Além
da Cruz e a Espada
algumas
palavras acerca das relações entre
paganismo e igreja na literatura de cavalaria
"Que todos sejam livres para servirem
ao deus que quiserem."
Merlim
Róger
Monteiro
Prelúdio
O
crepúsculo é a hora da imaterialidade.
É
ao cair do sol que as sombras se tornam traços
alongados sobre o chão. É ao levantar
da lua que as formas se difundem, se confundem,
em um jogo de cores e matizes, em uma dança
meio que desordenada de ícones e símbolos.
O crepúsculo é o momento do diáfano,
do irreal, do etéreo, do não palpável.
É a morte do dia, o nascimento da noite,
mas já não é mais dia,
e ainda não é noite. Enfim, o
crepúsculo é o reino do vir a
ser, um castelo construído com as pedras
da virutalidade.
A
Idade Média é uma zona de crepúsculo.
Um tempo em que as fronteiras, tanto geográficas
como psicológicas, ainda estão
longe de estarem definidas. São séculos
que tem a palavra incerteza encrustada nos portais
de suas cidades muradas, escrita com letras
de fogo por sobre os portais das igrejas e no
coração de seus habitantes. E
levar essa palavra - incerteza - em consideraçõ
é uma condição básica
para que ousemos nos aproximar da dita Idade
das Trevas.
Uma
vez que passamos a considerar aqueles séculos
como um grande trabalho de colagem, como uma
obra de Klimt, nos aproximamos do espírito
que pairava por entre aquelas sólidas
torres. A Idade Média é um grande
amálgama, onde as mais variadas culturas,
sobrepostas, costuradas - muitas vezes de maneita
não lá muito firme - acabam por
formar um todo. Um todo, sim, porém nunca
homogêneo.
Esse
caráter fragmentário tornar-se-ia
explícito em quase todas as instâncias
do cotidiano medieval. O próprio país
não passava de uma justaposição
de feudos, células independentes que,
por motivos circunstanciais formavam uma unidade
maior. A guerra também era uma atividade
fragmentária, com a Cavalaria valorizando
a unidade, a individualidade, um pensamento
completamente contrário ao de Roma com
suas Legiões, grandes exércitos
atacando o inimigo em blocos maciços.
Entretanto, talvez seja no campo das artes que
essa cultura do fragmento tenha sua expressão
mais marcada.
O
legado artístico deixado pela Idade Média
aos séculos futuros é inestimável.
Encontramos reflexos do Trovadorismo até
hoje, como no caso dos repentistas e cantadores
de cordel do nordeste brasileiro. Porém,
praticamente toda a manifestação
estética surgida naquele período
reflete a estrutura fragmentária da sociedade
em que foi concebida.
Uma
dessas manifestações, talvez a
mais recorrente delas, corrobora essa idéia
de maneira bastante sólida. O mosaico,
técnica de representação
de cunho pictórico, nada mais é
do que a união de minúsculas partes,
a harmonização de pequenos pedaços,
de maneira a dar a impressão de todo.
E, de uma certa forma, ouso dizer que toda a
arte medieval é, na verdade, um grande
mosaico, uma vez que essa fragmentação
se alstrou por todas as outras formas de manifestação
artística, incluindo aqui a literatura.
Se
tomarmos como objeto de análise a vasta
obra dos trovadores, perceberemos que tanto
em seu primitivismo formal quanto em sua simplicidade
temática, ela não passa da colagem
de vários fragmentos, versos que são
dispostos em volta de um refrão, quase
sempre em duplas, onde esses versos aparecem
duas vezes, de maneira a fechar um pequeno círculo
hermético, que não dá margens
para escapadas interpretativas muito grandes.
Já
na prosa medieval, campo que interessa mais
de perto a este texto, o caráter fragmentário
apresentar-se-á de modo um pouco diferente.
