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PALAVRAS
SECAS E ÚMIDAS EM CLARICE LISPECTOR
Ercília
Bittencourt
Resumo
Qual
a relação entre uma cantiga e um romance, a poesia
portuguesa e a ficção brasileira, a Idade Média
e o século XX? Em A paixão segundo G.H.,
de Clarice Lispector, destaca-se a repetição das
frases finais dos capítulos que retornam como
frases iniciais dos capítulos seguintes (leixa-pren).
Criando um movimento de imersão/emersão nos capítulos,
a narrativa ganha uma força simbólica que permite
a visualização deste "dizer não dizendo". As palavras
e a ficção são renovadas com o objetivo de uma
melhor compreensão dos sentimentos e sensações,
que são absorvidos do mundo das idéias para o
mundo da sensibilidade. Esse procedimento leva
a uma transformação extrema do significado dessas
palavras e frases e cria um novo mundo antes não
percebido, que dá ao leitor o desejo de desvelar
esse novo enigma.
Abstract
What
is the relation between a ballad and a novel,
Portuguese poetry and Brazilian fiction, Middle-Ages
and the 20th century? In Clarice Lispector's A
paixão segundo G.H., it stands out the repetition
of the final sentences of the chapters which return
as the beginning sentences of the following chapters
(leixa-pren). By creating a movement of
immersion/emersion in the chapters, the narrative
gains a symbolic strength that allows the visualization
of this "saying not saying". The words and the
fiction are renewed with the aim of a better comprehension
of feelings and sensations, that are absorbed
from the world of ideas to the world of sensibility.
This procedure leads to an extreme transformation
of the meaning of these words and sentences and
it creates a new unperceived world, which gives
the reader the will of unveiling this new enigma.
Ercília Bittencourt é doutoranda em Teoria
Literária pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro, professora de língua portuguesa, literatura
brasileira e literatura comparada e co-autora
do livro Duas visões: Guimarães Rosa & Clarice
Lispector (Ágora da Ilha, 2000). novosautores@terra.com.br
A
cantiga do Rei-Trovador
- Ai flores, ai flores do verde
pino,
Se sabedes novas do meu amigo?
ai Deus, e u é?
- Ai flores, ai flores do verde
ramo,
Se sabedes novas do meu amado?
ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo?
ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi á jurado?
ai Deus, e u é?
- Vós preguntades polo voss'amigo?
E eu ben vos digo que é san' e vivo
Ai Deus, e u é?
- Vós me preguntades polo voss'amado?
E eu ben vos digo que é viv' e sano
Ai Deus, e u é?
E eu ben vos digo que é san' e vivo,
e será vosc'ant'o prazo saído
Ai Deus, e u é?
E eu ben vos digo qu' é viv' e sano,
e será vosc ant' o prazo passado
Ai Deus, e u é?
(D.
Dinis)(1)
Por
que uma cantiga medieval portuguesa para iniciar
essa tentativa de compreensão de A paixão segundo
G.H., de Clarice Lispector? Qual a relação
entre uma cantiga de amigo e um romance contemporâneo?
Entre a poesia portuguesa e a prosa brasileira?
Entre a Idade Média e o século XX?
Analisando
a estrutura de ambos, o poema e o romance, vimos
pontos de contato e achamos interessante tecer
algumas idéias e considerações a respeito do tema.
A
cantiga de amigo citada é das mais conhecidas
de D. Dinis, apresentando como características
o paralelismo das estrofes, a alternância vocálica
(a - i) e o refrão. O poeta canta na voz de uma
mulher e pergunta pelo seu amigo/amado. Escrita
por um homem, exprime um sentimento feminino:
o sentimento de abandono pela ausência do namorado
perjuro induz a camponesa ao diálogo com as flores
do pinheiro que, sensibilizadas, personificam-se
e lhe respondem que logo ele virá.
O
sentimento é um só e se afirma pela repetição:
repetem-se as idéias nas oito cobras (estrofes)
compostas de um dístico com pequenas variações
sinonímicas e um refrão que confirma a existência
de um coro.
Evidencia-se
a utilização do leixa-pren (deixa-prende),
que sugere um "primitivo processo de composição
improvisada, que obriga um dos improvisadores
a repetir o último verso do outro, para o qual
devia achar seqüência."(2)
Esse processo ainda persiste no desafio do cordel
nordestino brasileiro, de reconhecida influência
medieval.
A
comunhão entre a jovem e a natureza revela o primitivismo
mágico desse mundo medieval, possível de associar-se
a estados de consciência arcaicos em que os limites
entre as pessoas e os outros seres (no caso, as
flores do pinheiro) simplesmente inexistem.
Essa
coita (sofrimento amoroso) feminina se
expande em muitos estados de alma da donzela enamorada:
mágoa, ciúme, dúvida, saudade, tristeza, desconfiança,
exigência, compondo diferentes tipos psicológicos,
o que leva o estudioso de tais cantigas a constatar
(como o fazem Saraiva e Lopes): "a simpatia
com que alguns poetas sabem colocar-se dentro
do ponto de vista da mulher e dos interesses femininos."(3)
Ou como diz Cleonice Berardinelli:
Não
podemos deixar de admirar os seus autores
[das cantigas de amigo] pela acuidade
com que penetram o coração da mulher e
revelam-lhe virtudes e defeitos, ansiedades
e desdéns, receios e esperanças. Dessa
compreensão da alma feminina resulta a
veracidade e sinceridade das cantigas,
nas quais ouvimos, realmente, a voz das
raparigas de então.(4)
É
preciso lembrar, no entanto, que "a voz das raparigas
de então" capaz de expressar-se nas cantigas de
amigo não lhes pertence, analfabetas que eram,
mesmo fidalgas, e sim, ao homem que assume ambos
os papéis, o masculino e o feminino.
O
trovador da cantiga de amigo expressa literariamente
uma dualidade amorosa: a da mulher que ama e a
do homem amado (ele próprio). Essa ambivalência
é reveladora, não somente como psicologia literária,
mas também no âmbito das relações humanas, ilustrando
nos tempos medievais a Literatura e a Vida.
