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Romantismo:
deficiência e confusão de sentimentos
poéticos ou a vitória da liberdade
da forma diante dos antigos preceitos clássicos?
Ao
primeiro contato com o ensaio de Fernando Pessoa
acerca do Romantismo, logo ocorreu-me, talvez
o seu heterônimo mais atribulado; Álvaro
de Campos e sua acusação de que
as cartas de amor (que, na minha opinião
significam "recheadas de lirismo e pieguice,
inerentes ao sentimento amoroso, e de total
entrega ao seus anseios e sofrimentos, conferindo
a esse 'estado' de espírito uma 'condição
apaixonada') são ridículas. Esse
motivo de explosão pode ter sido mais
uma tentativa de criticar um princípio
pelo qual se rege o pensamento humano quando
'ensandecido' pela emoção. Campos,
que se considerava discípulo de outro
heterônimo, o "neoclássico"
Alberto Caeiro, se revela assim como Fernando
Pessoa, um crítico dessa pretensão
artística a que se atribuíam todos
aqueles - homens comuns - vitimados pelas circunstâncias
de dor, sofrimento e angústias (pertinentes
a qualquer uma pessoa) sem limites. Contudo,
curiosamente, Álvaro de Campos, se revela
ao final de sua existência literária
inquieto e frustrado por não conseguir
alcançar a capacidade de seguir os preceitos
de Caeiro, caindo-se numa lamentação
digna de qualquer admirador e cantador da grande
Natureza:
"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer nada ser nada.
À parte, tenho em mim todos os sonhos
do mundo."
Esse
fragmento - paradoxalmente ao "ensaio da
razão", que condena o romantismo
atribuindo-lhe apenas a pretensão artística,
quando, na verdade, só apresenta pieguice
e retórica - revela traços denunciadores
de profundo ingresso desse poeta, ou heterônimo,
no decadentismo, ou, desilusão pelo mundo
e por si próprio como querem os críticos.
Fato intrigante que é, ao mesmo tempo,
capaz de estimular as mais variadas reflexões
acerca do enigma que envolve o nome deste que,
ao lado de Camões constitui a expressão
mais genial da Literatura Portuguesa. Seria
possível, portanto, discorrer sobre o
ensaio baseando-se, somente, em qualquer um
dos "fragmentos literários"
de Pessoa para entender sua essência.
Porém, tomar por base, apenas, esse mesmo
argumento e ensaiar a interpretação
de sua obra, se utilizando somente da sua capacidade
de expressão por meio de seus heterônimos
e suas peculiaridades é subestimar o
mito e, mais ainda, é um erro - ironicamente,
um erro encantadoramente tentador.
Evitando,
então, constrangimentos e seguindo por
um caminho igualmente tortuoso - e seguro -
logo, mantendo-se nos limites do texto, 'impostos'
pelas palavras do próprio Fernando Pessoa,
é fácil observar que o que o irrita,
decididamente, são as diversas lacunas
que existem no Romantismo. Esse movimento surgiu
no processo revolucionário da tomada
de poder pela burguesia - que poderia impor
um novo tipo de arte de cunho popular-burguês
- para substituir a arte clássica da
aristocracia. Como os precursores dessa nova
arte provinham das camadas populares, e estavam
quase que completamente alheios à erudição
clássica, da cultura greco-romana e toda
a ornamentação mitológica
do movimento que a antecedeu, sua função
agora era a de entreter e de expressar a liberdade
através de novos caminhos, totalmente
alheios às formas e à rigorosa
estética clássica. A liberdade
permeava todos os campos, do político
ao econômico, pois era uma época
de profundas revolução decisivas
em toda a Europa. O próprio Victor Hugo
(e, segundo Pessoa, suas "...intoleráveis
tiradas áridas...") condenava as
regras e os modelos clássicos, propondo
os preceitos tão em voga na época,
como a liberdade e a igualdade. Pela aspiração
à liberdade fundamentou-se toda a expressão
artística da época e do movimento
romântico. O subjetivismo e a imposição
do "eu", além da emoção,
do sentimento, da imaginação,
do desejo e etc. todos provinham exatamente
dessa mesma ideologia, e é nesse ponto
que Fernando Pessoa inicia o seu ensaio condenando
a origem e os valores pertencentes a esse movimento
porque não entende como alguém
pode se julgar artista tendo qualidades que
qualquer pessoa possui e não características
criadoras e sobre-humanas próprias do
artista - considerado em outras épocas
como uma criatura com a mesma capacidade divina
da criação, um semideus. Só
que, mesmo transmitindo de maneira brilhante
essa idéia, algumas vezes o texto se
torna saturado dos mesmos argumentos, apenas
a oposição entre a razão
e a emoção e a discussão
em torno da qual é a mais competente
para traduzir a arte. O tempo todo Fernando
Pessoa critica o romantismo e exalta a teoria
clássica, afirmando que a "grandeza
intelectual" em momento algum se deve à
sina reservada (?) a cada um dos homens. Afirma
que o poeta romântico se lamenta pela
infinita "imperdurabilidade das coisas,
faz uso legítimo de um sentimento bem
humano ... e de uma emoção, que
sendo velha como a humanidade, nem sempre serviu
de tema poético", como se a poesia
romântica fosse somente constituída
de lamentações e de aspirações
infantis de pessoas que estavam ali sem saber
o motivo. No entanto, nem só de lamúrias
se constituía a arte romântica.
O desencantamento, a lamentação
e desilusão presentes nas poesias eram
puro reflexo da vida das pessoas que viviam
aquela realidade massacrante. Da mesma forma,
o contexto histórico e a cena européia,
que serviu de palco para a sedimentação
desse movimento, não estavam mais para
a exaltação de mitos gregos, de
paisagens bucólicas, lugares aprazíveis
e muito menos para a submissão à
regras e modelos ali, há muito, ultrapassados.
