Í N D I C E
1.INTRODUÇÃO
2. TEORIZAÇÕES SOBRE O PREFÁCIO
2.1 FUNCIONALIDADE
2.1.1 Função Demonstrativa
2.1.2 Função Sinestésica
2.1.3 Função Pertinente
2.1.4 Função Topológica
2.1.5 Função Didascálica
2.2 O PROBLEMA DA AUTORIA
2.3 O PREFÁCIO METAPOÉTICO
2.3.1 Visão Geral
2.3.2 Visão na Literatura Brasileira
3. OS PREFÁCIOS DE TUTAMÉIA
3.1 Funcionalidade Prática
3.2 Uma Hermenêutica da Aletria
4. CONCLUSÃO
5. BIBLIOGRAFIA
1 . INTRODUÇÃO
Os prefácios têm um valor de realização
que se pode julgar autônomo, em relação
à obra em que eles se inserem, são,
por vezes, determinadores autênticos de
como o autor realiza seus condicionamentos básicos
para a efetivação da obra de arte.
Entretanto, essa necessidade de ilustrar, de
teorizar sua produção não
é imperativa para o autor, ao contrário,
a necessidade de uma metalinguagem que determine
uma ambiência e justifique os propósitos
da produção está unicamente
na dependência do autor. Para manifestar
seu grau de consciência literária,
o autor recorre ao prefácio a fim de
determinar: o conhecimento intencional depositado
no material literário; o elenco de técnicas
ai atuantes; seus procedimentos práticos;
sua função de realização
no todo ou em partes da obra.
Tradicionalmente, o prefácio manteve-se
em funções não delineadas
pela Teoria Literária. O que se pretendeu,
neste trabalho, foi a formulação
e denominação dessas funções,
fazendo com que os prefácios - antes
marginalizados da Teoria - integrassem os estudos
literários de modo mais sistemático.
Procurou-se, também, uma adequação
da teoria apresentada a vários prefácios
literários, especialmente aos "Prefácios"
de Tutaméia (Terceiras Estórias)
de João Guimarães Rosa.
2. TEORIZAÇÕES SOBRE O
PREFÁCIO
A idéia que a palavra "prefácio"
transmite, pelo étimo a que se prende,
pode não coincidir com o uso que é
dado à realidade que ele representa.
O prefácio (do latim = praefatio) designaria
aquilo que foi feito para introduzir algo que
vem depois de si. sua relação
de proximidade com o prólogo (do grego
=prologoV , via latim = prologu) é de
natureza sinonímica, tendo em vista que
ambas as palavras queriam designar a mesma função
introdutória. Indistintamente, portanto,
os dois conceitos se fundem numa designação
tradicional da mesma função que,
só historicamente, e de modo remoto,
haveria de distinguir-lhe o uso. É verdade
que houve uma distinção do profano
e do litúrgico que repercutiu no uso
dessas palavras. Usava-se, com rigor - normas
latinas - o termo "prefácio"
para aqueles livros cujo conteúdo abrangia
uma matéria de caráter religioso.
Essa distinção, entretanto, crê-se
mais apegada ao repúdio da cosmovisão
pagã do helenismo e da latinização
teológica do que a uma significativa
distinção semântica. Dessarte,
haveria de prevalecer a pluralidade significativa
da idéia e não a abstenção
preconceituosa de um "parti pris".
A denotação do termo "prefácio"
se mantém para além dos séculos,
sua conotação, entretanto, sente-se
adequada à medida do seu uso e das circunstâncias
do uso. Isto significa que o prefácio
é aquilo que diz, não obstante
se distinga das circunstâncias do seu
uso, tais como: nas áreas retórica,
jurídica, monográfica, dramática
e literária.
Particularmente, na área literária,
o prefácio se envolve com várias
outras finalidades que vão além
da simples tarefa de introduzir uma obra literária.
Da simplicidade de sua função
denotativa e tradicional o prefácio foge
para outros rumos, chegando até mesmo
a configurar-se como síntese de um modo
de conceber a arte literária. Isso deve
ser destacado, tendo em vista um desvio do tradicional
comportamento retórico para um outro
de feição metapoética.
2.1 FUNCIONALIDADE
A existência do prefácio na cultura
ocidental remota à arte retórica
helênica. A oratória grega o incluía
como parte fundamental dos discursos que, vistos
numa perspectiva dicotômica, eram dispostos,
canonicamente, em princípio e fim. Essa
disposição
visava à ordenação do discurso
em relação ao efeito que deveria
suscitar nos ouvintes.
A cultura grega determinava uma denominação
à parte inicial de cada tipo de arte.
Assim, o proêmio precedia o canto (oimé)
na poesia arcaica dos aedos; o exórdio
precedia o discurso oral; o prólogo precedia
a poesia dramática; o prelúdio
precedia a poesia lírica, etc. ... Não
importando, aqui, a riqueza de denominações,
o que se salienta é a finalidade desse
discurso introdutório, ou seja: regrar,
canonizar a inauguração ou a introdução
da arte a ser elaborada. Como disse Roland Barthes,
essa finalidade existia para evitar a espontaneidade
no uso da palavra.
Aristóteles, na sua Arte Retórica
(Livro III, cap. XIV), desenvolve uma primeira
teorização sobre o prefácio.
Ao falar do exórdio, determina-lhe conceitos
e funções que, adaptando-se às
medidas particulares, são transferíveis
para todos esses "discursos introdutórios".
Como conceito operacional, os prefácios
são vistos por Aristóteles como
"discursos demonstrativos" (III, §
1). Nesta noção cabe a metalinguagem
aristotélica que afirma serem os prefácios:
a."...começos que, por assim
dizer, abrem o caminho do que vai seguir".
(III, § 1);
b."...cabeça ao discurso, que
é uma espécie de corpo".
(III, § 8).
A observação levou Aristóteles
a delimitar certas finalidades do exórdio
que, mutatis mutandis, poderiam servir como
funções para o prefácio.
o que se fará é uma sistematização
das idéias de Aristóteles, propondo
cinco funções (demonstrativa,
sinestésica, pertinente, topológica
e didascálica) que procurem dizer a funcionalidade
geral dos prefácios.
2.1.1 Função Demonstrativa
Pela demonstração que se faz do
assunto a ser tratado no corpo da obra, indicando-o,
de modo sintético, objetivando os propósitos
da obra e do autor é que se pode determinar
a função demonstrativa do prefácio.
No dizer de Aristóteles, essa seria "a
função mais indispensável".
Tem-se observado que esta função
é conservada em quase todos os autores.
Tradicionalmente, sua marca é o interesse
que tem os autores em explicar a razão
de ser da obra, seu significado e, por vezes
, a sua origem. Através desta função
é que se revela porque a obra foi escrita.
Com apoio na concepção aristotélica,
o que chamamos de função demonstrativa
identifica-se com a razão de ser do prefácio,
seu fator essencial é a explicação
de temas, motivos e outros elementos.
A função demonstrativa não
se pretende crítica; é mais justificativa.
Sem ser caracteristicamente metalinguagem do
processo de criação ela funciona
como uma pequena prestação de
contas do autor que, de modo despretensioso,
introduz o leitor para a façanha artística.
Pode-se afirmar, pela adesão dos autores
a esta função, que a demonstração,
como funcionalidade nos prefácios, é
o ponto de interesse geral dos autores que se
utilizam de prefácios.
2.1.2 Função sinestésica
Há prefácios que ultrapassam a
comum função demonstrativa. Procurando
"alcançar a docilidade"
do leitor, ou "obter a benevolência"
(Aristóteles. Arte Retórica. III,
§ 7) há prefácios que se
configuram numa espécie de persuasão.