É
preciso, também, lembrar que, além de D. Dinis,
os outros autores desses textos medievais são
homens doutos, políticos, nobres, clérigos. Eles
os escreviam sob forma de papiros e através deles
expressavam suas idéias sobre Arte. Não havia
como controlar esses impulsos. Eles os significavam
de forma erudita e não tinham controle sobre eles.
Alguns desses textos chegaram até nós, mas muitos
se perderam. Havia necessidade de escrevê-los.
Era a literatura da época. Sem mais delongas,
não tinham como expressar suas mensagens, a não
ser desse jeito. E todos gostavam de fazê-lo.
Naquela
época, havia muitas outras coisas em jogo. O bem-estar
do povo, o progresso da sociedade, a conquista
de outros povos, tudo isso eram preocupações presentes
e renovadas. Não se sabia ao certo como escrever
tais textos, mas os trovadores tentavam. E muitas
vezes dava certo. Pois ao lerem tais peças, todos
gostavam. E aplaudiam essas obras que, na verdade,
não eram suas: pertenciam ao patrimônio da humanidade,
ao acervo comum de todos. Não importa; todos ficavam
felizes com essas obras: eles e o público.
Segundo
Arnold Hauser, esses cantores
davam
às homenagens que prestavam às damas a
forma de canções de amor expressas em
termos corteses mas não inteiramente "fictícios";
foram os primeiros a conceder um lugar
ao serviço de sua dama, a par do serviço
do senhor; foram eles que interpretaram
a lealdade feudal como amor e o amor como
lealdade feudal(5)
Na verdade, essas canções predominavam de forma
tal que se tornaram bastante populares. O acompanhamento
musical facilitava e muito. Os versos eram secundários.
Primeiro se fazia a música, depois a letra. Seus
instrumentos eram toscos, mas bastante sonoros.
E
assim percorriam vários castelos, mas também as
reuniões populares, feiras, festas. E as distâncias
se tornavam pequenas diante da necessidade de
propagar tais canções. Elas então se tornavam
populares e os trovadores prosseguiam sempre em
busca de lugares onde cantá-las. Era um ciclo
inesgotável de música e torneios de amor.
Não
se está fazendo apologia das cantigas, mas que
outra forma de literatura estava tão próxima da
Beleza e do Bem, propagados por Descartes(6)?
Esse senso de lógica nas cantigas: tudo muito
certinho, sem emoções. Já no escalão superior,
tudo se passava de forma íntegra. A literatura
das cantigas se faz presente, numa instabilidade
entre estes padrões europeus e os padrões locais
sem afirmar, contudo, nem uns nem outros.
Ao
recital do cantor todos compareciam e deixavam
suas impressões aflorarem de forma bastante agradável.
Todos participavam. Era sempre uma festa. Nesses
momentos se esqueciam das guerras, das brigas
intestinas, das lutas por mais terras. O que as
cantigas traziam era uma lufada de prazer, harmonia,
descontração. Um momento único de lazer e prazer.
Enfim,
essa poesia trovadoresca era uma atividade transitiva
indispensável em todos os acontecimentos sociais
(nascimentos, episódios amorosos, grandes aventuras,
falecimentos) e tanto o cavaleiro e o cantor de
estradas como o nobre e o rei poeta exerciam uma
prestigiada função na sociedade como cronistas
da vida medieval.
A
cantiga de Clarice
Já no ensaio O mundo de Clarice Lispector
(1966) com que inaugura uma profícua e abalizada
interpretação da obra clariceana, Benedito Nunes
apontava no seu estilo o que denominou "técnica
de desgaste": a neutralização dos significados
abstratos das palavras alternada à sua utilização
na sua máxima concretude, pela repetição obsessiva
de verbos e substantivos, "como se em vez de
escrever, ela descrevesse7, conseguindo um efeito
mágico de refluxo da linguagem que deixa à mostra
o 'aquilo', o inexpressado."(8)
Essas
observações são aprofundadas em livro posterior,
Leitura de Clarice Lispector (1973)(9),
no qual o crítico identifica a repetição como
"o traço de mais largo espectro"(10)
na obra da escritora. Ele o vê como um processo
consciente que, se por um lado atua como recurso
enfático, por outro concorre para a redução das
significações e, conseqüentemente, uma preparação
para o silêncio. Nesse jogo da linguagem, a obra
caminha do expressionístico para o alegórico,
conjugando o poder da palavra e do silêncio.
Reynaldo
Bairão, em apontamentos para um estudo sobre Clarice
Lispector (1969), tece comentários sobre um específico
recurso de repetição: iniciar um capítulo com
a última frase do capítulo anterior (no caso de
PSGH). Embora o denomine de "cacoete", ele reconhece
sua qualidade como interligação do livro todo,
dando-lhe essa "unidade alucinatória que é
seu maior objetivo. Seria assim uma espécie de
'deixa' que o mesmo personagem toma, a fim de
prosseguir o monólogo que ele mantém consigo mesmo."(11)
Em
1973, Assis Brasil reedita, com pequenas modificações,
o estudo Clarice Lispector: ensaio, de
1969, que, por sua vez, era uma compilação de
artigos sobre a escritora publicados na imprensa
ao longo da década de 60.
No
volume I, dedicado ao romance, da série de quatro
da coleção História crítica da literatura brasileira
(1973), Assis Brasil observa que, no romance PSGH,
"Clarice Lispector encadeia a última frase
de um capítulo com a primeira do capítulo seguinte,
ou a repete dando uma unidade temporal ao relato."(12)
Nega, contudo, que a narrativa seja um monólogo
direto ou indireto.
