analogies and oppositions that shows their strength.
Side a side numbers are also studied in the narrative.
Time is observed between Light - the Divine -
and shadows - the evil and its variations. The
union of conceptual time (absolute) with psychological
time (relative) reviews time as cosmic conscience.
Carlos Theobaldo é Mestre em Literatura Brasileira,
professor de língua portuguesa e literatura brasileira,
co-autor do livro Duas visões: Guimarães Rosa
& Clarice Lispector (Ágora da Ilha, 2000). novosautores@terra.com.br
Segundo
o siciliano Górgias, em Górgias de Platão,
um retórico cheio de si, orgulhoso de seu ensino,
toda obra humana é filha da palavra. Graças à
palavra, constroem-se cidades, abrem-se portos,
dirigem-se exércitos e governa-se o estado. Sob
a condição, observa Sócrates, de que a empresa
seja justa e não um simulacro de justiça. Na força
das palavras está contida toda uma sabedoria,
que o poeta põe em prática, seja em prosa ou verso,
tentando dizer o indizível, o indecifrável, mostrando
um novo aspecto e uso para aquela palavra... reinventando
a verdade. A ficção, sem o compromisso de mostrar
a verdade, é mais real que o relato puro - pois
mostra a reflexão do acontecido. Vimos, assim,
um novo modo de observar o mundo - essa redescoberta
do viver.
Mas,
como disse Sócrates, em Górgias, a alma
não pode passar da ignorância à ciência senão
quando, tendo antes animado corpos diferentes,
ela encontra, novamente, a lembrança de suas experiências
anteriores. Assim como uma iniciação, o homem
é um eterno aprendiz de maravilhas... E chegamos
à personagem Riobaldo, em Grande sertão: veredas,
pensando: já que a alma tem de animar vários corpos,
e sendo Riobaldo vários em um, sua alma evoluiu
de forma rica, plena. Ou, como disse Guimarães
Rosa: "Imortal é o que é do sofrido; tudo abaixo
daí, é póstumo"(1). Riobaldo
era todos e nenhum deles... É um outro.
Esse outro que nos ensina a apreciar o mundo,
ora como menino, ora como professor, ora como
jagunço, ora como Tatarana, ora como Urutú-Branco...
As veredas são diversas. O homem, na sua eterna
busca pelo momento da Salvação, atravessa caminhos
tão díspares quanto a sua própria existência.
O homem humano se vê nesse mundo, desaparelhado,
como um recém-nascido que aprende e apreende informações
no decorrer da vida. Nesse estado, a experiência
pessoal mostra que o protagonista, Riobaldo, fez
sua evolução por todos os gêneros, que o autor
utiliza e opera como forma de mostrar o lado humano,
o viver. O homem é múltiplo. E em seus caminhos,
vemos todos os estados.
Épico, lírico e com tonalidades dramáticas, Grande
sertão: veredas é uma obra essencialmente
poética. Como nos explica Henriqueta Lisboa:
Épica,
na objetividade do seu motivo central
(o sertão é do tamanho do mundo), obra
lírica pela transposição da objetividade
primeira para a completa objetividade
que domina o tema (o sertão é onde o pensamento
mais forte do que o poder do lugar), pela
essência do teor humano (o sertão é dentro
da gente), pela intensa participação da
natureza e pela contemplação da própria
vida íntima, a originalidade de Grande
sertão: veredas consiste em ser uma epopéia
do homem interior(2).
Essa grande epopéia, que nos leva ao sertão que
Guimarães Rosa idealizou e que Riobaldo nos narra,
reativando as fontes primitivas de vida mais pura.
Em um tempo em que havia o respeito, não apenas
como figura de retórica, em um tempo "mágico".
Na travessia do Liso do Sussuarão (observe-se
o nome), fica definitivamente marcada como seu
tour de force. Sombras protetoras surgem
para acolher os "riobaldos", sem que a luz do
sol - que queima - incida sobre o bando, deixando
claro quem estava com a força para o combate com
os verdadeiros pactários. Esse episódio tem seu
paralelo nas novelas de cavalaria.
A busca do homem, essa verdade inolvidável de
cada ser, que atravessa os tempos, fazendo perene
essa descoberta - o homem sempre se descobre,
a si e ao mundo. Uma obra com paralelo no romance
de cavalaria, sendo uma iniciação do viver. Encontramos
pontos em comum no Livro de José de Arimatéia(3),
na Demanda do Santo Graal(4),
no Horto do Esposo(5),
nos cantares de gesta, como no Cantar do Mio
Cid(6), em La Chanson
de Roland(7). Esse sertão-mundo,
folclórico, em que Riobaldo narra não só sua história,
mas nos desvela toda a alma sertaneja.
Em A Demanda do Santo Graal são igualmente
encontradas travessias perigosas, em que o cavaleiro
vence ou é derrotado de acordo com as suas virtudes
de lealdade, bravura e castidade. Portanto, o
autor se utiliza dessas narrativas para criar
uma narrativa maior, que englobe a iniciação do
viver. Ao final, Riobaldo já é outro, mas a dúvida
persiste. Acreditamos que Guimarães Rosa, elevando
o romance moderno brasileiro à altura de epopéia,
criou a nossa epopéia moderna. Todas as características
desta estão presentes. A virtude das personagens
e a busca de uma resposta ao viver, Deus e o diabo,
o pacto de castidade entre Riobaldo e Diadorim,
etc.
A relação com o demo vem de longa data. Os pactários
são muitos, a história medieval está repleta deles.
Só que, em Grande sertão: veredas, a figura
do demo não se faz presente. São os elementos
da Natureza que interagem com o homem, demarcando
quando os acontecimentos tomam um rumo desfavorável.