O objetivo é conquistar a atenção
do leitor para o ângulo de visão
do autor. É uma forma de instituir uma
adequação entre emissor e receptor
no que diz respeito à mensagem que se
estabelece na obra.
Esta função se baseia numa aproximação
de leituras do autor e do leitor. Constitui-se
numa tentativa de estabelecer pontos de contato
com aquilo que no livro "não deveu
caber", como diria Guimarães Rosa.
Denomina-se de função sinestésica
pelo fato de que o autor do prefácio
busca estabelecer um campo univisual da percepção
da obra, que se identifique com o seu. É
sinestésica neste sentido: a percepção
do leitor deverá fazer conjunto com a
do autor, uma univisão que dará
sentido à obra.
O que se observa, a par da função
sinestésica, é a existência
de certos truques que visam ao convencimento
do leitor a fim de que sua benevolência
seja obtida. Esse processo de persuasão
revela que, nesta função, o autor
demonstra uma presença de espírito
maior, uma vivacidade e uma racionalização
mais acentuadas que, "querendo comprar"
a percepção do leitor, mostra
uma atenção maior depositada ao
prefácio.
2.1.3 Função Pertinente
Partindo-se do que afirmava Aristóteles:
"Convém não esquecer que
todas as considerações deste gênero
são alheias ao discurso" (III,
§ 8), pode-se compreender o sentido da
pertinência atribuído aos prefácios.
Há um traço que distingue o que
se diz no prefácio e o que está
dito na obra. Entre esses dois discursos existe
uma diferença: o ser da ficção
(obra literária) e o ser do prefácio
(discurso paralelo). O prefácio não
quer ser a ficção e, conseqüentemente,
dela se acha localizado numa posição
externa, fora da ficção. Este
é um traço distintivo, pertinente.
A importância deste caráter (importância
= pertinência) gera a autonomia do prefácio.
Embora sendo parte de um todo que é a
obra, ele não deixa de se constituir
num todo, numa autonomia, o prefácio
é o que é, embora se oriente para
a obra, tecendo considerações
gratuitas.
A gratuidade do prefácio é outro
elemento que distingue a pertinência do
prefácio. Por si só, a obra não
precisa de outros discursos que auxiliem a legibilidade
do que ela diz. A obra independe do prefácio.
Nesse sentido é que todo prefácio
é matéria inútil ou gratuita.
Não há lugar para o prefácio
que não se vincule a uma obra, o prefácio
em si, sem o vínculo com a obra, é
um vazio autônomo. Ele precisará,
portanto, unir-se à obra, falando dela
para que tenha existência literária.
Mas tudo o que diz o prefácio é
dispensável à obra. Resta, assim,
ao prefácio delimitar se na gratuidade
e autonomia, pois são esses os elementos
de sua pertença.
Assim, a função pertinente se
caracteriza pela autodeterminação
do prefácio. Baseia-se no fato de que
o prefácio é matéria gratuita,
autônoma e que, voltando-se para a obra,
na realidade só tem sentido em si.
4.Função Topológica
A partir de Aristóteles, tudo o que se
fez para delimitar e conceituar o prefácio
não passa de repetições
que em nada inovam a noção do
prefácio, o uso do prefácio passa
a ser constante na narrativa como na tradição
retórica. Poder-se-ia dizer que, assim
como nos poemas dramáticos e épicos
a existência do prólogo era funcional,
na prosa ele se tornaria um ornamento que dignificaria
melhor a obra, dando-lhe a idéia de completa,
inteira aos cânones da arte. Essa inclusão
das partes do discurso retórico nos demais
gêneros literários se deve, como
disse Curtius, à decadência de
certas "cidades-estados gregas e da
república romana", que implicou
o desaparecimento dos discursos oficial e forense,
da realidade política, indo impregnar
a poesia e prosa da época. Desse modo,
completa Curtius, "Assumem, assim, os
topoi uma nova função: transformam-se
em clichês de emprego universal na literatura,
e espalham-se por todos os terrenos da vida
literária".
Os topoi de que fala Curtius, são
os argumentos que, comumente eram usados em
cada uma das partes do discurso e que tinham
por finalidade tornar aceitável a proposição
declinada. Para cada parte do discurso haveria
um topos adequado que atenderia a um fim desejado.
Assim, o exórdio estaria baseado numa
série de argumentos (topoi), lugares
comuns que lhe serviam de construção.
Para Curtius, o topos não é o
exórdio, mas aquilo que o pode formar.
Entretanto, pode-se vislumbrar aqui, uma outra
função para os prefácios:
a função topológica.
O uso retórico do prefácio na
prosa se constitui num hábito tradicional.
A sua função como discurso introdutório,
tornou-se uma redundância ao todo da narrativa
que, por si mesma, já exigia uma introdução,
um desenvolvimento e uma conclusão. O
prefácio estaria sendo, conseqüentemente,
uma peça ornamental, um discurso não
mais introdutório na sua essência,
mas um "discurso paralelo" um lugar
comum que a tradição viria consagrar.
Assim, o prefácio se transformaria num
topos da narrativa, isto é, "um
clichê de emprego universal na literatura"
(Curtius).
5.Função Didascálica
Há prefácios que, gratuitamente,
se pretendem peças de Crítica
Literária, muito embora estejam desprovidos
de elementos de juízo que determinem
um valor da obra a qual se vinculam. Para esse
tipo de prefácio, Gilberto Mendonça
Teles usou o termo autocrítica
para denominar-lhe a função. O
termo adotado é reconhecido pelo nomeador
como envolvido de implicações
psicológicas e subjetivas que causariam
uma inadequação terminológica
ao fenômeno descrito.
Para formalizar um objeto, deve-se observar
o seu modo de ser, o modo de utilização
do prefácio é que determina sua
função. Assim, pode-se constatar
que esses prefácios que se pretendem
Crítica Literária, na realidade,
funcionam como uma pedagogia da leitura, oferecendo-se
como método de interpretação
àquilo de que eles falam.
A existência desse tipo de prefácio
só tem sentido quando o seu autor é
o mesmo da obra literária. Percebe-se
nesse tipo de prefácio um caráter
de confidência do autor. Mas o tipo de
confidência apresentada não é
intimista e sim objetiva em relação
ao critério de valores em que a obra
se plasma, lembrando as instruções
programadas de uma pedagogia do conhecimento.
Parece, portanto, que esta função
tem um caráter mais didascálico
que crítico, tendo em vista que ela se
aproxima, analogicamente, das tradições
helênica e latina, onde se fazia uma auto-interpretação
baseada em esquemas que orientavam os comentadores
para a interpretação das obras
literárias. Por esta razão, prefere-se
a denominação de função
didascálica que parece não estar
viciada de outras implicações.
(Caso se prefira outra denominação,
adequada ao conceito latino de accessus,
essa função poderia ser accessória!)
Todas as funções apresentadas
podem atuar isolada ou simultaneamente nos prefácios.
A atuação dessas funções
será mais completa à medida que
tornar o prefácio satisfatório
ao leitor, abrindo-lhe caminhos para leituras,
mantendo seu limite de "discurso paralelo",
além de provocar uma integração
entre texto e prefácio.
2.2 O PROBLEMA DA AUTORIA
Duas são as maneiras fundamentais de
se atribuir a autoria dos prefácios,
uma, em que o autor do texto literário
é o mesmo do "discurso paralelo",
outra, em que o autor é alguém
distinto do escritor a quem pertence a obra.
No segundo caso, o prefácio tem sua finalidade
como exercício de introdução
, como "carta de apresentação"
ou como campo livre para exercício da
crítica ou ensaio sobre a obra em questão.