Ainda há, é claro, a cultura do
fragmento no âmbito formal, como na Chanson
de Roland, em que o foco da narrativa vai se
alternando entre os Doze Pares de França,
formando uma grande teia de episódios
e aventuras que podem - ou não - serem
lidas em sequência, uma vez que alguns
desses capítulos constituem histórias
fechadas, com começo, meio e fim.
Entretanto,
o fragmento está presente nessas narrativas
também no campo temático. Todo
aquele clima de incerteza, de imaterialidade,
de indefinição irá contaminar,
por assim dizer, a prosa da Idade Média
com esse paroxismo, resultante das várias
culturas em convivência, muitas vezes
não lá muito pacífica.
As imposições culturais são
naturais em sociedades formadas por povos diversos,
e as lutas resultantes dessas tentativas de
supremacia são inevitáveis.
E
encontraremos nos textos em prosa, principalmente
nas novelas de cavalaria, reflexos claríssimos
desse embate entre culturas, uma vez que elementos
essencialmente pagãos, provenientes das
culturas celta e germânica, que foram
passando de geração em geração;
e de árabes e turcos, em virtude da invasão
e permanência desses povos infiéis
em território europeu durante várias
décadas, aparecem nesses textos andando
lado a lado com os sacramentos da Igreja Romana,
com os santos do catolicismo, com a figura do
próprio Cristo.
Essa
covivência esteticamente muito frutífera
é incontestável. O objeto de análise
dessas linhas não é a existência
ou não desses elementos pagãos
diluídos entre os reinos da cristandade,
mas sim o relacionamento dessas imagens com
a toda poderosa Roma. Na verdade, é a
busca de uma explicação, ou pelo
menos de algo próximo a isso, para que
certos elementos tenham sido tolerados, e até
mesmo incorporados ao imaginário cristão
pela classe clerical, enquanto outros foram
decretados como heresia, condenados à
fogueira e à virtualidade do esquecimento.
Para
essa temerária análise, começarei
com a leitura de dois dos romances mais importantes
da chamada Matéria da Bretanha, ciclo
narrativo que enfoca o Rei Arthur e os Cavaleiros
da Távola Redonda. Um deles, a Demanda
do Santo Graal, que narra as aventuras desses
cavaleiros em busca do cálice onde teria
sido recolhido o sangue de Jesus Cristo após
a crucificação. O outro, incorporado
à Matéria da Bretanha mais tarde,
Tristão e Isolda, a história dos
amores adulteros entre o cavaleiro Tristão
de Lionês e Isolda, a Loira, rainha da
Cornualha, esposa de Marcus, tio e soberano
do cavaleiro. Não necessáriamente
nessa ordem. Mas nada impede que outros textos
façam suas aparições esporádicas
Sendo
assim, pedindo aos deuses e demônios para
que nada escrito aqui seja considerado herético
pelo Tribunal da Inquisição, lancemo-nos,
pois, ao instigante exercício da especulação
literária.
Cavaleiros de Armaduras Brilhantes
Se
por um lado é certo que a Idade Média
produziu, no campo da Literatura, muito mais
versos do que narrativas, também é
certo que, por quaisquer que sejam os motivos,
são esses textos em prosa que nos apresentam
um panorama um pouco mais fiel da sociedade
medieval. É claro que há muito
de fantasia desabrida ao longo daqueles textos,
de elementos fantásticos e ficção,
à qual, muitas vezes, se tenta atribuir
valor de verdade. Entretanto, mesmo impregnados
por esse caráter maravilhoso, são
esses textos que nos permitem reconstituir,
de algum modo, o contexto em que foram escritos,
uma vez que a poesia dos Trovadores muito pouco,
ou quase nada, nos oferece a respeito do cotidiano
medieval, quer por sua limitação
temática, quer por seu primitivismo linguístico.
Sendo
este um texto que se propõe a estudar
as relações entre a Igreja e os
últimos resquícios das antigas
religiões pagãs da Europa, nada
mais natural do que tomar como objeto de análise
o gênero de prosa mais popular e mais
recorrente na Idade Média, a novela de
cavalaria.