Em
notas para os textos de uma Seleta de Clarice
(1975), Amariles Guimarães Hill, referindo-se
ao romance PSGH, destaca:
Um
curioso procedimento desse romance é iniciar
cada capítulo exatamente com a última
frase do capítulo anterior. Essa técnica
lembra o leixa-pren (larga e pega) das
cantigas medievais portuguesas, o qual
consistia em começar uma estrofe com as
palavras que terminavam a estrofe anterior.(13)
Também Olga de Sá, em A escritura de Clarice
Lispector (1979), chama a atenção para essa
característica do romance PSGH: "um recurso
técnico original: começa um capítulo com a última
frase do capítulo anterior. Dá assim à sua introspecção
um aspecto de ininterrupta continuidade e à voz
de sua narrativa, uma tonalidade de canção, como
as velhas cantigas medievais."(14)
O
fato é que não passou despercebido à crítica o
recurso do leixa-pren no romance PSGH.
Visto inicialmente como parte de um processo de
repetição mais abrangente a que o crítico Benedito
Nunes chamou "técnica de desgaste", enquanto outros
ressaltaram o seu poder de conferir ao romance
sua unidade - seja uma "unidade alucinatória"
(Reynaldo Bairão) ou uma "unidade temporal" (Assis
Brasil), o leixa-pren é finalmente associado
às velhas cantigas medievais (Olga de Sá) ou,
mais particularmente, às portuguesas (Amariles
Guimarães Hill).
Discordamos
apenas que esse determinado tipo de repetição
seja classificado como um "cacoete" (segundo Reynaldo
Bairão), pois isso implicaria uma ação repetida
e involuntária, um tique ou mania, e não nos parece
ser esse o caso. Em Clarice, o ato de escrever
não é involuntário ou gratuito, fácil ou simples:
"Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar
rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados.",
Lispector (1987a:25), "Que ninguém se engane,
só consigo a simplicidade através de muito trabalho.",
Lispector (1987a:17).
Concordamos,
pois, com Benedito Nunes que vê no recurso estilístico
da repetição um processo consciente e significativo
na obra de Clarice. E nesse processo em que se
repetem palavras, frases inteiras, sobressai o
leixa-pren de PSGH, que aproxima distantes
momentos literários: a cantiga medieval portuguesa
e o romance brasileiro do século XX.
A
repetição sugere o eterno retorno, a imagem do
mesmo, do círculo em sua invariável perfeição
homogênea, circuito fechado do tempo-serpente
que morde continuamente a própria cauda. Aqui
a repetição não é a supremacia da identidade,
mas a representação obsessiva de uma busca: "------
estou procurando, estou procurando. Estou tentando
entender", Lispector (1972:7) que expõe sua
perplexidade: "todo momento de achar é um perder-se
a si próprio", Lispector (1972:13) e sua inconclusão:
"A vida se me é, e eu não entendo o que digo.
E então adoro ------", Lispector (1972:217).
Essa
busca que inicia e termina com seis travessões
reconhece que a tranqüilidade e a proteção configuradas
pelo círculo, pelo eterno retorno não correspondem
à realidade, pois a repetição nunca é fidedigna,
como afirma Nietzsche:
No
fundo, tudo o que foi possível uma vez
não pode voltar a ser possível, a menos
que os pitagóricos tivessem razão, ao
crer que sempre que se apresenta uma mesma
conjugação dos astros se devem repetir
sobre a terra os mesmos acontecimentos
até ao mais insignificante dos pormenores
de tal maneira que quando os astros atingem
uma determinada posição um estóico deve
fazer aliança com um epicurista, César
deve ser assassinado e Colombo deve descobrir
a América. Só se a terra, no fim do quinto
ato, retomasse desde o começo o seu drama
e estivesse provado que o mesmo encadeamento
de causas, o mesmo Deus ex machina, a
mesma catástrofe voltassem com intervalos
regulares, é que o homem poderia desejar
que a história monumental se repetisse
com uma fidelidade iconográfica, isto
é, até ao mais pequeno pormenor, cada
fato com a sua particularidade e a sua
unicidade bem definidas. Mas isso não
acontecerá, a não ser que os astrônomos
se transformem em astrólogos.(15)
O leixa-pren em PSGH, ao remontar à temática
da busca e exprimir, pela repetição, a vontade
de representar o infinito, sugere não o círculo,
mas o labirinto.
Nesse
"livro" labiríntico entrecruzam-se os caminhos
da enunciação: o lírico, pelo uso do presente
e da primeira pessoa e o épico, pela ampliação
do eu ao infinito de suas possibilidades, infringindo
seus limites e apoderando-se do plano do não-eu,
como já é anunciado na epígrafe de Bernard Berenson:
A
complete life may be one ending in so
full identification with the non-self
that there is no self to die., Lispector
(1972:6)
[Uma
vida completa pode acabar numa identificação
tão absoluta com o não-eu que não haverá
mais um eu para morrer.]
É
através do "corredor escuro", Lispector
(1972:41) que G.H., penetrando nesse "quarto-minarete",
Lispector (1972:43), refaz a experiência iniciatória
do ateniense Teseu no labirinto de Creta.
Após
abater o Minotauro, Teseu só alcança a saída do
labirinto com o auxílio espiritual não apenas
do fio de Ariadne, mas graças à sua coroa luminosa
(um anjo?) com a qual ela ilumina os caminhos
escuros do palácio.
O
labirinto em que o monstro simbólico se alimenta
de jovens vítimas é o inconsciente de Minos, habitado
pela tendência perversa de dominação. Embora destruindo
o monstro do outro, Teseu não consegue escapar
ao seu próprio, configurado na ingratidão ao abandonar
Ariadne que lhe havia dado fio condutor e luz,
presentes salvadores para o labirinto.(16)
Diante
do seu "labirinto", G.H. esbarra, ao contrário
do que supunha, "na visão de um quarto que
era um quadrilátero de branca luz e seus olhos
franziram em reverberação", Lispector (1972:41).
Esse "aposento todo limpo e vibrante",
Lispector (1972:42) é metaforizado num "quarto-minarete",
Lispector (1972:43).