É bem provável que este caso interesse
mais aos estudos críticos que ao objetivo
deste trabalho. Mesmo assim, deixa-se transcrito
o que diz Gilberto Mendonça Teles, aliás,
usual "prefaciador estranho à
obra":
"... o autor do prefácio é
uma pessoa que, motivos de amizade, de identidade
de princípios, de real ou suposto prestígio
intelectual, além de outros motivos facilmente
imagináveis, se vê ‘obrigado’ a
falar sobre a obra, enaltecendo-a, discutindo
diplomaticamente uma e outra passagem, mas nunca,
pela tradição, realmente fazendo-lhe
restrições críticas. Não
se pede prefácio a um ‘inimigo’... Em
muitos casos, o pedido de prefácio cria
constrangimentos recíprocos."
O que deveria ocorrer, no caso do "prefaciador
estranho à obra" – atuando como
crítico literário, oferecendo
caminhos para a leitura – seria algo que, normalmente,
não acontece: o prefácio crítico
só deveria aparecer a partir da segunda
edição da obra. Explica-se: primeiramente,
haveria de ser testado o grau de legibilidade
do texto. Essa hipótese se argumenta
com a
consideração que se faz do texto
literário como fundamental em si mesmo.
Já o prefácio cujo autor se confunde
com o mesmo da obra parece ser mais interessante
para um estudo dos procedimentos que, tanto
prefácio como autor, assumem neste pormenor.
A - Via de regra, o comportamento normal do
autor é revelar, no "discurso
paralelo", um sentimento de modéstia.
É perfeitamente cabível essa atitude
ao padrão tradicional, pois decorre daquilo
que pregava Aristóteles: "obter
a benevolência" ou "alcançar
a docilidade" do leitor. Muito comum,
nestas circunstâncias, o autor atribuir-se
como simples instrumento daquilo que, maior
que ele, procura falar ao espírito humano,
como se atesta no "Prólogo"
de Prosopopéia (1601) , de Bento Teixeira:
"... assim eu querendo dibuxar com obstardo
pinzel de meu engenho a viva imagem da vida
e feitos memoráveis de vossa mercê,
quis primeiro fazer este riscunho, pera depois,
sendo concedido por vossa mercê, ir mui
particularmente pintando os membros desta Imagem,
se não me faltar a tinta do favor de
vossa mercê, a quem peço, humildemente,
receba minhas Rimas, por serem as primícias
com tento servi-lo. E porque entendo que as
aceitará com aquela benevolência
e brandura natural, que costuma, respeitando
mais a pureza do ânimo que a vileza do
presente..."
A mesma atitude pode ser detectada no prefácio
de Música do Parnaso (1705), de
Manuel Botelho de Oliveira:
"Ao meu, posto que inferior aos de que
é tão fértil este país,
ditaram as Musas as presentes rimas, que me
resolvi expor à publicidade de todos,
para ao mesmo ser o primeiro filho do Brasil,
que faça pública a suavidade do
metro, já que o não sou em merecer
outros maiores créditos na Poesia."
Essa clássica atitude do autor, no prefácio,
revelaria também um comodismo ao padrão
tradicional. Provavelmente, por este sistema,
não obstante a "falsa modéstia",
o prefácio servia como instrumento de
ilustração do autor que, aí,
deslanchava em citações, prolixidades
ou devaneios fraseológicos que servissem
de antepasto à paciência do leitor.
Curioso, neste sentido, é o prefácio
da primeira parte de Dom Quixote (1605), onde
Cervantes se queixa contra "os ornatos
de prólogo" e "do inumerável
catálogo de costumados sonetos, epigramas,
e elogios, que no princípio dos livros
por aí é uso pôr-se".
Apesar do queixume, Cervantes confessa que a
"prefação" foi
o maior de todos os trabalhos, tendo em vista
que não consegue se libertar do tradicionalismo,
como diz em outra obra:
"Quisera, se fosse possível,
leitor amigo, deixar de escrever este prólogo
porque não me saí tão bem
no que fiz para o meu Dom Quixote a ponto de
querer um segundo prólogo."
Cervantes e outros serviriam de exemplo para
este comportamento que, no prefácio,
busca a benevolência do leitor, como atitude
das mais tradicionais na literatura.
B - Um outro comportamento comum dos autores
é acreditar que o prefácio é
matéria supérflua, não
obstante recorrerem a esse expediente como parte
de sua obra. Geralmente, alegando a ineficácia
do prefácio, os autores se utilizam deles
para impor aos leitores uma posição
assumida diante de algum elemento da sua narrativa,
como é o caso de Dostoiévski.
O prefácio de Os irmãos Karamázovi
(1880), é o exemplo deste procedimento.
Nele, Dostoiévski confessa-se "perplexo"
por ter que escrever um discurso introdutório
para justificar a escolha de seu herói
não notável. Acha que "em
vez de engajar-se nessas explicações
destituídas de interesse e confusas,
teria começado bem simplesmente, sem
prefácio... mas..."
Nesse mas está o truque persuasivo
do autor que, alegando ser "estranho
em nossa época, exigir clareza das pessoas!",
sente-se obrigado a clarificar as duas histórias
do romance, temendo a incompreensão do
leitor e da crítica russa, que ele denuncia
de imparcial. Tudo isso se faz presente naquilo
que ele chama de "palavras inúteis"
- o prefácio - que como tais, dizia ele:
"Convenho que é supérfluo,
mas já que está escrito, deixemo-lo".
A verdade é bem essa: na inutilidade
do prefácio está uma certa utilidade
literária.
C - Há prefácios que, curiosamente,
atraem a atenção do leitor para
a novidade que o autor ai deposita. Alguns atraem
pela maneira banal com que o autor dialoga com
o leitor, outros pela expressão descuidada
e coloquial, outros, ainda, pelo caráter
de verossimilhança que o autor deseja
atribuir à narrativa.
Uma novidade como a que Joseph Conrad chama
a atenção do leitor é extremamente
curiosa. No seu Lorde Jim (1900), a "nota
do autor" parece que foi escrita "uns
dezesseis anos" após a obra. Esse
truque serve-lhe como base para justificar a
duração da narrativa, que ele
supõe ter sido objeto de opinião
da Crítica. E o autor argumenta:
"Quanto à inverossimilhança
material, todos nós sabemos que certos
discursos do Parlamento duraram mais perto de
seis que de três horas, ao passo que toda
a parte do meu livro que comporta a narrativa
de Marlow pode-se, eu creio, ler em voz alta
em menos de três horas".
Empolgado em convencer que a Crítica
está sem razão, Conrad chega a
citar uma passagem extremamente inverossímil:
"... quanto à resistência
dos auditores... cumpre supor que foram servidos
refrescos naquela noite e que, para ajudar o
narrador, deram-lhe mesmo um copo de uma água
mineral qualquer."
Outro exemplo digno de nota, pela curiosidade
proposta ao prefácio, encontra-se em
Orlando (1928), de Virgínia Woolf.
Destaca-se aqui, a forma quase monográfica
do prefácio que, cheio de agradecimentos
a pessoas reais e a instituições
- como que estabelecendo uma veracidade da matéria
biográfica - procura impressionar o leitor
a acreditar na bissexualidade da personagem.
D - Para elucidar ou desvendar roteiros do texto
literário, possibilitando uma leitura
organizada (?) do texto, há prefácios
que, além de manter sua autonomia, carregam
um caráter heurístico fornecido
pelo próprio autor. Especificamente,
esta atitude diz respeito a um roteiro que serve
de prefácio à O Jogo da Amarelinha
(1968), de Julio Cortázar.
"Tabuleiro de Direção",
desde que encarado como prefácio, tem
a finalidade de idealizar o sistema de leitura
do próprio autor, dentro da duplicidade
de leitura que a obra oferece.
E - Muitas vezes, o prefácio escrito
pelo autor encerra processos de subterfúgio
da realidade do "eu" do escritor.