As
novelas de cavalria são descendentes
diretas das chamadas canções de
gesta, que tiveram sua gênese entre os
germanos, mas logo se espalharam pelos principais
pontos do Velho Continente, na época,
o único. Tratam-se de longas narrativas
em prosa, geralmente enaltecendo os feitos e
as virtudes de uma personagem principal, um
guerreiro que se destaque entre os seus, quer
por habilidade com as armas, quer por força
física. Em sua essência, são
muito semelhantes aos antigos poemas épicos
da Antiguidade Clássica, diferindo, entretanto,
pelo seu caráter individualista em contraponto
ao coletivo das epopéias gregas e romanas.
Enquanto os clássicos encaravam o herói
como um ícone da comunidade em que estava
inserido, como um representante de todos os
ideais e crenças dessa coletividade,
os autores dessas canções de gesta
já permitiam aos seus heróis alguma
fraqueza, ou, pelo menos, discordância
em algum ponto com a sociedade que o cercava,
numa antecipação, guardadadas
as devidas proporções, do que
seria o futuro arquétipo do herói
romântico, uma personagem que busca valores
autênticos em uma sociedade degradada.
Entretanto, a despeito dessas suaves diferenças,
o cunho das narrativas são práticamente
os mesmos, combates, aventuras fantásticas,
monstros e criaturas sobrenaturais.
Com
o advento da Lírica Occitânica,
ou Lírica Provençal - assim chamada
por haver surgido na Provença, região
ao sul da França, na época independente
- essas canções de gesta, predominantes
nas terras do norte, começaram, aos poucos
a sofrer modificações sensíveis.
Os ideais do movimento chamado Amor Cortês,
paulatinamente foram sendo incorporados pela
matéria das canções de
gesta. Dessa forma, já não tínhamos
mais somente as cenas de batalhas, mas as narrativas
começaram a dedicar grande parte de suas
linhas à vida palaciana, às intrigas
da côrte e aos amores, lícitos
ou ilícitos, que floresciam por trás
da cortina de repressão sexual e castidade
sacral. Tudo isso resultou em uma nova forma
de encarar a literatura, uma vez que esses novos
elementos requeriam uma sutileza muito maior
do que a pura e simples carnificina. Assim,
as novas narrativas, as novelas ou romances
de cavalaria, tornaram-se textos estilística
e tematicamente mais ricos, mais ao gosto das
côrtes que começavam um processo
de refinamento, relfetido na apreciação
dessas manifestações artísticas,
agora não mais somente em louvor à
Igreja e a Cristo.
As civilizações tendem a escolher
seus heróis. E o nome desses heróis,
mesmo que ficcionais, fica de tal modo enraizado
na história dessas civilizações
ao ponto de, a partir de determinado momento,
começarem a ser tratados como figuras
históricas reais. A Grécia tem
seu inesquecível Odisseu, aquele que
após a guerra de Tróia enfrentou
a morte mil vezes para retornar ao seu lar;
Roma tem Enéias, sobrevivente de Tróia
que fundou, sob a proteção dos
deuses aquele que viria a ser um dos maiores
impérios do Ocidente. A Idade Média
não é diferente.
Muitos
foram os heróis nascidos sob o signo
da civilização medieval e muitos
os seus feitos grandiosos. Porém, a palavra
grandiosidade não se aplica de maneira
tão plena a nenhum deles como se aplica
a Arthur e seus cavaleiros.
Tem-se
notícia de um Arthur histórico.
Ele teria sido o líder de uma das inúmeras
tribos celtas, que defenderam o território
inglês contra as invasões dos saxões.
Entretanto foi o imaginário popular,
por motivos não facilmente explicáveis
e que não vêm ao caso agora, que
o transformou em grande Rei da Inglaterra, aquele
que teria unificado todas as tribos que compunham
o mosaico inglês em um grande exército
que marchou contra os invasores. E o folclore
- derivado de folk, da palavra inglesa para
povo - vai além, quando lhe atribui uma
origem cercada por mistério e feitiçaria,
uma espada dotada de poderes mágicos
e até mesmo uma morte não definitiva(1) .