Também poderíamos falar da toponímia. Rico em
nomes de cidades, rios, aldeias, pontes, fazendas,
retiros, montes. Para exemplificar, destacamos
alguns nomes que são citados na narrativa, até
a página 17 (conforme edição da Abril Cultural):
Urucúia,
Corinto, Curvelo, Vereda- de- Vaca -Mansa
-de - Santa -Rita, Andrequicé, Rio do
Chico, Cachoeira -dos - Bois, Campo-Redondo,
Jijuã, vereda do Burití Pardo, Passo do
Pubo, da-Areia, Curralinho. O Limãozinho,
Vau-Vau, Sete-Lagoas, Serra-Nova, Rio-Pardo,
Traçadal, Rosa. (1983:9-17)
Ao longo da narrativa, podemos perceber o lirismo
dos nomes, a criatividade, as influências portuguesa,
africana e indígena nos vocábulos. Esse amálgama
que faz com que o folclórico, o popular, se unam
ao experimentalismo culto da língua, e suas raízes,
nos fazendo conhecer, entre os nomes dos lugares,
um pouco desse mítico sertão.
Nomes
Guimarães Rosa, em sua prosa corrida(8),
semelhante ao francês Louis-Ferdinand Céline e
ao americano beatnik(9)
Jack Kerouac, faz destacar algumas pausas na narrativa,
como uma espécie de staccato(10).
Reticências, cortes, parágrafos, tudo concorre
para que essa pausa seja uma ponte para que o
ouvinte/leitor possa fazer sua reflexão - É uma
pausa para a vida (pensar é viver).
Outrossim, alguns nomes de personagens se destacam,
pois, além de sua participação na narrativa, são
como pequenas esfinges a serem decifradas. Destacamos
o nome de Riobaldo e Diadorim para uma breve análise.
Riobaldo
O nome Riobaldo suscita várias interpretações.
A princípio, iremos dividi-lo em dois segmentos,
como quando analisado por Manuel Cavalcanti Proença
e por Luiz Costa Lima(11):
Rio-baldo
Como nos explica Mansur Guérios, o nome Rio é
um "sobrenome português geográfico - El-rei
D. Sebastião, ano de 1560, as deu [as armas] a
Diogo de Castro do Rio por grandes serviços que
fez a esta coroa"(12). Assim,
vemos que a origem do nome Rio provém de um guerreiro,
um combatente. Mas a palavra "rio" também significa
"curso de água natural, que se desloca de um
nível mais elevado para outro mais baixo, aumentando
progressivamente o seu volume até desaguar no
mar, num lago, ou noutro rio, e cujas características
dependem do relevo, do regime das águas, etc"(13),
como esclarece Aurélio Buarque de Holanda. O rio
como metáfora poética da vida, em que cada vida
assume seu próprio curso.
O nome Baldo, segundo Mansur Guérios, vem do italiano
Ubaldo, por influência germânica, que por sua
vez vem do alemão "Hugbald: audacioso (bald)
no pensar (hug, huge)"(14).
Aqui já vemos uma das características de Riobaldo
afigurada. Já Aurélio Buarque de Holanda nos esclarece
que a palavra baldo pode ser "Barragem ou parede
para represar as águas de um açude" ou "falto,
falho, carecido, carente... baldado... no carteado,
diz-se de quem não tem determinado naipe"(15).
Portanto, diante dessas explicações, acreditamos
ser Riobaldo tudo isso:
- Ambicioso no pensar (nos seus questionamentos),
- Carente (pensa no amor de Otacília, nas "artes"
de Nhorinhá, sempre ao lado de Diadorim, estimando-a),
- Baldado (frustrado, malogrado por não saber
se o diabo existe, se é pactário, se, enfim, tudo
acabou),
- Está fora da rodada no jogo (não havia lugar
para ele no "jogo" de Hermógenes e Diadorim),
- Mas é forte como uma barragem que represa as
águas (contém a "vida").
Riobaldo, após suas aventuras como jagunço, terá
o grande encontro. Não com o diabo, mas com a
Verdade. Descobrirá, através de sua iniciação
pelo sertão, que a vida é um eterno recomeço,
um ciclo vital em que o homem, em constante aprendizagem,
mesmo após suas experiências, não sabe nada. Volta
ao início, pois, como está "nonada", sabe que
certezas não há, exceto que o diabo não há, existe
é o "homem humano".
Apenas compreende, após todas as travessias, que
existe a nossa humanidade, em que bem e mal se
fundem, nos fazendo figuras humanas, com nossas
qualidades e nossos defeitos, nessa travessia
que é o viver. E é "muito perigoso".
Diadorim
Para análise do nome de Diadorim, utilizaremos
o mesmo processo que utilizamos no nome de Riobaldo,
já utilizado por Augusto de Campos e Costa Lima(16),
dividindo-o em duas partes:
Dia-dorim
Sendo "Dia", como nos ensina Mansur Guérios, um
sobrenome português:
No
século XVI: Diaz, forma correta de Didacus,
ver Dídaco. Em documento do século XVI:
Diez, patronímico de Diego - Segundo o
historiador Gonçalo Argote Molina, o nome
provém do espanhol diés (diez), e foi
ganho por Pedro Fidalgo que de noite,
à luz dum facho, conquistou valentemente
o castelo de Fiscar, mtando diez (10)
mouros nesse ato. E nas armas dessa família
havia "em campo azul hüa estrella de oiro
de dez raios". A etimologia é fantasiosa(17).
Donde podemos concluir que, ao menos no nome,
a origem da personagem Diadorim é guerreira, combatente,
uma valentia típica dos cavaleiros medievais.