O pseudônimo é uma das fórmulas
mais comuns desse subterfúgio que tem
como fundamento a afirmação da
própria arte, enquanto processo de recriação.
O prefácio é um campo livre para
a dissimulação. Nele, o autor
pode se fazer transferido para suas personagens,
endossando-lhes o pensamento e a expressão,
chegando a ser um real duplo das personagens
de ficção. Por esses processos
de transferência se evidencia um grau
de distanciamento entre autor e obra, ao mesmo
tempo que são demonstrados traços
de verossimilhança entre o real e o fictício,
no campo extratextual dos prefácios.
A título de exemplificação,
veja-se o caso de Machado de Assis, no prefácio
"Ao leitor", em Memórias
póstumas de Brás Cubas (1881):
a personagem Brás Cubas subscreve sua
própria narrativa e prefácio.
Dessarte, evidencia-se a total transferência
do autor para a personagem.
Em Recordações do escrivão
Isaías Caminha (1309), Lima Barreto,
no prefácio intitulado "Breve Notícia",
mantém dois planos distintos dentro do
prefácio, a partir da sua segunda edição.
Um primeiro plano em que "Breve Notícia"
explica o procedimento da primeira edição,
recebendo a assinatura do autor. O segundo plano,
intercalado no primeiro, contextua o teor do
romance e deixa a subscrição do
prefácio da personagem Isaías
Caminha, que aqui se insere. Nota-se, neste
caso, a confluência de dois processos
explicativos, onde o autor se sobrepõe
à fala de sua personagem.
Mais um outro exemplo, encontrado em Memórias
sentimentais de João Miramar (1924),
de Oswald de Andrade. "À Guisa de
Prefácio" recebe a assinatura de
Machado Penumbra que explica o processo literário
de seu autor, João Miramar. Aqui, o real
autor, Oswald de Andrade, desaparece totalmente
para dar lugar às personagens-nomes da
sua obra, abrigando, assim, um recurso de distanciamento,
onde prefácio e texto literário
passam a pertencer a autores diferentes que
assinam "com a procuração"
de Oswald de Andrade.
Uma pergunta se impõe: haveria compatibilidade
entre o texto literário e o prefácio
do mesmo autor? Ou melhor, haveria razão
em o autor precisar de um "discurso
paralelo", sendo ele o próprio
criador do texto? Na realidade, se o objetivo
daquele que faz literatura é alcançar
o público através de seu texto,
isto é, do corpo integral da escritura
- portanto, prefácio à parte -
parece ilógica a utilização
de um "discurso paralelo" ao
seu real discurso. Um autor deve transmitir
sua criação no texto que ele idealiza;
para tudo que queira dizer basta criar o texto,
campo específico do autor.
Na perspectiva apresentada, a existência
de prefácios do próprio autor
seria uma demonstração de incoerência
do autor, quando não o reconhecimento
da ineficácia da obra. Se se entende
que o autor tem o território do texto
para se expressar, que sentido lhe fará
o prefácio?
O prefácio não é parte
estrutural da obra literária. Mesmo assim,
pode ter a funcionalidade que o autor desejar.
Por sua vez, a obra não se prende ao
formalismo e nem quer explicar-se tecnicamente,
porquanto é linguagem poética
e não metalingüística. Toda
obra é feita para justificar o que ela
transmite, mas não como transmite. Por
essa razão, a obra literária faz
sentido sem precisar do prefácio que,
mesmo lhe dando significação,
será sempre gratuito, inútil ou
- já que não é estrutural
à obra - simples ornato tradicional do
texto.
2.3 O PREFÁCIO METAPOÉTICO
A expressão "prefácio
metapoético" traz em seu enunciado
um caráter redundante, visto que o prefácio
já é uma forma de metalinguagem
do texto poético. Entretanto, o realce
serve para consolidar uma idéia diferenciadora
dos prefácios puramente ornamentais (dentro
das funções já especificadas)
e estes que, noutra função, propõem-se
a funcionar como reveladores da consciência
artística do fazer-poético.
O termo "metapoética" é
uma retomada da idéia de metapoema,
usada por Gilberto Mendonça Teles, para
significar o nível de explicação
- metalinguagem - que o prefácio estabelece.
Na realidade, o prefácio metapoético
exerce uma função a mais diante
do texto literário, querendo determinar
um grau de conhecimento, de consciência
técnica que o autor possui, enquanto
artista do texto. Por esta razão, deve-se-lhe
creditar maior atenção, pois,
à medida que são realizados, mostram
uma visão geral da arte literária,
possibilitando um estudo, através dos
prefácios metapoéticos, daquilo
que Tynianov denominava de "variabilidade
literária".
Não se pode esperar de todo artista uma
confidência do que para ele significa
a arte, nem mesmo uma obra que revele sua consciência
sobre o seu fazer artístico. Pode-se,
entretanto, afirmar que, quando o faz, sua arte
se propõe, logicamente, dependente dessa
concepção declarada e todo seu
poder criativo entra em fase de eterna recriação.
Essa dependência se vincula à visão
estética de Dufrenne que, associando
a finalidade da obra à sua imagem, propõe
uma adequação em linguagem bem
filosófica:
"... o telos do meu objetivo só
pode ser algo percebido, o eidos só pode
ser sensível. Além disso, serei
eu impotente para realizar o telos?"
Ora, o metapoema é um telos intencional
daquilo que, em proporções diferentes
representa a arte (eidos), isto é,
essência apreensível da realidade.
Portanto, uma determinação metapoética
- como é o caso dos prefácios
- será sempre uma meta a ser atingida
pelo autor e uma chave de resolução
perceptiva para o leitor.
A obra literária tem sentido em si mesma
porque, no seu todo faz um sentido e por uma
dedicação a ela, pode-se chegar
a reconhecê-la sem conhecê-la no
seu âmago. Uma forma de mediação
para o reconhecimento da arte é a sua
proclamação, fora dela mesma,
que induz ao encontro do seu fim específico:
ser expansão do belo. A proclamação,
nos prefácios metapoéticos é
uma forma de mediação entre os
propósitos do artista e da própria
arte. Nesse sentido, pode-se confirmar o valor
dos textos que explicam o literário,
pela orientação sugerida que leva
ao caminho do discernimento e da interpretação
da arte. Como o sentido da arte não está
todo na sua estrutura, ele pode extravasar para
seus elementos paralelos, no caso, para o prefácio
metapoético, um discurso paralelo.
O prefácio pode parecer um simples texto
que se situa ao lado de outro texto que lhe
é principal, entretanto, a aparente simplicidade
se converte em complexidade no momento em que
ele se apresenta mais explicativo do fenômeno
do qual depende. Na realidade, o prefácio
metapoético vale por uma poética,
no sentido que Henri Meschonic dá a esse
termo: uma consciência da prática
da escritura. Não se desligando da prática
da escritura, o prefácio metapoético
procura realizar uma teorização
no concreto, criando uma linguagem crítica
à experiência da arte. É,
portanto, uma proposição que serve
de apoio às investigações
literárias. Seu papel pode ser confundido
com o da Crítica, porquanto seu objetivo
é a explicação de outro
texto que lhe serve de objeto, propondo-lhe
uma avaliação a partir do sistema
de valores que o texto-objeto instaura, na sua
produção.
Apesar do texto do prefácio metapoético
poder constituir-se numa peça crítica,
seu caráter de prefácio - sempre
junto do texto literário - determina
seu confinamento ou sua marginalização
dos estudos literários, não sendo
um real texto da Crítica. Como bem disse
Gilberto Teles, "o seu lugar é
dentro, guardando relações
de contigüidade metonímica com o
texto principal, a que remete, num contato bastante
íntimo, principalmente de conteúdo,
a ponto de o prefácio às vezes
não passar de mera síntese e funcionar
como um aperitivo, isto é, um beberete
destinado a abrir, despertar o apetite do leitor".