Ora,
"minarete", ensina o dicionário do Aurélio, é
palavra de origem árabe que nos chegou através
do francês: "minaret <ár. marana(t),
'lâmpada', 'farol', 'a torre do farol':
pequena torre de mesquita de três ou quatro
andares e balcões salientes, de onde se
anuncia aos muçulmanos a hora das orações;
almádena." (17)
Portanto,
o "labirinto" ou "quarto-minarete" de G.H. não
necessitaria de luz para iluminar as trevas interiores
já que, etimologicamente, é "lâmpada", "farol".
Muito menos de guia ou companhia para percorrer
seus meandros.
Mas
G.H., ao narrar a experiência que chama de "desorganização
profunda", Lispector (1972:7), precisa inventar
uma presença, que, embora sem rosto ou voz, lhe
dê solidariamente, a mão. Essa mão ora é a "mão
mal-assombrada do Deus", Lispector (1972:16),
ora é a mão de "meu amor", Lispector (1972:78).
"Estou tão assustada que só poderei aceitar
que me perdi se imaginar que alguém me está dando
a mão.", Lispector (1972:15).
G.H.
empenha-se nessa busca em leixa-pren que
pode conduzi-la, apesar do medo, a insuspeitados
mistérios do ser, irrecusáveis viagens ao inconsciente,
através principalmente das sensações.
Em
busca do eu
O
processo que Clarice utiliza para o autoconhecimento
de G.H. parece ser o recurso do leixa-pren,
que, ao ressaltar a repetição, empresta às palavras
um significado mais amplo do que significariam
se não viessem repetidas. Por que ela repete?
Por que isso já se tornou uma convenção literária?
Ouçamos a própria Clarice:
...
a chance de usar um tom monótono que me
satisfaz muito: a repetição me é agradável,
e repetição acontecendo no mesmo lugar
termina cavando pouco a pouco, cantilena
enjoada diz alguma coisa., Lispector (1999:70)(18)
Existe o prazer da repetição que ela chama de
"enjoada" e "diz alguma coisa", mas que ela, sábia,
se abstém de explicar, deixando o caminho livre
para nossas interpretações.
O romance se desenvolve em trinta e três capítulos,
mantendo uma certa unidade quanto à sua extensão:
trinta capítulos não excedem as dez páginas; os
três restantes não ultrapassam quinze páginas.
O primeiro capítulo, que é o mais longo de todos,
é uma introdução reflexiva e posterior ao enredo
que se inicia realmente no segundo capítulo.
Examinando
a série de trinta e dois leixa-pren em
PSGH, acreditamos que é possível acompanhar o
discreto e secreto fio narrativo do romance. Esse
encadeamento, que sugere um primitivo e improvisado
diálogo, segue um percurso lógico-seqüencial -
não há interrupções - do qual não se consegue
precisar nem o começo nem o fim - os seis travessões
o indicam.
De
início, observamos na série de leixa-pren
o campo lexical relativo aos órgãos dos sentidos.
A visão, o tato, o paladar apresentam-se de forma
expressiva, configurando em G.H. a busca através
dos sentidos e sensações. Mas o que procura a
personagem? "Eu procurava uma amplidão",
Lispector (1972:125).
Para
"entender" ela busca uma "amplidão", que não está
ligada à extensão do espaço, mas à profundidade,
à profundidade da busca de si mesma, de sua individuação.
Do final de um capítulo para o início do capítulo
seguinte, a personagem "desce" ao fundo para depois
"subir": ela está repetindo a mesma idéia nesse
movimento ascendente/descendente do leixa-pren.
Bem
adequada nos parece a imagem de uma piscina de
água azul e limpa, na qual a personagem pula do
trampolim, imerge e depois emerge. Ao mergulhar
até o fundo da piscina, ela desce procurando achar
a solução para a sua problemática. Não a encontrando,
volta à tona, mas com a mesma idéia fixa, trazendo
o último questionamento, a última passagem (o
leixa-pren).
Mas
a nadadora não se deixa abater pelo insucesso.
É perseverante e repete o mesmo movimento: novo
mergulho, levando o motivo de suas preocupações
(o leixa-pren) até retornar de mãos vazias
pois não se satisfaz com as respostas (o mesmo
leixa-pren). E assim sucessivamente.
Cada
capítulo é uma tentativa de a nadadora/narradora
buscar no fundo da alma a resposta às suas angústias.
Como a angústia é uniforme, também o texto é uniforme
e a idéia desse movimento em S (descida/subida)
do leixa-pren é também uma idéia estética.
A
água da piscina contém cloro, é límpida e não
sofre interferência externa como a água do mar.
É a água ideal para esses trinta e três mergulhos
na alma. A simbólica da água é vasta mas pode
ser reduzida, segundo Chevalier e Gheerbrant,
a três temas dominantes: "fonte da vida, meio
de purificação e centro de regenerescência"(19).
No
romance a água é reconhecida como fonte de fecundação
do entendimento da alma sequiosa e angustiada
de G.H. Mas a água translúcida não consegue responder
aos anseios da alma também translúcida.
Eu
tinha a capacidade da pergunta, mas não
a de ouvir a resposta. (...) Então eu
me havia perdido num labirinto de perguntas,
e fazia perguntas a esmo, esperando que
uma delas ocasionalmente correspondesse
à da resposta, e então eu pudesse entender
a resposta., Lispector (1972:161-162)
A
pergunta essencial parece ser relativa à identidade:
quem é G.H., essa mulher de quem o leitor recebe
vagas informações e que se esconde atrás de iniciais?
"E eu também não tenho nome, e este é o meu
nome. E porque me despersonalizo a ponto de não
ter o meu nome, respondo cada vez que alguém disser:
eu", Lispector (1972:211)
Jung,
ao estudar a função do inconsciente, aponta uma
destinação ou meta para a diferenciação de conteúdos
pessoais e coletivos da psique: o caminho da individuação.