Consequentemente,
a maior parte dos romances de cavalaria adota
como seu tema principal a Matéria da
Bretanha, que é o conjunto dessas aventuras
vividas pela côrte de Arthur e que já
circulava entre o povo na forma de literatura
oral. Essas narrativas constituem o ciclo conhecido
como Lancelote-Graal, que relata as aventuras
de Lancelote, o mais famoso cavaleiro do mundo,
ligando-as às do Rei Arthur e demais
cavaleiros da Távola Redonda e à
Demanda do Santo Graal. Escrito na primeira
metade do século XII, esse ciclo organiza
uma vasta matéria narrativa, matéria
essa que evoluiu muito rápido e que,
no próprio século XII já
constituám o cânone da cavalaria,
então em plena ascenção.
A reelaboração ficcional de histórias
tão remotas no tempo serviu, dessa forma,
a leituras da realidade social e cultural contemporânea.
Aos
pocuos, outros personagens que, originalmente
não estavam ligados a Arthur e seus cavaleiros
foram sendo incorporados à sua côrte,
como Tristão de Lionês, Isolda
da Irlanda e Marcus da Cornualha. A lenda de
Tristão é de origem celtica, mas
sua gênese é incerta e nebulosa,
como, aliás, a da maioria dos textos
medievais. Entretanto, existem elementos que
atestam a ligação entre o texto
e os antigos cultos ao Sol daquelas tribos,
bem como determinados traços filológicos
relativos aos nomes das personagens e a fragmentos
de manuscritos mais antigos.
Dessa
forma, mais por influências externas,
uma vez que os escritores dessa época
geralmente concebiam seus textos sob encomenda
da nobreza, o destino de vários heróis
independentes em suas raízes acabou sendo
ligado ao de Arthur, ligação que,
com o passar do tempo acabou por tornar-se de
tal maneira solidificada pela abrangência
dos textos que adiquiriu um certo caráter
natural.
Mas
o que realmente importa para o decorrer desta
breve análise é a origem celta,
e, portanto, pagã desses dois grupos
de personagens. Uma vez concebidas por uma cultura
completamente diferente da cristã, vigente
na Europa durante o período em que foram
prosificadas, é natural que essas narrativas
apresentem traços bem marcados das crenças,
costumes e ideais daquelas sociedades. E, no
caso das tribos celtas, estes traços
são mais acentuados pelo fato de se tratarem
de sociedades matriarcais em que era adotada
uma religião de cunho também matriarcal.
Outro ponto importante a respeito dessa religião
é o fato do sexo ser encarado pelos celtas
como uma celebração à vida,
uma forma de homenagem à Deusa, à
Grande Mãe, ou seja, uma concepção
completamente oposta à da Igreja Católica.
Assim, seria inevitável que estas histórias
trouxessem consigo toda essa carga ideológica
diametralmente opostas a qualquer dos preceitos
cristãos. Criou-se então um problema
crucial: o que fazer com esse paganismo? Deixá-lo
livre, detentor da virtualidade da corrupção
da alma do povo, uma vez que essas idéias
pagãs eram muito mais atraentes do que
o eterno mea culpa do cristianismo? Ou destrui-lo
por completo, como seria feito com as chamadas
heresias, talvez a maior e mais famosa, a Heresia
Albigense?
Primeiramente,
vejamos mais de perto que elementos pagãos
específicos eram esses e que importância
eles apresentam, dentro de suas respectivas
obras, para o todo das narrativas. Para ilustrar
esses elementos, escolhi duas obras que considero
fundamentais em se tratando da literatura cavaleiresca:
Tristão e Isolda e a Demanda do Santo
Graal.