2.3.1 Visão Geral
As literaturas estão cheias de prefácios
metapoéticos que mostram uma importância
significativa para as interpretações
literárias. Nas suas diversas funcionalidades,
o prefácio metapoético tem determinado
a reflexão que uma obra impõe
ao autor, a ponto de sentir-se "obrigado"
a fazer um discurso paralelo que revele a sua
reflexão. Muitos romancistas e poetas,
principalmente os norte-americanos, vieram a
exercer a função de crítico
literário, em decorrência da reflexão
que a arte lhes impunha.
Henry James, cuja preocupação
pela técnica da ficção
ajudou a tornar-se bom crítico literário,
destacou-se, sobremaneira, pelos seus prefácios
metapoéticos. Baseando-se na idéia
de que "o esforço destinado a
descobrir o verdadeiro e representá-lo
não é tarefa inútil, em
face da constante força favorável
à desordem e à confusão"
(Prefácio de What Maisie Knew),
James creditava ao autor uma seriedade que devesse
refletir a consciência da sua arte. Esse
brio pela seriedade da construção
artística é que o leva a elaborar
prefácios que revelassem da obra "uma
teoria, uma convicção – a consciência
de si mesma – de ser a expressão de uma
fé artística, o resultado de escolhas
e comparações".
A força metapoética dos prefácios
de James faz com que ele os colecione numa obra
à parte, de caráter crítico,
destituindo seu valor de discurso introdutório
e marcando-os como "discursos críticos".
Seria esta uma posição do crítico
ou do ficcionista? No caso dele, especificamente,
essas duas figuras se fundem numa só
realidade:
"A ficção deve ser levada
a sério pelo escritor, a fim de que o
público também a leve".
Essa consciência da arte, refletida, convicta,
poderia ser também vista em autores como
T. S. Eliot, Walt Whitman, Edgar Allan Poe,
Nathaniel Hawthorne, pois neles, como em muitos
outros, encontra-se uma inclinação
para a autocrítica das relações
do fazer literário que, segundo Michel
Butor, "consiste em esmiuçá-las,
em esclarecê-las a fim de que se possa
extrair de cada obra particular todo o seu ensinamento".
Entretanto, pela maneira bem diferente com que
dois prefácios metapoéticos se
apresentam, acredita-se que melhor análise
possa ser feita em Pirandello e Oscar Wilde.
O modo de ser do "Prefácio"
de O Retrato de DorianGray (1891) se distingue
pela sutileza das proposições
estéticas com que Wilde replica as possíveis
refutações críticas (que
se tornariam realidade) oriundas de leituras
psicológicas ou autobiográficas.
Baseando na tradicional concepção
"arte pela ‘arte’ ", Wilde
alerta o leitor para os possíveis desvios
da leitura que levariam à compreensão
unilateral da obra, e um conseqüente afastamento
da leitura estética, enquanto captação
"das coisas belas". E como, nos prefácios,
compete ao autor dimensionar uma proposta de
leitura - função sinestésica
do prefácio -, Wilde assume a posição
determinante que favorece a arte como expressão
da Beleza. O ponto central do "prefácio"
parece estar na visão subjetiva imposta
à Beleza que se apoia no perfeccionismo
artístico: "Os livros são
bem ou mal escritos. Eis tudo". Ora,
a sutileza do tom retórico-persuasivo
com que Wilde norteia a leitura, constrói
uma concepção que reflete o modo
como o romance fora idealizado: para provocar
uma sensação, independente da
matéria formal ou conteudística.
Neste sentido, o que se poderia imaginar de
artístico (arte=técnica), de artesanal,
estaria sem valor: "Toda arte é
completamente inútil".
A visão de Wilde é, esteticamente,
uma radicalização do imanentismo
da Beleza na arte, resultando daí a afirmação
de que "Existem os eleitos para os quais
as coisas belas significam unicamente Beleza".
E a finalidade do artista, segundo ele, é
criar coisas belas. Está aí, portanto,
uma ordenação das relações
texto-autor-reflexão expostas num prefácio
que, como discurso introdutório, estabelece
uma proposição de leitura.
Bem diferente é o caso de Luigi Pirandello,
no "Prefácio" de Seis personagens
à procura de um autor (1921), que
procura repudiar a arte já feita, gratuita,
para buscar uma realidade nova àquilo
que está sem vida na arte. Pirandello
revela o cansaço que teve sua "Fantasia"
("empregadinha muito ágil a serviço
da arte") ao propor a "má
inspiração" de um drama
com personagens já criadas. A rejeição
desse "fait accompli" fará
do prefácio uma verdadeira representação
do trágico processo de criação
do autor que procura antecipar o realismo e
ilusão do texto literário.
Pelo prefácio, Pirandello explica que
sua concepção de arte não
permite apenas a representação
do existente, do que já é real,
ao contrário, tende para criar o irreal,
o que ainda não existe, emprestando a
essa matéria "um sentido particular
da vida, com que tudo assume um valor universal".
Ora, as seis personagens apresentadas pela Fantasia
já tinham suas próprias vidas.
O autor as criou vivas e elas queriam viver,
apresentando-se nos momentos de solidão
do autor, propondo-lhe cenas e efeitos para
"situação tão insólita".
Para demonstrar sua oposição à
arte simbolista, "onde a representação
perde por completo seu movimento espontâneo,
tornando-se máquina, alegoria",
e proclamar a consciência de que é
possível criar a vida por artifício
de representação, Pirandello aceita
suas personagens como são, - recusadas
-, deixando-as ao sabor do seu drama. Na realidade,
o prefácio quer ressaltar aquilo que
de mais importante existe na concepção
estética e filosófica de Pirandello:
"Tudo o que tem vida, justamente pelo
fato de viver, possui forma e, por isso, está
sujeito a morrer. Com a obra de arte, porém,
acontece o contrário: ela se perpetua
viva, justamente porque é a forma".
Assim, como se pôde ver, os prefácios
metapoéticos conseguem revelar a consciência
criadora, artística do fazer-poético.
Eles são os indicadores que orientam
a leitura cabível aos propósitos
do autor e a outras leituras possíveis,
dentro dos parâmetros que a obra sugere.
Através deles pode-se, também,
distinguir-se as mais diversas concepções
artísticas existentes de autor para autor,
de época para época, favorecendo
ao crítico e ao historiador da literatura
uma visão do comportamento evolutivo
da arte literária.
2.3.2 Visão na Literatura Brasileira
Está por ser aprofundado, nos estudos
literários, um capítulo que analise
a evolução conscientizadora da
arte, através dos prefácios metapoéticos.
Um primeiro passo foi dado pelo Prof. Gilberto
Mendonça Teles, em 1971, com o trabalho
"A Poesia da Crítica - um conceito
de metalinguagem na poesia brasileira".
Aí, o autor estuda o procedimento metalingüístico
dos poetas do início ao Romantismo da
poesia brasileira, anotando o processo da manifestação
criadora. Em1977, o autor destas linhas procurou
analisar esse processo de conscientização
poética, estendendo-se até o Modernismo
brasileiro. Daí, a síntese apresentada
neste trabalho.
Como já se viu, os textos que falam dos
textos, sob formulação teórica,
não são enquadrados como literários.