Não nos esquecendo que dia é a luz, o dia em si,
o espaço de tempo que o demarca. Mas, também é
essa luz, que separa os homens, que atravessa
a vida. Segundo Aurélio Buarque de Holanda, "dia
- do grego diá, prefixo que significa 'separação',
através'; diacáustico, diacronia, diurese"(18).
Podemos, dessa forma, dizer que Diadorim possui
todas essas características, criando o "mito"
dessa heroína sertaneja.
Dorim acreditamos ser a corruptela do nome Dora,
que por sua vez é a abreviatura de nomes como
Teodora, etc. Como afirma Mansur Guérios, "Teodoro-a,
do grego theódoros: presente (doros) de Deus (Theo)"(19).
Entretanto, Aurélio Buarque de Holanda nos esclarece
que o sufixo nominal -dora é equivalente de -dor
e ocorre em vocábulos formados no latim (abjurador),
ou no vernáculo, a partir do radical verbal com
as noções de "'oficio', 'profissão', 'que ou
aquele que pratica determinada ação' (definida
pelo radical verbal), 'agente', 'instrumento de
ação'"(20). Assim, presumimos
que Diadorim era a luz de Riobaldo, e por isso
o guiou por essas veredas, porém, era também o
seu anjo da guarda, que, como presente de Deus
(Teodora), o auxiliaria e protegeria nas mais
inóspitas empresas, porque esse era seu ofício,
sua profissão. Ela era o agente, o instrumento
da ação, portanto, só ela poderia acabar com o
mal (matando Hermógenes), pois era o instrumento
de Deus.
Como os antigos cavaleiros, que se vingam, por
honra, com sangue (não esqueçamos que foi Hermógenes
que assassinou pelas costas seu pai, Joca Ramiro).
Essa é a heroína medieval, mesclada com os mitos
religiosos, como uma Joana d'Arc (a donzela guerreira)
do sertão, mantendo sua força pela castidade,
onde a honra, a justiça e o dever falam mais alto.
Riobaldo
e Diadorim
A relação de Riobaldo com Diadorim não passa somente
pela amizade. Ela começa nos nomes. Existe um
paralelismo no próprio número de sílabas dos nomes
dos protagonistas, que se dividem em dois segmentos:
Rio-baldo
Dia-dorim
O primeiro segmento de ambos os nomes são dissílabos
de três letras com hiato em que a primeira vogal
é a letra "i" e o que significa o "i"? É a vogal
do meio: a-e-i-o-u, quer dizer: o equilíbrio.
O meio sempre será o equilíbrio.
O segundo segmento -baldo/ -dorim, de ambos, são
compostos por cinco letras. Divididos em duas
sílabas, em que se alternam o número de letras,
o nome dele começa com três letras na primeira
sílaba e duas na segunda:
bal-do
O dela, ao contrário:
do-rim
A última sílaba do segundo segmento do nome dele
é a sílaba inicial do segundo segmento do nome
dela (do), e possuem o mesmo som: /dô/. É o elemento
comum entre os nomes deles. E o que significa
esse /dô/ isoladamente? Pode ser uma corruptela
da palavra dor. Começa pelo nome dela e termina
pelo nome dele:
Dia-do-rim
Rio-bal-do
É a dor do amor impossível, é o amor irrealizado.
Eles se amaram mas não se conheceram como homem
e mulher - então não concretizaram esse amor.
Essa é a origem da dor. Essa lembrança constante:
"O Menino me deu a mão: e o que a mão a mão
diz é o curto; às vezes pode ser o mais advinhado
e conteúdo; isto também. E ele como sorriu. Digo
ao senhor: até hoje para mim está sorrindo. Digo."
Rosa (1983:101).
O nome é tão importante quanto a personagem, pois
através do nome desvelamos a sua alma. Porém,
para que o nosso estudo não se alongue em demasia,
teceremos uma última consideração. No decorrer
da narrativa, os bandos e seus integrantes são
chamados pelo nome de seu chefe, portanto, seus
seguidores: os ramiros, os medeiros-vazes,
os hermógenes, os zé-bebelos, os riobaldos.
O nome do chefe do bando deixou de ser um substantivo
próprio e passou a designar um substantivo comum.
Números
Observamos que, durante a narrativa, os números
são amplamente utilizados. Mas, numa obra como
a de Guimarães Rosa, os números têm um poder especial,
mágico, simbológico. Sob essa ótica, analisaremos
os números, como nos ensinam Jean Chevalier e
Alain Gheerbrant:
Os
números, que aparentemente servem apenas
para contar, forneceram, desde os tempos
antigos, uma base de escolha para as elaborações
simbólicas. Exprimem não apenas quantidades,
mas idéias e forças... o número das coisas
ou dos fatos reveste-se em si mesmo de
uma grande importância e até permite às
vezes, por si só, que se alcance uma verdadeira
compreensão dos seres e dos acontecimentos...
cada número tem sua personalidade própria.(21)
Dos números que mais se destacaram, durante a
narrativa, o número "3" é o que se sobressai.
Porém, devido à sua importância, analisaremos
o número "7" e o "8". Em verdade, o número "8"
será apenas estudado no modo como se apresenta
ao final do texto, sob forma simbólica, deitado.
O
número "3"
Segundo Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, o três
polariza várias culturas em seu universalismo:
O
três é um número fundamental universalmente.
Exprime uma ordem intelectual e espiritual,
em Deus, no cosmo ou no homem. Sintetiza
a triunidade do ser vivo ou resulta da
conjunção de 1 e de 2, produzido, neste
caso, da União do Céu e da Terra(22).
O número 3 foi utilizado de maneira variada, até
como artifício para chamar a atenção do leitor
como recurso enfático (começo, meio e fim, como
nos ensina Pitágoras?)(23):
"coisas que vi, vi, vi", Rosa (1983:51),
"Floriano, foi, foi, foi", Rosa (1983:140),
"Urutú Branco!... Urutú Branco!... Urutú Branco!...