E distinguindo individualismo - "acentuar e
dar ênfase deliberada a supostas peculiaridades,
em oposição a considerações e obrigações coletivas"(20),
de individuação - "a realização melhor e mais
completa das qualidades coletivas do ser humano"(21),
conclui que esta última é "um processo mediante
o qual um homem se torna o ser único que de fato
é"(22).
Essa
"mulher educada que sou", Lispector (1972:40),
"essa mulher calma que eu sempre fora",
Lispector (1972:62), "G.H. até nas valises,
eu, uma das pessoas", Lispector (1972:80-81),
afinal é uma persona irreal, a máscara para o
papel a desempenhar na coletividade, reduzindo-se
a uma aparência: nome (?), endereço, ocupação,
etc.: "Para escapar do neutro, eu há muito
havia abandonado o ser pela persona, pela máscara
humana", Lispector (1972:109).
A
experiência narrada por G.H. é a tentativa de
desreprimir o si-mesmo inconsciente, a sua verdadeira
individualidade oculta e fragmentada: "eu,
uma das pessoas", Lispector (1972:81). Talvez
por esse motivo, as referências a suas fotografias
remetam à velha questão da identidade: "...
eu olhava a vista, provavelmente com o mesmo olhar
inexpressivo de minhas fotografias", Lispector
(1972:39), "... eu agora olhava com o olhar
de minhas fotografias de praia", Lispector
(1972:40).
Quem
é essa personagem de olhar inexpressivo que julga
olhar com o mesmo olhar de suas próprias fotografias?
"Todos os retratos de pessoas são um retrato
de Mona Lisa", Lispector (1972:28). Olhar
a atualidade com os olhos do passado? Mas não
qualquer passado: o passado das fotografias de
praia (novamente a água...).
A
questão do retrato é uma forma simbológica da
busca do outro (eu) em si-mesmo. Através da fotografia,
vê-se o insuspeito se desvelar de forma impensada.
Será que eu, eu mesmo, sou aquele da foto? Ou
o outro que vê esta foto?
O
que eu havia visto de tão tranqüilo e
vasto e estrangeiro nas minhas fotografias
escuras e sorridentes - aquilo estava
pela primeira vez fora de mim e ao meu
inteiro alcance, incompreensível mas ao
meu alcance. Lispector (1972:75)
A idéia da fotografia é captar um momento presente
na vida da pessoa, e não a vida em si. Quando
se inverte a situação, as coisas mudam de configuração
- o estabelecido passa a ser o estabelecimento
- e o ser vivente busca na imagem fixa a vida
a qual pretende nomeá-lo assim.
Já
que o eu interior não responde às questões propostas,
observar a foto seria a maneira de reconhecer
esse outro eu buscando sua própria identidade
antes que ela se esfarele e se dilua. Só que isso
jamais irá acontecer pois, mesmo na confusão espiritual,
corpo e alma ainda se conjugam, fornecendo ao
ser uma unidade concreta, simples, porém unidade
- meio básico para a administração da vida.
É
no décimo oitavo capítulo que G.H. parece aproximar-se
da "identidade mais última", Lispector
(1972:159), pois no anterior ela reconhece que
"crescera", Lispector (1972:126), deixando
de ser uma "criança inquisidora", Lispector
(1972:126).
A
idade de dezoito anos é uma idade-chave, representa
a maioridade, o limiar do mundo adulto no qual
avultam as responsabilidades. Por isso a personagem
revela: "Para rezar as areias, eu como eles
já fora preparada pelo medo", Lispector (1972:133).
Enfrentar o mundo adulto é atravessar as areias
do deserto: agora não há mergulho na piscina,
pois o deserto é a ausência da água.
A
personagem que "crescera" plena de esperanças,
de repente se vê cônscia de si, de suas angústias,
das pessoas e do mundo que a cerca. Está só, no
deserto, voltada para o eu interior. Ninguém ensina
a enfrentar o mundo: o árido deserto é um desafio
a vencer. "O deserto é um modo de ser",
Lispector (1987b:122).
A
sobrevivência nessa esterilidade imposta pela
sociedade, nesse vazio humano, nessa amargura
é a sobrevivência que o Senhor concedeu a Moisés
e seu povo no deserto: do céu veio a carne sob
a forma de codornizes e o maná, o pão celestial,
semelhante à semente de coentro, branco e com
sabor de uma torta de mel23. G.H. também sobrevive.
A
narrativa poderia terminar aí: G.H. encarou e
transpôs o deserto: está lúcida e consciente de
si, cresceu. Ela é uma espécie de beduína, pois
só os beduínos conseguem atravessar a aridez do
deserto.
Mas
isso é cíclico: o ser humano deve recomeçar sua
trajetória feita de eternas buscas, num questionamento
infindável e, logo em seguida, novamente a personagem
mergulha: "somos criaturas que precisam mergulhar
na profundidade para lá respirar, como o peixe
mergulha na água para respirar", Lispector
(1972:137), "somos os que nadam", Lispector
(1972:137).
Volta
o círculo vicioso, mas o que se repete agora é
diferente, pois aumenta o grau de consciência
da personagem. A lição que aprendeu, "o segredo
no deserto", Lispector (1972:140), é que ela
deve retornar ao mundo atual. Consciente, ela
percebe que não pode mudá-lo para melhor, mas
pode mudar a si para enfrentá-lo.
Se
G.H., nesse mergulho na própria alma, decidisse
ficar no fundo, seria perder a responsabilidade.
Por isso, ela volta à superfície para respirar
e não pode deixar de levar a umidade na pele molhada,
resíduo da água, resíduo do mergulho na alma (o
leixa-pren). Ao emergir, G.H. traz um pouco
dessa experiência íntima para o alto, para a cabeça,
para o intelecto. À imersão correspondem as sensações,
configurando seu lado racional. Os trinta e três
mergulhos na alma vão-lhe ensinar algo sobre si
e sobre o mundo.
Afinal
o que cada leixa-pren representa é uma
letra aprendida no fundo da alma, é uma letrinha
que nasce dessa experiência única e intransferível.