Entre Dragões, Bruxas e Poções
Como
já foi dito aqui, quase toda a prosa
medieval, mas em especial as novelas de cavalaria
encerram em si uma série de elementos
fantásticos provenientes de suas raízes
celtas, e, portanto, não-cristãs.
Esses elementos da cultura pagã muitas
vezes aparecem como simples acessórios,
ficando à margem da estrutura narrativa.
Entretanto, em outros momentos esses traços
constituem a coluna vertebral do texto. As obras
aqui selecionadas para análise, A Demanda
do Santo Graal e Tristão e Isolda são
exemplos de um e outro caso, respectivamente.
Tristão
e Isolda insere-se dentro do grupo de narrativas
que centra seu eixo nos elementos remanescentes
da antiga religião celta. Praticamente
ao longo de todo o texto o sobrenatural estará
presente, e sempre desempenhando um papel muito
ativo no rumo dos acontecimentos, desde o início
até o final.
Tristão
vem a conhecer Isolda indeiretamente através
de um dragão. O dragão talvez
seja um dos personagens pagãos mais recorrentes
não só nas crônicas de cavalaria
como também na prosa dita científica
da época. Com muita frequência,
ao abrirmos as páginas de algum bestiário
medieval, gênero muito produtivo onde
eram listados todas as espécies de animais
conhecidas, encontramos um dragão ao
lado de cães, gatos, galinhas e outros
animais domésticos. Isso leva a crer
que a Idade Média realmente acreditava
na existência dos dragões, o que
inviabilizaria sua classificação
como imagem pagã. Entretanto esse pseudo
cientificismo não pode ser encarado ao
pé da letra, pois vários outras
formas literárias da época, por
assim dizer, não hesitavam em misturar
ficção à realidade, como
no caso dos Livros de Linhagens, por exemplo,
onde inúmeras famílias alegavam
descendência de personagens importantes,
desde o Rei Arthur até casos absurdos
como o da Melusina. Por ora prefiro continuar
tratando os dragões como figuras do imaginário
pagão. Afinal o que seria da cavalria
sem o dragão?
Ao
lado do dragão, quase que imediatamente
teremos a aparição de outro elemento
sobrenatural. Ao transportar a bela Isolda da
Irlanda para a Cornualha, onde a princesa deveria
casar-se com Marcus, tio de Tristão,
os dois jovens são levados a beber de
uma poção preparada pela mãe
de Isolda. Trata-se de um elixir mágico,
uma poção de amor, uma forma que
a rainha-bruxa encontrara para que sua filha
não corresse o risco de infelicidade
no matrimônio. Essa poção
será a responsável pela detonação
de todo o drama dos amantes, uma vez que seu
amor, ainda que efeito de uma droga, não
encontra chances para ser realizado. O fato
é que esses filtros de amor são
imagens recorrentes em outros textos de cavalaria,
como em um episódio da Canção
de Rolando, por exemplo, onde uma donzela lancará
mão de magia para obter o amor de Ogier,
um dos doze paladinos. Porém em nenhuma
outra obra eles desempenham um papel tão
fundamental quanto na história do cavaleiro
de Lionês.
Temos
em Tristão e Isolda, portanto o paganismo
como mola mestra da ação. São
os elementos não cristãos que
determinam o curso dos acontecimentos. Este
caráter extremamente pagão da
narrativa pode ser significativo, uma vez que
este texto sai da oralidade somente no século
XII, período em que a Igreja Católica
já exercia um poder mais do que considerável
sobre quase toda a Europa.
A
Demanda do Santo Graal é uma coletânea
de escritos do século XII, justapostos
sobre um único pano de fundo, a busca
dos cavaleiros da Távola Redonda pelo
cálice sagrado. Tematicamente, poderíamos
dizer que a obra é de cunho cristão,
pois, além de tratar de fé, ela
se vale de um dos dogmas mais básicos
da Igreja Romana, a crucificação
e ressureição de Jesus Cristo.