Cujo era eu mesmo", Rosa (1983:392), "...cavalo
são desdenha de dormir, o senhor sabe: bicho que
só come, come, come" Rosa (1983:403), "Aqui
a estória se acabou. Aqui, a estória acabada.
Aqui a estória acaba", Rosa (1983:424).
Observando-se atentamente, podemos notar que o
número 3 é citado na narrativa 136 vezes. Isso
nos conduz ao seguinte raciocínio:
136
= 1 + 3 + 6 = 10 = 1 + 0 = 1
O número 1 é o local simbólico do ser, fonte e
fim de todas as coisas. Como nos explicam Jean
Chevalier e Alain Gheerbrant:
Símbolo
do homem em pé: único ser vivo que usufrui
essa faculdade, a ponto de certos antropólogos
fazerem da verticalidade um sinal distintivo
do homem, ainda mais radical do que a
razão... O um é também o Princípio...
o centro místico, de onde irradia o espírito
como um sol(24).
Ou, como afirma Marie Louise Lacy: "O número
1 representa liderança... pessoas independentes,
ousadas... estão sempre em atividade. Esta é uma
energia masculina ligada ao princípio divino"(25).
O
número "7"
O número 7 é outro número que nos chama a atenção
na narrativa. Como esclarecem Jean Chevalier e
Alain Gheerbrant: "O 7 corresponde aos sete
dias da semana, aos sete planetas, aos sete graus
da perfeição... O sete indica o sentido de uma
mudança depois de um ciclo concluído e de uma
renovação positiva"(26).
Portanto, a mudança de Riobaldo tinha de se efetivar
sob a égide do número 7, citado desde o início
do livro até quase seu fim.
Porém, observemos que o número 7 é citado 29 vezes
na narrativa, o que nos conduz ao seguinte raciocínio:
29 = 2 + 9 = 11 = 1 + 1 = 2. Seria, portanto,
a dualidade das passagens na vida de Riobaldo:
o bem e o mal, amor e ódio, evolução e involução.
Ou, como nos explicam Jean Chevalier e Alain Gheerbrant:
Símbolo
de oposição, de conflito, de reflexão,
esse número indica o equilíbrio realizado
ou ameaças latentes... O número 2 simboliza
o dualismo sobre o qual repousa toda dialética,
todo esforço, todo combate, todo movimento,
todo progresso... O 2 exprime, então,
um antagonismo que latente se torna manifesto...
Tanto pode ser de ódio quanto de amor...(27)
Riobaldo tinha de passar por esse sertão-mundo,
essa máquina de fazer homens e feras, esse renovar
a cada instante, que não volta.
O
número "8"
Em verdade, o número 8 aparece no texto não sob
a forma de algarismo, mas sim sob a forma de signo,
deitado, sendo assim o símbolo matemático do infinito.
O oito é o equilíbrio cósmico, ou como nos ensinam
Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, "a lâmina
oito do tarô de Marselha representa A Justiça,
símbolo da completude totalizante e do equilíbrio"...(28).
O
plano conceitual
Tentaremos analisar a questão do tempo sob uma
nova ótica. Para Sir Isaac Newton, com sua Mecânica
Clássica, o tempo foi introduzido de modo absoluto
(quer dizer, o tempo existe por si mesmo, independente
das circunstâncias exteriores e decorrendo uniformemente
para todos os observadores). Porém, esse conceito
de tempo absoluto levou ao impasse a Física do
século XIX, pois implicava a existência de velocidade
infinita e propagação instantânea dos sinais a
distância. Assim como o comprimento e a massa
também aparecem como grandezas absolutas.
Só mais tarde, já no século XX, com a teoria da
Relatividade, criada por Albert Einstein, seria
solucionado esse impasse. Na Mecânica Relativista
não só o tempo, mas o espaço e a massa dos corpos
apareciam como grandezas relativas. O mesmo intervalo
pode ser diferente para diferentes observadores.
O tempo conceitual (medida externa da duração
por meio do movimento, tal como hora, dia, mês,
ano) é comumente contrastado ao tempo psicológico
ou de percepção (a relação temporal entre objeto
e sujeito). Para alguns autores, o tempo do relógio
não tem significado algum para a imaginação, sendo
apenas uma convenção artificial e arbitrária,
desenvolvida com o objetivo de ser utilidade social,
para regular e coordenar as ações que envolvam
as pessoas. Em outras palavras, por ele sabemos
a hora de partirmos do escritório, de jantarmos,
de dormirmos. É o tempo do relógio que regula
a nossa vida. Mas os pensamentos, experiências
e emoções transitam em uma ordem diferenciada
e pessoal, esse nosso tempo pessoal, por assim
dizer, não caberia em medidas do tempo do relógio.
Portanto, utilizaremos como medida para a análise
da narrativa o sol, de forma que o tempo conceitual
e o tempo psicológico se fundam, guardados os
seus devidos valores. E chamaremos o Tempo Absoluto
de Newton de Eternidade, e o Tempo Relativo de
Einstein de percepção (da memória) de Riobaldo.