Mas de que adiantam letras soltas? G.H. tem que
formar palavras. Mas como? É o restante de cada
capítulo, que nada mais é do que uma forma de
apreender as letras e formar palavras (emoção
+ razão). Cada mergulho na alma é uma emoção,
é uma letra. Vamos aprender a formar palavras?
É a razão.
Ao
trazer umidade para a superfície, G.H. traz um
resíduo de vida (água é vida) e de alma. Cada
capítulo é uma tentativa de trabalhar racionalmente
esse resíduo, essa partícula da alma que ela trouxe
de cada mergulho. Não saber trabalhar essas questões
na mente pode ser a loucura. Cada capítulo é uma
tentativa de explicação do mundo.
Isso
é uma parábola: é a parábola do leixa-pren
em PSGH, da viagem em busca do seu significado
na construção do romance. Emoção e razão, sonho
e realidade, paixão e verdade nesses mergulhos
na alma e no mundo que também são mergulhos na
linguagem, que podem nos remeter ao velho Aristóteles:
"Tudo quanto se exprime pela linguagem é do
domínio do pensamento".(24)
No
romance PSGH, o leixa-pren é a palavra
úmida e o pensamento é a palavra seca.
Acordar
uma nova mulher?
As
cantigas de amigo foram escritas por homens, pois
as mulheres na sua condição inferior em seu papel
perante a sociedade (mesmo as nobres cortesãs
da fidalguia, como analfabetas) não poderiam ter
registrado esses cantares.
Insistimos nesse ponto: o homem, dando voz à alma
feminina, revestindo seu espírito com os anseios,
angústias e questionamentos interiores dessas
mesmas cortesãs, dessas mesmas fidalgas fazem
com que a literatura cumpra o seu papel de transpor
quadros herméticos, assim desvelando a alma feminina,
desvela o eu feminino.
Há
todo um trabalho de incorporação desse sentimento,
o que nos leva a concluir que quando Clarice,
trilhando os passos desses cantares de amigo,
incorpora não a mulher medieval, mas sim a condição
da mulher atual e a condição masculina que escrevia
esses textos sob essa ótica, podemos dizer que
ela subverte a ordem, colocando a mulher no seu
devido papel.
Daí
ela frisar essa consciência (uma mulher consciente)
e voltar sua atenção à ótica masculina, como se
tivesse "travestido" a sua consciência nesse jogo
de espelhos. O moderno cantar feito por essa mulher
lúcida, que assume ambivalentemente os dois papéis,
o masculino e o feminino.
Perdi
alguma coisa que me era essencial, e que
já não me é mais. Não me é necessária,
assim como se eu tivesse perdido uma terceira
perna que até então me impossibilitava
de andar mas que fazia de mim um tripé
estável. Essa terceira perna eu perdi.
E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.
Voltei a ter o que nunca tive: apenas
as duas pernas. Sei que somente com duas
pernas é que posso caminhar. Mas a ausência
inútil da terceira me faz falta e me assusta,
era ela que fazia de mim uma coisa encontrável
por mim mesma, e sem sequer precisar me
procurar.
Lispector (1972:8)
Clarice
fez o mesmo que Guimarães Rosa nas cantigas de
amigo: transpôs o espírito dessas cantigas para
a realidade do século XX, quer dizer, tomou o
universal e colocou a sua realidade feminina,
quer dizer, localizou. Temos assim um trabalho
do universal para o local, só que as suas questões
femininas, as suas angústias pessoais se tornam
novamente universais.
É
um cantar de amigo moderno, reestruturado. Isso
porque Clarice, ao usar o elemento masculino na
sua voz(25), universaliza esse
cantar, reelaborando todo o seu ponto de vista.
Ora,
na Idade Média temos o homem cantando a alma feminina
e seus anseios. Portanto, o homem estava numa
posição diametralmente superior à posição feminina.
A mulher era mero objeto de especulação.
Hoje,
com essa nova consciência, Clarice nos mostra
que a mulher está, não nivelada com o homem -
como queriam as feministas - mas sim, superior
a ele, pois agora é ela que subverte a ordem,
fazendo o seu papel, falando como mulher e homem
ao mesmo tempo.
Portanto,
a mulher está numa posição superior como esse
homem da Idade Média esteve. Criadora e geradora
de canções que trabalham e perpassam a alma feminina,
sem o auxílio luxuoso do homem. Desse homem que
se achava senhor e dono de tudo e de todos, principalmente
porque sabia fazer esses cantares e "captar" a
alma feminina.
Caberia
aos estudiosos dos cantares dos séculos XIII e
XIV pesquisar e aprimorar essa questão ainda não
elucidada. Será que o homem, o "cantor" realmente
captou a alma feminina? Ou, como tudo na Idade
Média, esses cantares também são ideológicos,
isto é, nos fazem crer (como o fizeram na época,
cumprindo o seu papel) que essa mulher medieva
é, quer dizer foi, como as abordadas nas letras
e versos desses cantares? Seria esse um retrato
fiel?
Como
não temos respostas definitivas, caberia aos pesquisadores
aprofundarem nessa questão tão cara e tão íntima
a nós (mesmo que aparentemente não se perceba)
que tocou o coração de Clarice, fazendo-a reviver
essa forma impressionista numa linguagem reelaborada,
mas cujos anseios e fremências são os mesmos das
mulheres medievais. Pois o homem não muda: ele
atravessa os tempos com esses mesmos anseios,
angústias, paixões e desilusões, num eterno ciclo.
O mesmo se passa com as mulheres em diferentes
épocas.
A
grande questão em PSGH é a seguinte: apesar da
influência trabalhada da canção de amigo teria
essa mulher hoje consciência do seu ser e da sua
angústia como mulher, nesse mundo de impasses
e dúvidas em que uma outra mulher tem que escrever
isso de forma clara e quase confidencial para
despertar esse sentimento em leitores de ambos
os sexos?