Entretanto, circulando em volta desse eixo central
várias episódios completos em
si mesmos vão se desenrolando, e é
nesses episódios paralelos que iremos
encontrar o choque entre as duas culturas. Em
A Demanda do Santo Graal convivem lado a lado,
e pacificamente, o catolicismo e o paganismo,
o Deus dos padres e a Deusa das sacerdotisas
celtas, o crucifixo e os amuletos de fertilidade,
o vinho consagrado e as beberagens mágicas.
O paradoxo cultural aqui, não se dá
somente entre a obra e o contexto social em
que está inserida, mas também
dentro do próprio texto, embora, dentro
da narrativa ela não possua qualquer
caráter paradoxal, uma vez que parece
completamente natural a presença dos
dois mundos.
Nessa
demanda paralela, não raras vezes nos
deparamos com feiticeiros e bruxas, com castelos
que aparecem e desaparecem, com anéis
mágicos.
Um
desses elementos maravilhosos é o Cervo
Branco, um animal fantástico que aparece
perante Galahad, filho de Lancelote do Lago.
Se estudarmos um pouco, ainda que superficialmente,
a religião celta, saberemos que o cervo
era um animal sagrado, assim como era sagrado
o carvalho, árvore que compõe
a floresta onde este cervo se oculta. O narrador
da demanda tenta aproximar esse animal de Deus,
usando como argumento a sua cor, branco, a cor
da pureza, do manto de Cristo. Porém
a analogia não se sutenta e podemos afirmar
com certeza que esse cervo nada mais é
do que o ícone sagrado celta.
Entretanto
um desses elementos parece receber um tratamento
especial por parte do narrador, a Besta Ladradora.
Ela é descrita como um animal horrível,
possuidor de várias cabeças que
cospem fogo. Chama-se ladradora porque essas
cabeças latem sem parar, causando um
barulho ensurdecedor. Segundo a lenda teria
sido o fruto de um incesto, crime passível
de morte na Idade Média. Ela é
eternamente perseguida por um cavaleiro mouro,
Palamedes
Interessante
aqui é o fato do pagnismo não
estar representado apenas por estes traços
diluídos, escondidos entre os parágrafos
da narrativa, mas sim de forma explícita.
Não é somente a besta que empunha
as armas pagãs, mas um cavaleiro as traz
em seu escudo. E note-se que não é
qualquer cavaleiro, um biltre, um parvo. Inacreditavelmente,
até, talvez a Demanda do Santo Graal
seja o primeiro dos textos medievais a conceder
um lugar de destaque para um dos mais antigos
inimigos da cristandade, o cavaleiro mouro,
tão acirradamente combatido por Carlos
Magno.
Os
raios de paganismo que rompem o céu nublado
cristão são muitos, na verdade
incontáveis. Entretando, creio que estes
poucos elementos apontados anteriormente, sejam
suficientes para formar um panorama geral das
formas de tratamento que a Igreja Romana dispensava
a essas pequenas heresias em potencial.
O
Longo Braço da Igreja
A
Igreja Católica talvez seja, se não
a mais, uma das mais organizadas instituições
do mundo. Graças a essa organização
ela vem se mantendo viva e atuante desde os
primórdios até hoje. É
certo que ela não goza mais do poder
político do qual gozou durante séculos.
Pode ser que o Inferno já não
seja um lugar tão apavorante para os
habitantes do século XX como era para
os do XV. Entretanto a nave de Pedro ainda pode
ser considerada como uma organização
respeitada.
Sem
dúvida, um dos dispositivos que ajudou
a Igreja Católica a manter-se viva durante
tanto tempo foi a Inquisição.
Um mecanismo muito simples, utilizado e aprovado
por todo o tipo de governante autoritário:
elimine os focos de revolta e está aliminada
a revolução. Assim, com a tortura
e a morte dos ditos heréticos os pilares
do catolicismo foram resguardados, a custa de
muito sangue, é verdade, mas antes o
sangue dos heréticos do que o de Cristo.