O
tema
No sertão, o tempo é marcadamente forte. Com a
própria força da natureza, marcaremos esse tempo
com a passagem do sol, fragmentado em horas. Em
três horas distintas, bem delineadas - isso não
significa que o texto tenha de ser propriamente
dividido assim. Como ele é uma pluralidade de
textos dentro do seu corpo principal, e as relações
se interligam, ele liga passado-presente-futuro
como uma só coisa. Mas, para efeito de análise,
dividiremos assim o texto: seis horas, quinze
horas, dezoito horas e trinta minutos. Para tal,
utilizaremos o instrumento de medida da passagem
do sol: o relógio de sol. O sol do sertão, com
toda a sua luminosidade, será o nosso guia, representando
a vontade divina. Contudo, a narrativa fala do
homem, sua consciência primitiva, a busca da verdade,
a luta do bem com o mal, condições inerentes à
consciência humana. Utilizaremos o símbolo fálico
para representação desse relógio (imaginemos um
relógio de sol cuja haste - que marca a passagem
da luz - seja o símbolo fálico). Pois, como deus-criador-criatura,
o homem também é um criador, sendo criatura pensante.
E esses pensamentos, que são o questionamento
da condição humana, são representados pelo que
gera a vida, em primeira instância, o phallu
(referimo-nos ao phallu não como representação
esotérica nem erótica; ele significa simplesmente
a potência geradora, que sob essa forma, é venerada
em diversas religiões). Quanto à sua relação com
o sol, citamos aqui um trecho do mito de Atená.
Esclarece-nos Junito de Souza Brandão:
Seu
nascimento foi um jorro de luz sobre o
cosmo, aurora de um mundo novo, atmosfera
luminosa, semelhante à hierofania de uma
divindade emergindo de uma montanha sagrada.
Sua aparição marca um transtorno na história
do mundo e da humanidade. Uma chuva de
neve de ouro caiu sobre Atenas, quando
de seu nascimento: neve e ouro, pureza
e riqueza, tombando do céu com a dupla
função de fecundar, como a chuva, e de
iluminar, como o sol. E é, por isso mesmo,
que em certas festas de Atená se ofereciam
bolos em forma de serpente e de falo,
símbolos da fertilidade e de fecundidade(29).
Disse La Bruyère: "fazer livro é ofício, como
fabricar relógio: é preciso mais do que espírito
para ser autor"(30). Assim
é a escritura em Grande sertão: veredas: tudo
se encaixa e funciona como um relógio, mesmo quando
aparentemente há o caos, uma lógica (ordem) é
instaurada, nos remetendo a outros acontecimentos,
e por conseguinte outros pensamentos. Como nos
improvisos de jazz, em que o inesperado é em verdade
fruto de uma ordenação, essa lógica desesperadora
na cabeça de um homem cuja vivência é larga e
a reflexão, serena, faz a descoberta de um novo
mundo, riobaldianamente, nesse sertão-vida. Para
não perdermos mais tempo em digressões e análises,
vamos ao trecho em que pela primeira vez na narrativa
surge a figura de Diadorim.
Conforme
pensei em Didorim. Só pensava era nele.
Um joão-congo cantou. Eu queria morrer
pensando em meu amigo Diadorim, mano-oh-mão,
que estava na Serra do Pau-d'Arco, quase
na divisa baiana, com nossa outra metade
dos sô-candelários... com meu amigo Diadorim
me abraçava, sentimento meu ia -voava
reto para ele... Aí arre, mas: que esta
minha boca não tem ordem nenhuma. Estou
contando fora, coisas divagadas. Rosa
(1983:18)
Aqui entra o onírico, demonstrando o quanto ele
gostava de Diadorim. Essa citação, em que seu
sentimento aflora de maneira intensa, logo no
início da narrativa, delimitaremos como seis horas,
ou o raiar do dia.
Mais adiante, temos o momento delimitador da tarde:
Ao
menos outro deles, dos hermógenes, quero
ver se resgato de abater, até vir o sereno
do anoitecido... -eu meditei. Não deu.
Não pude. O que houve, o conseguinte,
foi que Zé Bebelo pegou em meu ombro.
Ele mudou de lugar, pôs a cara no meio
da luz. - Aí, está ouvindo Tatarana Riobaldo,
está ouvindo? - ele disse, com um sorriso
de grandes brilhos, que não era de ruindade
e nem de bondade. Aquilo foi num dia,
devia de estar sendo por volta de umas
três da tarde, pelo rumo do sol. Ouvi!
Rosa (1983:253).
Conforme se apresenta, aqui demarcamos o meio
da tarde, esse grande dia, essa grande narrativa
solar. Como o próprio Riobaldo afirma, deveriam
ser umas três da tarde, assim, o meio dessa saga.
E, após a morte de Diadorim, e de ordenar para
enterrá-la separada dos outros, "num aliso
de vereda, adonde ninguém ache, nunca se saiba...",
Rosa (1983:424), Riobaldo explica: "E aquela
era a hora do mais tarde. O céu vem abaixando.
No que narrei, o senhor talvez até ache mais do
que eu, a minha verdade. Fim que foi. Aqui a estória
se acabou. Aqui, a estória acabada. Aqui a estória
acaba.", Rosa (1983:424). Aqui, denominamos
a hora do ocaso do sol, que marcaria as dezoito
horas e trinta minutos, o fim do sol e o início
da noite, essa grande noite que acompanhará Riobaldo.
O que nos chama a atenção é o modo como Riobaldo
anuncia que a estória chegou ao fim. Com o tempo
verbal no passado, no particípio-passado e no
presente, nos faz pensar nas três características
que nos ensina Mestre Buddha:
Todas
as formações são passageiras/Todas as
formações são sujeitas à dor/Todas as
formações são sem substância real/Aquele
que se compenetra bem dessa verdade fica
livre da dor. É o caminho da purificação(31).
Riobaldo não é um mero joguete na mão de Deus.
Ele é um homem predestinado, é o herói e o anti-herói.
Ele não deixa os acontecimentos influírem na sua
vida, ele os faz. Cria situações-limite, em que
sua volição é a maior fonte de riqueza. Desde
criança, no encontro com o "Menino" (Diadorim),
já havia um traço de diferença em seu caráter.