A
literatura é maior que todas essas questões e
Clarice se utiliza desse projeto (abertura primordial
da consciência feminina através do eu profundo
e profano) em que nada mais importa: o que interessa
é despejar esse anticlímax, que são suas narrativas,
no papel antes que a cabeça exploda, antes que
os pensamentos nos dominem, antes que o inconsciente
se faça presente, antes que a humanidade se olhe
no espelho, pois a reflexão começa primeiro em
sua casa (a cabeça) para depois conquistar as
ruas (o mundo) e assim tentar suportar esse viver
de uma outra época cujos valores se perderam e
a deterioração física, moral e ética só tende
a acentuar.
Nada
mais poderemos dizer sob essa ótica, pois enquanto
o homem não se mira nesse espelho, essa tentativa
literária, esse "enigma" Clarice (e tantos outros
enigmas) se faz necessário. A Literatura é a arma
do Amor.
Quando
Clarice fala do tripé no texto(26),
ela está falando da condição feminina em relação
ao mundo hoje. O tripé é uma metáfora de uma muleta
existencial. Mais que isso: é um apoio espiritual
para a condição feminina.
Quando
ela dá conotação sexual ao texto, está ironizando
a condição masculina, mas na verdade, no fundo,
a angústia é porque ser mulher hoje e trabalhar
essas questões é doloroso.
Ela
faz um jogo de palavras que brinca com essas questões.
Como já foi dito, ela é nesses dias uma mulher
lúcida e consciente, mas nessa abertura do livro,
ela está apenas começando.
Por
isso, ela parodia o mito da criação. É o homem
e a mulher e a crítica social que estão contidas
nessas linhas. Mas isso não é feminismo. Nunca
foi. Isso é anterior ao feminismo. Isso é uma
questão existencial. Mas não o existencialismo
de Sartre e outros existencialistas. É uma questão
existencial de Clarice. São impressões da escritora.
Não
sabemos quanto aos outros. Mas ela tinha de escrever
essas coisas, sobre essas coisas. É apenas isso.
A
forma leixa-pren é ideológica. Clarice
trabalha-a operando, transforma, adapta para o
século XX e seus questionamentos de mulher do
século XX. Isso é uma forma um tanto obscura de
pensar, porém sob a égide do leixa-pren,
observamos que sua escrita revolucionária e às
vezes reacionária vem mostrar que a mulher como
ser pensante, enquanto mulher, se faz presente
nesse paradigma obtuso que é o nosso viver hoje,
no qual cada ser se mostra único e todos estão
na mesma situação.
É
o leixa-pren do leixa-pren: é a
releitura de uma releitura do mundo, o que nos
faz convergir diretamente para as Sagradas Escrituras
devido à influência ocidental sob a exegese dessas
mesmas Escrituras (árabe, portuguesa, judaica,
malaica, asiática, indiana e aborígene), pois
o homem é um só, como já falamos, e vários concomitantemente,
o que nos leva a crer que a universalidade da
escritura-Clarice é quase que sacramental do ponto
de vista ético-filosófico, porém mundano do ponto
de vista tradicional-civilizado. Uma reforma cujo
ato de reformar é a reforma em si e não o seu
fim. O seu fim é a conseqüência que repercutirá
no leitor.
Ser
é saber?
O
mundo medieval tem uma característica: a recristianização
do homem. Todo o clero, as pessoas de vulto na
sociedade, todos estão preocupados em voltar ao
Cristo e seus ensinamentos.
O que é o amor cortês? Um ideal de gentileza amorosa
que, apesar das classes sociais nítidas, ainda
está presente na Idade Média. A mulher, objeto
desse amor, se sentia mais feminina, mais mulher.
Hoje
não há muito lugar para cortesias com a mulher.
Ela quis igualar-se ao homem. Ora, igualar-se
ao homem significa perder um pouco de sua feminilidade.
O homem não quis igualar-se à mulher. Isso para
ele seria perder um pouco de sua masculinidade.
Mas a mulher o quis e conseguiu.
Ora, o resultado é visível hoje: ela conquistou
lugares diferentes no campo profissional, mas
por outro lado perdeu parte de seu senso de feminilidade:
saiu à rua para trabalhar, para estudar. Obviamente,
suas antigas tarefas como mãe e esposa foram um
pouco desprezadas. O que aconteceu? Filhos e maridos
foram ocupar um espaço deixado no lar pela mãe
e esposa reivindicadora. Eles adquiriram um certo
senso do feminino. A isso foram obrigados por
força das circunstâncias. Portanto, a ligeira
troca de papéis deve ter influído e muito para
a perda das características da vida familiar que
existia, por exemplo, na Idade Média.
Lá,
a mulher ainda estava certa e firme no seu papel
feminino. Sem querer o lugar do homem ou igualar-se
a ele, ela obviamente sofria os reveses de sua
condição. Era, às vezes, desprezada, abandonada,
e nunca estava muito certa de que seu amante realmente
a amava. Era o campo da dúvida e do sofrer. Daí,
as coitas de amor femininas. Porque as
coitas de amor masculinas apenas espelhavam
os "sofrimentos" de mentirinha de quem tinha o
poder como sexo dominante. Eram fingimentos de
sofrimentos. Porque, mesmo quando estavam falando
de coitas masculinas em relação às fidalgas,
eram ainda eles que estavam em posição superior.
Porque, sendo analfabetas, cortesãs ou camponesas,
a elas era vedado o conhecimento.
E
o conhecimento é a fonte principal de onde pode
emanar a igualdade entre os seres, sejam eles
homens ou mulheres. É apenas através do conhecimento
que as pessoas podem sentir-se iguais ou melhores
em relação às outras. Ou, como na Idade Média,
com raras exceções no caso das mulheres, superiores.
Apenas as mulheres no convento possuíam instrução,
conheciam o latim e podiam manifestar-se através
dele. Às demais, essa luz do saber era negada.