Detentora
exclusiva de quase toda a cultura durante a
Idade Média, Roma pôde manipular
os textos ao qual o mundo teria acesso. Dessa
forma ela pode deixar que chegasse até
o público leitor aquelas palavras que
enalteciam a Cristo e à Virgem, bem como
quaimar e destruir todas as linhas consideradas
heréticas ou blasfemas. Sendo assim,
surge uma pergunta: Como a Igreja permitiu a
permanência desses elementos pagãos,
e, na época, pagão era igual a
herege, dentro dos textos de cavalaria?
Seria
ingenuidade extremada da nossa parte acrditarmos
que essas imagens pagãs tenhas escapado
aos olhos atentos e zelosos dos frades, que
tinham tempo de sobra para aplicar suas censuras
à arte, uma vez que viviam às
custas das doações e da venda
de indulgências. Não. Definitivamente
o poder da Grande Mãe não era
tão grande para fazer com que seu culto
fosse propagado por entre os seguidores do Cristo
sem que os paladinos da Igreja ficassem sabendo.
Isso nos leva a crer que, se o paganismo floresceu
nas narrativas do século XII, juntamente
com o culto à Virgem, ao Pai, ao Filho
e ao Espírito Santo, foi única
e exclusivamente por permissão de Roma.
Mas
que interesse a Igreja poderia ter na disseminação
dessas crendices celtas entre seus fiéis?
O que levaria o clero a correr o risco de uma
onda de esoterismo indiscriminado, como a que
presenciamos hoje, às portas do século
XXI, influenciada pela presença pagã
na literatura. É fato que o público
leitor dessas obras era reduzidíssimo,
e o povo, a plebe, nunca teriam contato com
um livro, primeiro por que não sabiam
ler; segundo, porque o preço do livro
era algo absurdo, uma vez que os volumes levavam
anos, às vezes para serem copiados. Porém,
as narrativas eram orais, contadas em feiras
e praças públicas. Talvez a Igreja
não tivesse o poder necessário
para editar a literatura oral, mas é
difícil de acreditar que ela permitisse
que esses ideais ficassem gravados em pergaminho.
Verba volat, scripta manent, diziam os romanos.
O dito voa, o escrito permanece(2).
Uma
hipótese provável e possível
é que o clero tenha usado a permanência
desses elementos para uma função
didática. Analisando as principais figuras
pagãs presentes nesses textos, poderemos
facilmente notar que elas sempre estão
relacionadas, direta ou indiretamente, a eventos
desastrosos ou consequências horríveis.
O episódio da Besta Ladradora nos oferece
dois vestígios, um evidente, outro oculto,
para que aceitemos essa idéia do didatismo.
Sendo
fruto de um incesto, a Besta Ladradora nada
mais é do que um elemento didático.
É como se o clero apontasse seu dedo
acusador e mostrasse que o pecado leva ao monstruoso.
Entretanto, existe mais um fator didático
relacionado a este episódio, não
ao monstro em si, mas ao cavaleiro que a persegue,
Palamedes.
Palamedes,
aqui, representa todo o povo mouro, o povo infiel.
E é ele que persegue a besta, ícone
do incesto. É como se a Igreja dissesse
que o infiel persegue o pecado assim como Palamedes
persegue o monstro, num exercício de
lógica um tanto quanto distorcida, porém
interessante à Roma.
Já
em Tristão e Isolda encontraremos uma
marca de punição ao paganismo,
não diria que mais forte do que na demanda,
uma vez que a própria história
dos amantes está também contida
no texto português, mas diria mais intensa,
já que o leitor acompanha todo o drama
da separação e morte bem mais
de perto, com um caráter mais visceral
que em nenhum momento aparece em A Demanda do
Santo Graal.
Aqui
a desgraça ocasionada pelo paganismo
é completa e absoluta, levando a uma
vida de desgostos e sofrimento, e, muito provavelmente
à uma pós-morte atormentada no
fogo do Inferno, como prevê Lancelote
em seu sonho. Sonho este do qual também
participa a rainha Guenevere e ele próprio,
Lancelote, com quem a rainha mantinha relações
ilícitas.