Os fatos o levaram para o seio dos acontecimentos.
Quando já compreendia os seus desígnios, tomou
a atitude de sair. De mestre Lucas para Zé Bebelo,
para Joca Ramiro, para a jagunçagem, para a vida
de fazendeiro. Veredas. Com seus questionamentos
de tonalidades e caráter existencialista, Riobaldo
chega ao humanismo no final de sua "estória",
onde tudo termina. O ato de reflexão através da
revivência da memória, ao cantar a sua saga, cria
essa mágica vontade de descobrirmos a beleza poética
da vida, através de suas palavras. Quase um monólogo,
sua volta ao passado em "diálogo" com o homem
culto da cidade, é um questionamento de valores,
dos reais valores, nos mostrando um mundo em que
não há soluções maravilhosas, cheio de problemas
sociais, políticos, que vimos atravessar por duas
guerras mundiais (numa das quais, na Segunda,
o autor tomou parte). Um mundo que se estagnou,
sem veredas.
Nessa travessia, Riobaldo nos ensina o valor da
dádiva da vida e seu completo aprender, constante,
com a natureza, união física, psíquica e moral,
nessa fé renovadora de que o Bem e o Mal não há,
há é homem humano. Acabamos nonada, outra vez.
Cabe ao leitor começar o seu "ciclo", a sua eterna
"renovação". E assim, infinitamente, pois a vida
é eterna. Nós é que passamos por ela. Só o Amor
fica. O Amor, que é tudo. Amor pela vida. Esse
Amor...
Riobaldo teve uma iniciação mística. Mas, a verdadeira
iniciação é a vida, seus valores morais e espirituais.
Mesmo as religiões mais tradicionalmente castas
e puras não podem expressar a grandeza desse aprender,
sendo os caminhos, as veredas que levam a Deus,
apenas parte do aprendizado(32).
O homem tem de fazer essa caminhada, que começa
nonada e termina na travessia, essa última fronteira
que nos leva ao infinito, ao estado d'alma mais
singelo, mítico e físico. O homem tem de se descobrir,
na sua solidão diária, a solidão dele próprio
e dos outros. E a literatura ajuda a compreendermo-nos
melhor (a boa literatura). Em Riobaldo encontramos
todas as paixões humanas, o mítico e o real, o
sonho e a verdade, nessa busca incessante que
é o homem. Esse ser magnífico e ao mesmo tempo
tão insignificante perante a sua complexidade.
Esse coração latente, na jaula do viver. Por isso
"viver é muito perigoso", e não temos como fugir
dele. Essa é a travessia, que nunca tem fim, pois
enquanto existir o homem, existirá sempre esse
caminhar para a frente, em um eterno círculo vicioso,
conjugando o aprender com o viver e o sentir.
O homem é feito de sensações, desde o berço. E
seu aprendizado é lento. E nesse ritmo é o Grande
sertão: veredas - lento como a brisa, esse
vento que "varre" as folhas secas mas dá vida
ao pó. Esse vento que é o sopro inicial, a centelha
da vida, iluminando o viver. Esse aprender eterno,
como o sol, como sua luz: quente, vivo, seco.
O sertão é o mundo, e o sol, no sertão, fala mais
alto. Sol e sertão já se conhecem, de muito tempo.
Grande sertão: veredas é um pouco dessa
luz, própria, que o sertão nos oferta, e o aprender
nos conduz, durante a leitura dessa saga. A saga
do saber viver. Na luz, infinitamente.
Riobaldo seria um Adão dos tempos modernos que
vai ter o conhecimento através de Diadorim, da
atração que sente por ela, de saber as coisas
da vida, coisas do espírito. Por "ele", o "Menino",
que um dia lhe ensinou a coragem, pura e simples,
no rio (metáfora da vida). Diadorim que, como
homem, demonstra que essa Eva moderna é o próprio
Homem(33). Não há mais diferença.
O homem, de um modo geral (homens e mulheres),
está, para o conhecimento, privado de sua segurança,
pois há um preço a pagar pela sabedoria, o seu
"fruto" (a "árvore da sabedoria")(34).
Em Diadorim, temos o mito da donzela guerreira
(e virgem), como Joana d"Arc, a "virgem de Orleans"
(pucelle d'Orleans), que, por sua vez,
lutou sob inspiração divina. Diadorim tinha de
vingar a morte do pai, Joca Ramiro, como nos romances
de cavalaria - "olho por olho, dente por dente"
- herança da Idade Média, que por sua vez foi
buscar nas fontes bíblicas a inspiração para as
lutas, as batalhas. É a eterna luta do bem contra
o mal.
Diadorim sacrifica-se, conscientemente, ao final
- não há a figura do Deus ex-machina, mas
sim a atuação de Deus machina fatalis(35)
- como Jesus, que se deixa levar para o suplício
(via crucis) e morte. O drama está no cerne
da narrativa. Riobaldo questiona, aprende e presencia
a luta de Diadorim com Hermógenes, a luta do bem
contra o mal. Seu amor por Diadorim não pode ser
consumado (amor físico) e a poesia é a tônica
dessa verdadeira saga do viver, moderna, porém
tão pesada e profundamente triste, pois o homem
continua o mesmo. Após toda a literatura, todos
os livros escritos, o homem parece não aprender
que a vida é isso. Travessia. E que o homem, humano,
é aprender a viver. Riobaldo quer o perdão da
memória, e o pede - indiretamente - para o seu
interlocutor, sob forma de pergunta: "...que
o Diabo não existe. Pois não?", Rosa (1983:429).
Ele quer a confirmação de que não é mais pactário
e de que não tem mais que se "remoer" de culpa
pela morte de Diadorim. Hoje, restou apenas o
homem humano (que mescla o bem e o mal para viver),
e, ao final, afirma: "Nonada. O diabo não há!...