A expressividade de tais textos tem se confundido
como apreciação crítica,
visando à forma de juízo ou mesmo
de antecipação daquilo que representa
o modo de criação do autor. Vários
foram os autores que dignificaram suas obras
com textos que serviam de apoio ao entendimento
dos seus textos literários. Pelo fato
de não serem considerados literários,
esses textos foram utilizados apenas para exercer
um papel ancilar à literatura desses
escritores. Assim, os prefácios deveriam
sugerir uma formulação estruturada
e fundamentada num padrão que demarcasse
seu modo de ser, com uma tessitura que fosse
homogênea, sistematizada e de um claro
objetivo, como nos prefácios monográficos.
Mas, os prefácios - como linguagens que
são - podem surpreender por aquilo que
o autor queira apresentar de criativo. Seja
inovando seu tradicional objetivo, fugindo do
lugar comum das rotineiras apresentações,
ou deixando de lado as meras explicações
de temas, o prefácio pode se constituir
num texto de estimado valor literário,
não obstante o rótulo de não-literário.
A verdade é que, se realmente são
linguagens, aos prefácios tudo pode acontecer,
como aos textos literários.
Considere-se que, na Literatura Brasileira ,
há um grande número de prefácios
que seguem a vários propósitos
de apresentação, explicação
criativa, servindo de painel de controle para
os leitores, ou funcionando como metalinguagem
daquilo que os textos literários expressam
na especificidade de sua linguagem. Pode-se
também considerar que a inauguração
de novos estilos literários, no Brasil,
seguiu à tradição, apresentando
textos que servissem de plataforma ao estilo
que se introduzia na literatura.
Do Barroco colonial às várias
vanguardas da atualidade, o prefácio
tem sido uma forma de testemunhar o "modus
faciendi" do autor ou da literatura então
proposta. Tais textos compreendem elementos
de uma poética literária. São
portanto poéticas de certos autores,
ou grupo de autores, ou ainda, poéticas
de uma época literária. Por esses
prefácios pode-se observar a evolução
da arte na sociedade, examinando o modo como
a arte literária se torna mais consciente
para os autores, num ajuste da literatura à
história das idéias.
O problema da consciência da obra de arte,
tal como é visto por Walter Benjamin,
caracteriza uma modernização no
sistema da arte, em oposição ao
tradicional. Como diz Merquior, essa modernização
implicaria "a passagem de uma concepção
mágica para uma concepção
lúdica da arte". Pela concepção
moderna da arte, o artista se sente responsável
pela consciência do saber-fazer artístico.
Por ela promove "choques" que revelam
sua consciência na criação
poética. Diz Benjamin que "Baudelaire
colocou..., a experiência do choque no
próprio centro do seu trabalho artístico".
Isso significaria uma substancial mudança
da concepção lírica tradicional
para a moderna, tendo como base a consciência
na criação.
No caso brasileiro, pode-se acompanhar, através
dos prefácios, esse ajuste à história
das idéias, ou seja, de como a concepção
mágica da arte tornou-se lúdica.
Para uma rápida amostra desse fenômeno,
fez-se uma síntese dos prefácios
do Barroco colonial ao Modernismo, que evidenciam
essa mudança de concepção
literária.
a) Considerando "o primeiro livro impresso
de autor nascido no Brasil", encontramos
no prefácio de Música do Parnaso
(1705), de Manuel Botelho de Oliveira, a concepção
da arte doada pelo transcendente. Uma posição
que reflete a contribuição tradicional
que herdara das idéias da época,
procedentes do mundo europeu. Diz o autor, no
prefácio:
"Ao meu, posto que inferior aos que
é tão fértil este país,
ditaram as Musas as presentes rimas, que me
resolvi expor à publicidade de todos,
para ao menos ser o primeiro filho do Brasil,
que faça pública a suavidade do
metro, já que o não sou em merecer
outros maiores créditos na Poesia".
b) No Arcadismo, as Obras (1768) de Cláudio
Manuel da Costa são publicadas com um
"prólogo ao leitor", onde o
poeta comenta que a distância da Pátria
prejudicara, talvez, o tratamento com as Musas.
Desculpa-se do leitor por achar que:
"o gênio me fez propender mais
para o sublime".
Pode-se observar, também, no prefácio
das Obras, um elemento quase que comum aos prefácios:
a contextualidade (Coimbra e Brasil) e a intertextualidade
(Teócrito, Virgílio, etc.).
c) Um passo à frente nessa conscientização
do fazer poético, embora com suas contradições,
encontra-se no prefácio de Suspiros
poéticos e saudades - (1836), de
Gonçalves de Magalhães. Nele estão
presentes o caráter reformista e a proclamação
do momento, em detrimento do passado classicista:
"Até aqui, como só se
procurava fazer uma obra segundo a Arte, imitar
era o meio mais indicado: fingida era a inspiração,
e artificial o entusiasmo. Desprezavam os poetas
a consideração se a Mitologia
podia, ou não, influir sobre nós.
Contanto que dissessem que as Musas do Hélicon
os inspiravam, que Febo guiava seu carro puxado
pela quadriga, que a Aurora abria as portas
do Oriente com seus dedos de rosas, e outras
tais e quejandas imagens tão usadas,
cuidavam que tudo tinham feito, e que com Homero
emparelhavam; como se pudesse parecer belo quem
achasse algum velho manto grego, e com ele se
cobrisse! Antigos e safados ornamentos, de que
todos se servem, a ninguém honram."
Magalhães se conscientiza do uso de termos
estrangeiros à língua portuguesa
e observa que "as línguas vivas
se enriquecem com o progresso da civilização
e das ciências, e uma nova idéia
pede um novo Termo". Já era,
portanto, uma concepção moderna,
em relação ao clássico
ou neoclássico.
A concepção artística do
Romantismo ainda não tinha evoluído
no verdadeiro sentido da técnica. Entretanto,
em Gonçalves Dias, nota-se uma consciência
maior. Os Primeiros Cantos (1846) vêm
prefaciado pelo autor que se autodetermina a
menosprezar "regras de mera convenção",
a adotar "todos os ritmos da metrificação
portuguesa", usando deles "como
me pareceram quadrar com o que eu pretendia
exprimir", de tal modo que compreende
a Poesia como o casamento do "pensamento"
com o "sentimento". Não
se pode negar o alto grau de conscientização
artística que existia em Gonçalves
Dias.
Pode-se examinar a concepção da
arte, no Realismo brasileiro, através
de dois prefácios de Machado de Assis:
o de Memórias Póstumas de Brás
Cubas (1881) e o de Ressurreição
(1872). Neste último prefácio,
revela-se a aguda visão do artista que
não se sente gênio ou inspirado
pelas Musas, mas, ao contrário, entende-se
como artesão, ou como ele mesmo diz,
"operário" das difíceis
tarefas literárias, "quando as
perfaz a consciência".
Machado de Assis tem a consciência de
que o tempo - indicador de maturidade - confere
ao autor uma maior aprendizagem... "e
eu incluo no tempo a condição
do estudo, sem o qual o espírito fica
em perpétua infância",
diz Machado, revelando uma prioridade: o primado
da razão (técnica) sobre a emoção.
No prefácio de Brás Cubas, Machado
propõe um desarranjo ao uso tradicional
do prefácio. Consegue "angariar
as simpatias da opinião", esvaziando
a função usual do prefácio
- relatar o processo de composição
-, minimizando o prefácio e superestimando
a obra:
"O melhor prólogo é o
que contém menos cousas, ou o que as
diz de um jeito obscuro e truncado... a obra
em si mesmo é tudo...".
Não há dúvida que a atitude
de Machado de Assis seja a de provar a coerência
do seu prólogo que "não
se parece com esses prólogos",
ou ainda, demonstrar que sua consciência
literária já se modernizara.
e) Da poesia parnasiana o bom exemplo ainda
é "Profissão de Fé"
que, prefaciando em versos as Poesias
(1888), determina o grau de consciência
artesanal de Olavo Bilac e seus seguidores.