O momento era de mudança, progresso e,
sobretudo, luta contra as instituições
vigentes esmagadores das classes que buscavam
seu lugar na sociedade.
O
ensaio de Fernando Pessoa é brilhante
e chega a seduzir, tanto pela maestria com que
é desenvolvido quanto pela capacidade
indiscutível desse poeta tão representativo
para a literatura mundial, no entanto, se deixar
convencer apenas pela genialidade de argumentos
e mesmo, aquela inerente a própria 'pessoa'
de Pessoa, é ao meu modo de ver, uma
injustiça com um movimento que foi fundamental
para a literatura e que revelou tantos gênios
- esse detalhe, no entanto, também é
percebido por Pessoa, que por momentos, parece
ser compreensivo com algumas nuanças
do movimento, chegando a classificá-las
como revolucionárias. É claro
que quando nos deparamos com poetas que tropeçam
em sua própria retórica, delineada
por sentimentos mergulhados numa construção
confusa e enfadonha, em que nem com a utilização
de todo o sentimento humano possível
para uma dada interpretação, vemos
que a inteligência - do poeta e a nossa
própria - foi menosprezada escandalosamente,
e não somente, ao deixar-se submeter
à emoção. Fernando Pessoa
criticava, principalmente, a predominância
da emoção na construção
poética (esta com muitas possibilidades
desastrosas) e, sobretudo, quando além
de substituir a "estreiteza e secura dos
processos clássicos" pela imaginação
e a "mesquinhez especulativa da arte"
pela literatura feitas com idéias, subordinava
a "inteligência à emoção"
que, ao seu ver, não significava mais
uma inovação, mas somente uma
morbidez. Ele também ataca, por outro
lado, agora afirmando que no momento em quem
foi "inovador" o romantismo somente
caiu na reedição do helenismo,
só sendo, no entanto inovador na substituição
da razão pela emoção -
o que para ele não era mais nada além
de uma decadência, e disso a Renascença
estava salva para "atingir um nível
poético alto" e, além do
mais, segundo ele próprio, no romantismo
não havia nem Dante nem Milton (Boa argumentação,
mas deixando de lado grandes nomes da poesia
romântica como Byron, Goethe, Hugo, que
não podem ser comparados aos outros dois
citados, mas não por falta de atributos
ou grandeza poética, mas pela diferença
de época e da incongruência de
comparação e do valor que cada
um mostrou dentro da sua incontestável
capacidade criadora).
Do
romantismo surgiram movimentos igualmente, segundo
Pessoa, mórbidos, pela "inversão
das posições mentais da inteligência",
como o decadentismo, o simbolismo e os demais.
Um dos seus heterônimos, Alberto Caeiro,
coloca-se como inimigo do misticismo que vê
ou acredita ver "mistérios"
em todas as coisas sem utilizar a razão,
o que ele faz antes de tudo encontrando na razão
base para sua crítica:
"(...) Eu não
tenho filosofias: tenho sentidos...
(...) O mistério das coisas? Sei lá
o que é mistério!
(...) os poetas místicos são filósofos
doentes,/ E os filósofos são homens
doidos (...)"
"Toda
a arte é o resultado de uma colaboração
entre sentimento e pensamento...": é
assim que se inicia a parte do ensaio que parece
pelo título estabelecer uma distinção
entre três categorias de artistas: "[Clássicos,
Românticos e Decadentes]". De acordo
com Fernando Pessoa, a diferença básicas
entre eles é estabelecida pelos modos
que o pensamento pode colaborar com o sentimento.
Nos clássicos, o pensamento é
apenas a base desse sentimento, nos românticos
a sua interpretação, já
nos decadentes ele apenas se mistura ao sentimento.
Para Pessoa, o poema deve ser pensado e depois
trabalhado pelo sentimento tomando por base
esse pensamento, bem de acordo com os preceitos
clássicos:
"Nenhuma
arte é grande se não nos toca
o pensamento em todos os pontos, tanto pelo
sentimento, como pela razão."
O
ensaio chega ao fim com Fernando Pessoa, repetindo
que "...verdadeira arte decadente é
a dos românticos", e que o exagero
do sentimento poético chega a fatigar
o leitor, citando inclusive, Victor Hugo e seu
poema "Ce que dit la bouche d'mbre"
que, se utiliza da opinião da qual, sendo
enorme, poderia ter tranqüilamente um quinto
de sua extensão, porque a mensagem central
é mínima e simples diante de tanta
pompa e ornamentação que só
giram em torno de lamentações
através do exagero de sentimentos poéticos.
Termina acusando os decadentes de prosaísmo,
como que sintetizando todas as qualidades a
eles já atribuídas que, sejam
quais forem suas variantes, transmitem exatamente
a mesma idéia: a de que, ao seu modo
de entender, depois da poesia clássica
toda essa liberdade da forma de criação
poética misturada a sentimentos condizentes
ao homem só possibilitaram o estabelecimento
da perturbação poética
sob a forma de sobreposição de
palavras desconexas e incoerentes. Essa pode
ter sido uma posição radical,
no entanto, repetindo mais uma vez, depois de
tantos argumentos plausíveis e brilhantemente
desenvolvidos, por mais que tenhamos contra-argumentos
até de defesa ao movimento dos "poetas
contempladores da grande Natureza", nos
deixamos, ironicamente, seduzir e envolver completamente
pela retórica clássica e intocável
de Fernando Pessoa.
"O
poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente"
(Fernando Pessoa)
Meire
Oliveira Silva
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