Travessia", Rosa (1983:429), como um convite
para retornarmos a esse tempo "edênico", como
em O paraíso perdido, de John Milton. Como
no tempo de nossos primeiros pais. Basta o homem
querer mudar. Mas o homem, humano, se não mudar,
ficará eternamente assim, preso ao seu pecado.
O radicalismo interpolar da obra consiste no fato
de ela não possuir fim. Em verdade, o que vale
é o meio - o presente, o viver(36).
O momento é o que interessa, nesse jogo de acontecimentos.
Esse momento presente, que é pensado e representado
pelo jagunço Riobaldo, pelo professor Riobaldo,
pelo menino Riobaldo(37). Até
chegarmos ao Homem Riobaldo, pronto e ausente(38),
que se manifesta como tal, no Hoje. Pois, amanhã,
infinito. O resto, é travessia do viver.
Portanto, o questionamento de Riobaldo não é um
medo improdutivo, e sim um medo produtivo. O medo
de Riobaldo não é um medo amorfo, mórbido, sem
vida, um medo com ânsias, um medo mais próximo
do pavor. O medo de Riobaldo é um medo capaz de
gerar idéias e correlacioná-las antes de agir,
fazendo-o refletir ao invés de agir. É o medo
do zelo, da segurança, mas também é o medo do
pensar. Porque, ser audaz é ser pecador, e ser
temeroso (perante as forças de Deus e do diabo)
é regressar às fontes, ao genuíno ideal cristão.
A alma deve conhecer o Cristo tal como a esposa
ao seu esposo (isto é, haver essa integração),
assim sendo fonte de uma verdadeira sabedoria,
como podemos observar na doutrina paulina, através
das Sagradas Escrituras, na contemplação e na
vida solitária.(39).
Por essa razão, Riobaldo, o nosso herói medieval,
age dessa forma. Sua solidão e contemplação encontram
voz nas palavras de São Paulo, e que trazem, através
de uma narrativa moderna, esses eternos questionamentos
do homem e da existência, revelando o belo, a
harmonia, o equilíbrio, sua integração com a Natureza
e com os homens, o mal e suas conseqüências, a
miséria do homem, as instâncias finais de sua
consciência.
Riobaldo não viu o diabo. Mas, vê-se Deus? Deus
em sua plenitude, estaria por trás de tudo...
esse amor à vida, às idéias. Deus não precisa
provar sua existência... Ele o faz através dos
seus atos. Nós é que, no cotidiano da vida, não
percebemos isso. Seria uma nascecidade
do viver, esses eternos questionamentos...
A obra cria o sertão-movência de Guimarães Rosa,
uma campovisão, porque bipolar como o Grande
sertão: veredas, é Deus e o demônio. A biparticipação
dos dois no embate do bem contra o mal. Existirá
diferença? Qual assemelhará em Guimarães Rosa
a essa realidade? - A poesia é a resposta.
NOTAS
1-
ROSA, J.G. In: ANDRADE, C.D. de. (1968), p.82
2- LISBOA, H. Apud: SOUZA, R.
de M. e (1978), p.55
3 -HISTÓRIA e antologia da literatura
portuguesa: séculos XIII-XIV (08/10/97), p.40
4- A DEMANDA do Santo Graal: manuscritos
do século XIII (1988), p.50-51
5- HISTÓRIA e antologia da literatura
portuguesa: séculos XIII-XIV (08/10/97), p.61
6- "La despedida de Cardeña",
v. 235-241. In: PEDRAZA JIMÉNEZ, F.; RODRÍGUEZ
CÁCERES, M. (1991), p.17-18
7- "La Chanson de Rolland". In:
LAGARDE, A., MICHARD, L. (1970), p.7
8- O termo prosa corrida é empregado
aqui no sentido de uma prosa solta, com parágrafos
que ocupam, às vezes, duas páginas, longos períodos.
9- Boêmios dos anos cinqüenta,
nos EUA, que influenciaram uma geração, com seu
modo de ser, perante a sociedade, o que mais tarde
abriu caminho para o surgimento do movimento hippie,
nos anos sessenta.
10- Stacatto - recurso
utilizado na música. Serve para indicar que trecho
deve ser executado, destacando-se nitidamente
cada nota. Ou, como nos explica Aurélio Buarque
de Holanda: "Na técnica dos instrumentos musicais,
sinal de intensidade representado por um pontinho
ou uma espécie de acento agudo sobre as notas
ou sob elas, e que indica que o som deve ser interrompido
mediante um toque seco e breve..." FERREIRA, A.B.H.
(1999), p.666
11- PROENÇA, M.C. (1958), p.14
LIMA, L.C. (1966), p.73
12- GUÉRIOS, R.F.M. (1973), p.187
13- FERREIRA, A.B.H. (1999), p.1770
14- GUÉRIOS, R.F.M. (1973), p.209
13 - FERREIRA, A.B.H. (1999),
p.1770
15- FERREIRA, A.B.H. (1999),
p.259
16- CAMPOS, A. de. In: COUTINHO,
E.F. (1991), p.338-339 LIMA, L.C. (1966), p.73
17- GUÉRIOS, R.F.M. (1973), p.91-92
18- FERREIRA, A.B.H. (1999),
p.674
19- GUÉRIOS, R.F.M. (1973), p.205
20- FERREIRA, A.B.H. (1999),
p.704
21- CHEVALIER, J., GHEERBRANT,
A. (1999), p.646
22- Ibidem
23- BULFINCH, T. (1965), p.236
24- CHEVALIER, J., GHEERBRANT,
A. (1999), p.918
25- LACY, M.L. (1991), p.96
26- CHEVALIER, J., GHEERBRANT,
A. (1999), p.826
27- Ibidem, p.346
28- Ibid., p.653
29- BRANDÃO, J. de S. (1998),
p.31
30- LA BRUYÈRE (MCMLXV), p.33
31- BUDDHA (s.d.), p.63
32- Cada pessoa vai trilhar seu
próprio caminho, e sob esse aspecto, cada um irá
descobrir a sua realidade, o seu modo único e
ímpar de aprender e apreender com o mundo.