É a forma de definição
da Forma que o leva a torcer, aprimorar, alterar
e limar seu material expressivo. A tarefa do
parnasiano é tal qual a do ourives; procura
cingir "ao corpo a ampla roupagem";
trabalhar horas a fio o pensamento. Em síntese,
esse pórtico que se considera prefácio,
é o "juramento apoético"
– como diz Bosi - da definição
da palavra como algo que não se identifica
com a substância das coisas, mas "veste-a
magnificamente".
f) Uma ausência de prefácios que
determinem a consciência estética
da arte marcará o Simbolismo brasileiro.
Decorrentemente, a dificuldade de estabelecer
um comportamento do fazer-poético simbolista,
através dos discursos paralelos, é
fato evidente. As descrições da
arte simbolista se voltam para o próprio
objeto que elas representam e não para
uma meta generalizadora da criação,
constatável em manifestos, propostas
ou prefácios. Nem mesmo, aqui, poder-se-ia
fazer, como no Parnasianismo, recorrer a um
poema pórtico que nos servisse de roteiro
para exame da concepção artística.
Ocorre que a "Antífona",
de Broquéis (l893), de Cruz e
Sousa, não estabelece uma visão
apriorística de sua arte, mesmo que se
queira interpretá-la sob o caráter
funcional das antífonas musicais.
O que se nota no Simbolismo é uma diferença
de concepção da arte, de autor
para autor. Essa observação, já
constatada pela crítica, pode ser um
reflexo da ausência de prefácios,
cuja função metalingüística,
no caso, seria reclamada.
g) O Modernismo, opostamente ao Simbolismo,
tem declaradas suas propostas e concepções
da arte. Fixar-nos-emos no "Prefácio
Interessantíssimo" de Paulicéia
Desvairada (1922). Nele, Mário de
Andrade, o principal esteta do movimento, declara
a consciência da arte.., e do prefácio:
"Este prefácio, apesar de interessante,
é inútil".
Interessante (ou interessantíssimo, como
diz o título) em relação
à plataforma estética aí
apresentada. Inútil, por ser desnecessário,
como diria Machado de Assis, ou porque "a
obra em si mesma é tudo", deixando
entrever a concepção que a anima,
como aconteceu ao Simbolismo.
Pelo ""Prefácio" nota-se
o controle que o artista faz da "inspiração",
gritando um "alto lá!"
de contenção lírica, à
medida que ordena o caos da atuação
técnica.
As explicações teóricas
dadas aos versos usados e à utilização
da linguagem fazem parte do didatismo tradicional
imposto ao prefácio, como também,
demonstra o grau de conhecimento estético
da arte moderna, do poeta Mário de Andrade
e dos que o seguiram.
O que se tentou nesta análise serve para
demonstrar um papel do prefácio metapoético
na literatura: ser, além da obra, testemunho,
certidão, do modo como a arte foi encarada
por uma época. Este papel se justifica
à medida que compreendemos que um dos
processos de formação da série
literária coincide com a aproveitamento
ou rejeição de uma literatura
anterior. Nesse sentido, o papel que os prefácios
desempenham serve para espelhar a concepção
literária e seus objetivos, de uma para
outra época. Isto pode servir de base
para os estudos da Crítica, devido à
possibilidade de confronto entre o padrão
teórico, apresentado nos prefácios,
e a sua prática textual.
3. OS PREFÁCIOS DE TUTAMÉIA
A razão de ser deste estudo, como se
pôde ver, está voltada para o prefácio
literário. Procurando analisá-lo
na sua natureza e função, tentou-se
teorizar sobre este elemento, até então,
quase marginalizado das preocupações
literárias. A intenção,
ao sistematizá-lo, visava à elaboração
epistemológica que servisse de suporte
para uma análise específica de
um corpus: Os prefácios metapoéticos
de João Guimarães Rosa.
Os textos nomeados de "Prefácios"
pelo próprio João Guimarães
Rosa (JGR), incluídos na obra Tutaméia
- Terceiras Estórias (1967) serão
objeto deste capítulo cuja meta será
o exame da sua significação, finalidade
e comportamento da linguagem, a partir de um
confronto de opiniões críticas.
Em 1968, meses após a publicação
de Tutaméia, Paulo Rónai
analisava a última obra de JGR, em dois
artigos: "Os Prefácios de Tutaméia"
e "As Estórias de Tutaméia".
Ali, o crítico deu fortes e decisivas
interpretações à obra rosiana,
geradas de um diálogo com o próprio
escritor e da sua arguta percepção
crítica. Certeiramente, Rónai
conseguiu sintetizar as estórias e os
prefácios, revelando muita coisa a ser
utilizada pelos críticos que lhe vieram
atrás.
Do mesmo crítico, encontra-se outro estudo,
mais abreviado e didaticamente destinado ao
conhecimento dos "leitores jovens".
Sobre os "Prefácios", diz Rónai
à página 150, que:
"... são revelações
íntimas sobre si mesmo e a gênese
de suas obra, ditando uma profissão de
fé e uma arte poética. Comunicados
por meio de rodeios, voltas e perífrases,
sob forma de alegorias e parábolas, esses
quatro prefácios constituem na verdade
um único posfácio, não
a Tutaméia, mas a toda obra."
Dez páginas à frente, Paulo Rónai,
detendo-se mais especificamente sobre Tutaméia,
emite o seguinte parecer:
"É um conjunto de quarenta e
quatro contos pequenos, quatro dos quais desempenham
também o papel de prefácios. É
nestes que, pela primeira vez, condescende em
explicar-se; mas, como que arrependido ao mesmo
tempo de romper um longo silêncio, envolve
as suas confidências em tantas véus
de circunlóquios e metáforas que
essa auto-interpretação acaba
por tornar o livro ainda mais hermético".
-(pág. 160).
Opinião diversa encontra-se no "Post
scriptum" (1968) do livro de Mary Lo Daniel
que, coerente às análises retórico-estilísticas
de sua obra, afirma serem os quatro prefácios
aquilo que mais chama a atenção
do público, pela revelação
"em forma sucinta" de aspectos
do seu ideário e "vislumbres
íntimos do seu processo criador".
No parecer de Mary Daniel, em Tutaméia,
JGR revela a chave da compreensão de
toda sua obra ao leitor:
"Assim é que o autor faz o possível
neste prefácio de Tutaméia
{"Sobre a escova e a dúvida"}
para dar ao seu público um indício,
um palpite, um sinal; não lhe seria possível
falar em termos mais claros nem precisos sem
violar o espírito de toda a sua obra
e negar aos seus leitores o valioso emprego
da própria intuição"
No final de seus estudos, Mary Daniel, ao afirmar
que Tutaméia é um "microcosmo"
da obra rosiana, ressalta o valor teórico
que a obra possui, devido aos "ensaios
(prefácios)" que transmitem
o "credo" literário
de JGR.
Um terceiro estudo importante surgiu em 1969,
da autoria de Lenira M. Covizzi, sobre as funções
dos prefácios de Tutaméia.
Afirma a autora que os prefácios seriam
"textos exemplares e eficientes como
introdução aos estudos de teoria
literária", dando a impressão
de "livro didático, orientado,
que não deixa cada qual senti-lo e /
ou dissecá-lo em paz". Por outro
lado, Covizzi declara que:
"a função do prefácio
é comumente a de explicar os motivos
da obra, os processos nela seguidos. Ora, numa
obra de ficção em que o próprio
autor escreve o prefácio com os mesmos
objetivos acima, é sinal de que a obra
não está sendo suficiente para
fazê-lo. A menos que o prefácio
não tivesse essa função
– numa subversão inovadora – e funcionasse
como recurso expressivo, como parte essencial
do conjunto. O que não acontece no caso
presente: o autor usa de quatro prefácios,
fazendo de seu livro teoria-prática,
e elemento a mais pour épater
quantos o lêem."