Novamente
nos deparamos com uma advertência quanto
ao incesto, uma vez que Tristão mantém
amores adúlteros com a mulher de seu
tio, que lhe abrigou como um pai. E mais, com
a rainha, que na mentalidade medieval era considerada
como mãe de seus súditos. Tristão
seria, por assim dizer, um duplo incestuso,
condenado às respectivas penas por um
narrador simpático à sua causa,
quando falamos do romance original; e por um
narrador completamente impiedoso quando consideramos
a história contida em a Demanda do Santo
Graal.
Sendo
assim, creio que fica claro o caráter
didático - eufemisticamente falando,
uma vez que a palavra mais apropriada seria
ameaçador - desses elementos pagãos
tolerados, por assim dizer, pela classe clerical.
É
claro que isto é apenas uma hipótese,
porém, ao mesmo tempo, é a única
explicação plausível, o
único critério concebível
para que Roma convivesse de forma tão
pacata com esses dragões, monstros cuspidores
de fogo e poções de amor em uma
época em que jogavam-se pessoas ao rio
para certificar-se de que não eram bruxas(3).
Pseudo-Conclusão
Pseudo-conclusão,
sim. É no mínimo leviano falarmos
em alguma conclusão quando estamos no
terreno da Idade Média. Cada vez mais
me convenço que quanto mais fundo mergulhamos
nesse poço sem luz, a dita Idade das
Trevas, mais questões surgem e menos
respostas são obtidas.Mas acho que o
texto cumpriu sua proposta inicial, ou seja,
tentar jogar alguma luz sobre esse misterioso
critério de seleção entre
os pagãos.
Sei
que, até certo ponto, foi uma análise
superficial, mas talvez as relações
entre Igreja e Literatura o sejam por natureza.
Platão baniu os poetas de sua república
assim como Deus baniu a Lúcifer. E não
foi porque os poetas trazem consigo a alienação,
como pretendeu o grego, mas sim porque eles
trazem a luz, como a Estrela da Manhã(4).
Foi o anjo caído que ofertou ao homem
a possibilidade do erro, da escolha. Dessa forma,
a luz que Lúcifer porta não é
a que ilumina o caminho, mas sim a que ilumina
a razão. Uma vez que luta contra Lúcifer,
a Igreja luta contra a razão, contra
o esclarecimento. A Idade Média teria
sido uma época de treva caso Roma pudesse
ter reinado sozinha. Talvez até hoje
estivéssemos atirando pessoas ao fogo.
Mas os poetas estavam lá, para resistir
bravamente empunhado suas penas contra os crucifixos
afiados... Mas isto já é ideologia.
Notas
1
- Existe a lenda de que, após ser ferido
pela lança de Mordred, Arthur teria sido
recolhido pelas fadas da Ilha de Avalon e levado
em uma barca para aquela terra magica cercada
de brumas. Ele retornaria quando a Inglaterra
corresse um grande perigo e tivesse necessidade
de seu maior herói.
2
- Ainda que a própria transmissão
oral de tantos textos antiquíssimos nos
mostre o contrário.
3
- Segundo o Maleus Maleficarum, o manual dos
inquisidores, atirava-se a pessoa ao rio, amarrada
a uma grande pedra. Caso ela se salvasse, era
burxa e deveria ser queimada; caso morresse,
ficava provada sua inocência e ela teria
direito a um enterro cristão.
4
- Um dos epítetos de Lúcifer.
Bibliografia
1. ANONIMO. A Morte de Arthur. Martins Fontes,
SP, 1992.
2. JUNQUEIRA, Rita Soares. O Triste Destino
de Tristão na Versão
Portuguesa
D'A
Demanda do Santo Graal. in: Revista de Letras,
UNESP, SP, v.35,
1995, p.103.