33- Do rio, foram para a mata,
como num estado edênico... Até surgir o negro,
que o "Menino" enfrenta, com sua faca, com toda
a coragem - demonstrando a Riobaldo o conhecer
da vida: a mata, o rio, a coragem... Ali é o início...
(como no início, um homem e uma mulher e o mundo
- sertão-mundo).
34- "É de saber que a serpente
era o mais astuto de todos os animais da terra,
que Deus tinha feito: e ela disse à mulher: Por
que vos mandou Deus que não comêsseis do fruto
de todas as árvores do paraíso? Respondeu-lhe
a mulher: Nós comemos dos frutos das árvores,
que há no paraíso. Mas do fruto da árvore, que
está no meio do paraíso, Deus mandou que não comêssemos,
nem a tocássemos, sob pena de morrermos. Mas a
serpente disse à mulher: Bem podeis estar seguros
que não haveis de morrer: porque Deus sabe que
tanto vós comerdes desse fruto, se abrirão vossos
olhos; e vós sereis como uns deuses conhecendo
o bem e o mal. A mulher, pois, vendo que o fruto
daquela árvore era bom para se comer, e era formoso,
e agradável à vista, tomou dele, e comeu, e deu
a seu marido, que comeu do mesmo fruto com ela.
No mesmo ponto se lhes abriram os olhos, e ambos
conheceram que estavam nus, e tendo cosido umas
com outras, umas folhas de figueira, fizeram delas
umas cintas. E Adão, e sua mulher, como se tivessem
ouvido a voz do Senhor Deus, que andava pelo paraíso,
ao tempo que se levantava a viração depois do
meio-dia, se esconderam da face do senhor Deus
entre as árvores do paraíso. E o Senhor Deus chamou
por Adão: Como ouvi a tua voz no paraíso, e estava
nu, tive medo e escondi-me. Disse-lhe Deus: Donde
soubeste tu que estavas nu, se não porque comeste
do fruto da árvore, de que tinha ordenado que
não comesses? Respondeu Adão: A mulher que tu
me deste por companheira, deu-me desse fruto,
e eu comi dele. E o Senhor Deus disse para a mulher:
Por que fizeste tu isto? Respondeu ela: A serpente
me enganou e eu comi." BÍBLIA Sagrada (1975) Gênesis,
3, 1-13
Quer dizer, o conhecimento do bem e do mal, essa
questão filosófica, que atravessa os tempos, é
uma questão de vida ou morte: se comessem ou tocassem
o fruto proibido, morreriam. Morrer para renascer
- o preço do conhecimento, dessa busca pelo "proibido",
dessas forças indomáveis da natureza, é a morte.
Muda-se a consciência, tem-se a verdadeira noção
das coisas.
Esse é o pecado do homem, mas só assim, ele seria
homem humano. Por isso, para viver, temos de aprender.
E para aprender, temos de conhecer. E, ao conhecermos
e refletirmos, mudamos nosso modo de ver e pensar
o mundo, sua essência - e isso é o princípio dessa
iniciação. O mundo nunca mais será o mesmo. E,
nesse instante, no momento dessa consciência,
a consciência desse pensar, inolvidável instante,
morremos. Não seremos mais os mesmos, pois conhecemos
(e, conseqüentemente, conhecemo-nos). E essa pureza
de estado d'alma, essa virgindade espiritual,
se foi. Assim, distinguiremos bem e mal. Assim
viveremos. Assim aprendemos, assim morremos.
35- É o ut moreat, a arte
de comover o leitor, o ineludível em Grande
sertão: veredas.
36- Acreditamos que, quando o
narrador retorna através dos desvãos da memória,
no tempo, ele revive suas experiências, portanto,
as suas emoções. Elas são esse presente, o viver
- porque o viver, em nosso entender, não é apenas
composto do presente momento vivido, mas antes
e principalmente das sensações e impressões que
esse momento vivido causa. Pois, essas impressões
não vêm do fato, mas da estimativa que fazemos
dele. E, por isso, possuímos o poder de revogar
essa estimativa. Porém, não a sua lembrança, que
poderá vagar pelo inconsciente. Como no adágio
popular "recordar é viver".
37- Essa enumeração é a volta
no tempo.
38- Pronto e ausente, pois é
um homem "iniciado" no viver (pronto), porém ausente
(ele foi todos os riobaldos e agora não é nenhum
deles, é um outro Riobaldo, que interiorizou a
vivência dos anteriores. Contudo, ele continua
sendo o Riobaldo que questiona. Portanto, ainda
é o livre-pensador de antes, que atravessou todos
os riobaldos e trouxe essa característica na sua
personalidade). Ele é um, que são todos, não sendo
nenhum deles.
39- Solidão, para entendermos
as coisas divinas, "solidão" como um processo
mental de cada pessoa, como Riobaldo, que está
no grupo mas possui seu modo próprio de pensar
(conforme nos explicam as Epístolas de São Paulo,
no Novo Testamento).
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________. (1983) Grande sertão: veredas.
São Paulo: Abril Cultural.
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Este ensaio é parte do livro Duas visões: Guimarães
Rosa e Clarice Lispector (Editora Ágora da Ilha,
2000), em co-autoria com Ercília Bittencourt.
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