Mas
a Palavra Divina ainda era propagada: havia cortesia,
havia respeito, havia o amor cortês. Tão belo
e tão distante de hoje em dia, em que palavras
secas e duras nas relações amorosas são tão comuns
e não espantam a mais ninguém.
Hoje
não há mais lugar para o amor cortês, porque os
ideais platônicos caíram de moda. Mas é uma pena,
porque mesmo dessa forma, sem conhecimento das
letras, a mulher era respeitada como mulher, mãe
e esposa. Que diferença de hoje em dia, quando
tantas mulheres ultrajadas correm às delegacias
de mulheres para reivindicar justamente os direitos
que lhes eram negados nessa época distante e mais
feliz! Todos eram mais felizes: homens e mulheres.
Todos eram mais corteses...
A
obra de Clarice, e principalmente PSGH, é o renascimento
do homem pelo homem. Aliás, como todo escritor
devia fazer. Homem em geral: homem, mulher, criança.
Todo escritor devia fazer uma obra assim.
Infelizmente,
estamos vivendo uma época em que a literatura
está atravessando uma fase comercial, em que esses
valores humanísticos estão-se perdendo. Daí esse
novo retorno. Em todas as épocas, isso é cíclico.
No
início do século XXI, estamos vivendo esse retorno
através das obras de auto-ajuda. Em todas as épocas
existiu esse tipo de literatura. Só que elas não
ajudam o homem, nem aos valores humanísticos.
Isso nunca resolveu nada.
Na
Idade Média, e depois na Renascença, essa ideologia
era colocada da seguinte maneira: fazer com que
o homem, através das lições dos heróis, dos épicos,
dos romances de cavalaria, aprendesse, através
dos heróis dos romances, valores perenes da vida.
Então
acontecia a catarse: ele se sentia próximo do
herói, pois ambos falavam a mesma linguagem. E
conhecendo as aventuras do herói e, aprendendo
com ele sua cortesia, gentileza, honra, etc.,
a intenção do autor era que o leitor se espelhasse
no exemplo do herói e o imitasse.
Já
a literatura de Clarice não é para ser imitada,
e sim para ser refletida: o homem refletir sobres
essas coisas ditas, pensadas, sentidas, questionadas.
Voltamos
ao início, não?
NOTAS
1-
MOISÉS, M. (1967), p.28
Em português moderno: pino = pinheiro; u = onde;
pôs = combinou; san' e vivo = são e vivo; e será
vosc'ant' o prazo saído = e estará convosco quando
terminar o prazo (do serviço militar).
2- SARAIVA, A.; LOPES, O. (s.d),
p.50
3 -Ibidem, p.54
4- BERARDINELLI, C. (1953), p.6-7
5- HAUSER, A. (1998), p.221
Segundo o autor, era compreensível a vassalagem
amorosa no espaço restrito das cortes e castelos
em que havia maior número de homens solteiros
do que mulheres. O erotismo se concentrava na
senhora do castelo, alvo de um amor cortesão-cavaleiresco
que, pela impossibilidade de realização, se tornava
ideal.
6- "Mas se não soubéssemos de
modo algum que tudo quanto existe em nós de real
e verdadeiro provém de um ser perfeito e infinito,
por claras e distintas que fossem nossas idéias
não teríamos qualquer razão que nos assegurasse
que elas possuem a perfeição de serem verdadeiras".
DESCARTES, R. (1979), p.50
7- É possível ter ocorrido falha
tipográfica. Na edição original (1966), consta
"descrevesse", o que poderia levar à confusão
com o imperfeito do subjuntivo do verbo "descrever".
Como o sentido do texto aponta para a "negação
de escrever", a forma mais adequada seria "descrevesse".
Por fidelidade ao texto, mantivemos a grafia original.
8- NUNES, B. (1966), p.74-5
O ensaio foi reeditado como o Capítulo II em O
dorso do tigre, com o acréscimo do adjetivo no
título: "O mundo imaginário de Clarice Lispector".
9- Reeditou-se o livro citado
com inclusão de mais dois estudos ao capítulo
final - "O improviso ficcional" e "O jogo da identidade"
- que atualizam a interpretação da obra clariceana.
NUNES, B. (1989)
10- Ibidem, p.136
11- BAIRÃO, R. (1969), art. citado
Salvo engano, essa é a primeira menção da crítica
à "deixa" (ou leixa-pren) em PSGH.
12- BRASIL, A. (1973), p.75
13 - GOMES, R.C.; HILL, A.G.
(1976), p.99
Hill explicita finalmente a associação do procedimento
de leixa-pren às cantigas medievais portuguesas.
14- SÁ, O. de (1993), p.259
15- NIETZSCHE, F.W. (1983), p.61
"Da utilidade e dos inconvenientes da História
para a vida"
16- Consultar em CHEVALIER, J.,
GHEERBRANT, A. (1999) e BULFINCH, T. (1965) os
verbetes sobre Teseu e a lenda do Minotauro
17- FERREIRA, A.B.H. (1999),
p.338
18- In: "A explicação inútil",
crônica na qual Clarice explica como e por que
escreveu alguns de seus contos. A citação refere-se
ao conto "Imitação da rosa"
19- CHEVALIER, J, GHEERBRANT,
A. (1999), p.15
20- JUNG, C.G. (1997), p.49
21- Ibidem
22- Ibid.
23- BÍBLIA Sagrada (1999), Êx.
16, 13 e 16, 31; p.116-117
24- ARISTÓTELES (s.d.), Cap.
XIX, 3
25- Vide LISPECTOR, C. (1972),
p.8
26- Ibidem
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SARAIVA, A.J.; LOPES, O. (s.d.) História da
literatura portuguesa. 4.ed. cor. Porto:
Porto Ed., Lisboa: Emp. Lit. Fluminense.
*
Este ensaio é parte do livro Duas visões: Guimarães
Rosa e Clarice Lispector (Editora Ágora da Ilha,
2000), em co-autoria com Carlos Theobaldo.
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