Noutra passagem, Covizzi acrescenta que a inclusão
dos prefácios com intenção
artística destoa do todo da obra, assim
como "um índice" (sic) pretensioso,
as duas citações de Schopenhauer
e o glossário "absolutamente desnecessário".
Para toda essa subversão Covizzi só
vê uma saída: procedimento insólito.
Colocadas em confronto, as análises apresentadas
chocam-se à medida que se evidenciam
contrastes e incoerências, entre si ou
nas suas próprias argumentações.
Como faz parte do objetivo deste trabalho, buscar
uma significação aos "Prefácios"
de Tutaméia, tentar-se-á
um questionamento sinóptico dos trabalhos
citados que propicie uma posição
a ser tomada em relação a tal
assunto.
A - A posição de Paulo Rónai,
ao afirmar que "quatro contos pequenos...
desempenham também o papel de prefácios",
choca-se com a posição de Mary
Daniel que encara os prefácios como "ensaios".
Poder-se-ia dizer que os prefácios têm
uma analogia com os contos, mas não todos.
Veja-se, por exemplo, o caso de "Aletria
e Hermenêutica" que, estruturalmente,
está longe de ser uma short story,
um conto, tendendo muito mais para o ensaio.
Por outro lado, "Hipotrélico"
e "Nós, os temulentos" não
possuem feição alguma de ensaio
e sim de conto.
B - Aos "véus de circunlóquios
e metáforas", rodeios, voltas
e perífrases, alegorias e parábolas
de que fala Paulo Rónai, opõe-se
a opinião de Mary Daniel quando afirma
que "o autor se abre aos seus leitores
nos quatro prefácios da obra revelando
em forma sucinta aspectos do seu ideário
e dando vislumbres íntimos do seu processo
criador".
Do mesmo modo, constata-se a opinião
de Covizzi ao afirmar que os "Prefácios"
seriam "textos exemplares e eficientes
como introdução aos estudos de
teoria literária" não
obstante achar que JGR, "com o objetivo
mostrar a complexidade das coisas, complica
mimeticamente sua expressão".
C - Paulo Rónai acredita que, do modo
como foi utilizada, a auto-interpretação
dos prefácios "acaba por tornar
o livro ainda mais hermético".
Rónai parece ter esquecido que o "índice
de releitura" sugere que os contos podem
ser lidos, independentemente dos prefácios,
conservando, no mínimo, duas leituras,
ora, o uso do termo hermético parece
não se enquadrar bem, visto que, como
diz o próprio Rónai, "os
prefácios hão de revelar uma mensagem"
que esclareceria toda a obra ou partes dela.
D - No seu trabalho sobre a função
dos prefácios em JGR, Lenira Covizzi
afirmando que a função comum dos
prefácios é explicar a obra, entende
que todo prefácio do autor que exercer
tal função é um certo desprestígio
à obra que seria insuficiente para explicar-se.
Covizzi apresenta uma exceção
para os prefácios que fugissem ao comum
("subversão inovadora"),
funcionando como "recurso expressivo"
ou como parte essencial do conjunto. Essa exceção,
segundo ela, não seria o caso dos prefácios
de Tutaméia. Ora, se a preocupação
de Covizzi é analisar o insólito,
o inabitual, o contrário ao costume,
por que não acreditar que essa "subversão
inovadora" é o insólito
dos prefácios?
Quanto ao fato de o prefácio subscrito
pelo autor provocar o desprestígio da
obra, deve-se admitir a opinião de Covizzi
como uma dentre várias sobre o assunto.
A propósito desse problema, remete-se
o leitor para o final do capítulo "O
problema da autoria", onde se acha,
teoricamente, discutido o problema.
Os "Prefácios" de Tutaméia,
na realidade, fogem ao comum dos outros prefácios,
ou como disse Machado de Assis, na advertência
de Ressurreição: é
um "prólogo que não se
parece com esses prólogos".
Sem ser totalmente hermética, a linguagem
dos "Prefácios" se constitui
numa matéria difícil, num problema
incomum, onde toda solução apresentada
é passível de fracasso.
Todos os "Prefácios" carregam
uma complexidade que envolve elementos da teoria
e prática da criação, problemas
de natureza metafísica e psicológica.
Das insinuações reflexivas do
primeiro prefácio à revelação
mais objetiva do último, encontramos
um constante jogo de linguagem que se faz oculta
na revelação. Esse ocultar-revelando-se
é pertinente à arte literária
pelo seu caráter mimético.
Em JGR, a mímese é superestimada
a ponto de criar para si uma linguagem que refletia
o cerne da própria arte, decorrendo daí,
um problema mais grave: a leitura dessa linguagem.
Provavelmente, se a linguagem camuflada não
existisse de modo tão radical em JGR,
muitos o achariam um autor banal, em virtude
das estórias - se desprovidas dessa linguagem
- apresentarem uma trama simples. Entretanto,
é na linguagem que reside o valor maior
do texto; é a linguagem que dá
vida à arte literária.
Essa consciência da linguagem é
um fato em JGR, a ponto de idealizar sua linguagem
uma quase língua, com uma arbitrariedade
que o definisse, estilisticamente, e revelasse
seu universo de percepção do real.
É certo que o homem se distingue pela
linguagem e Rosa não fugiu à regra,
ao contrário, acentuou-a de modo enérgico.
Seria necessário uma mudança de
linguagem para JGR escrever seus prefácios?
Haverá uma linguagem específica
para a confecção dos prefácios?
As mesmas perguntas, se lançadas para
outros autores, não teriam cabimento.
Via de regra, os prefácios não
chamam a atenção pela sua linguagem.
Deduz-se, portanto, que não há
mudança de linguagem do texto literário
para o prefácio. Assim sendo, JGR não
modificou a sua linguagem - como todos os autores
- e seguiu a regra usual, lançando para
os "Prefácios" a mesma linguagem
literária que iria resolver os problemas
da criação.
Conseqüentemente, esse problema assumiria
outra perspectiva: a inovação
da linguagem nos prefácios. Isto sim,
poderia ser uma "subversão inovadora"!
Todo esse problema da linguagem se vincula aos
"Prefácios", enquanto forma
inovada. Deve-se ler os dois índices
de Tutaméia com a perspectiva
voltada para os "Prefácios".
A única alteração do "Índice
de releitura" diz respeito aos prefácios
que, deslocados para fora da relação
das estórias, são enquadrados
na categoria de prefácios, em
oposição aos contos. Formam-se,
portanto, dois conjuntos: o dos Prefácios
e o dos Contos. Assim deveriam ser vistos:
puro prefácio, gratuito (como todos).
As citações que encimam Os índices
só dizem respeito, também, aos
quatro prefácios. A primeira delas apela
para a paciente leitura que é capaz de
captar o jogo de JGR. A segunda declara a organização
em conjuntos - prefácios e contos - que
propiciará àqueles que não
captaram o jogo uma luz inteiramente nova.
O comportamento da linguagem, nos "Prefácios",
de Tutaméia é, portanto,
uma coerência ao seu estilo, à
sua única linguagem usada para fazer
a ficção e dela poder falar.
3. 1 FUNCIONALIDADE PRÁTICA
Como todos os prefácios, os de JGR teriam
sua funcionalidade. O fato de serem inovadores
não significa que estariam completamente
libertos de certas funções que
caracterizam a atuação de todos
os prefácios.
Quando se propôs uma teoria da funcionalidades
dos prefácios, a idéias era de
estruturar um mínimo de elementos caracterizadores
desses discursos. Assumiu-se a posição
de que teorizar é descrever, nomear e
conceituar um objeto, procurando delimitá-lo
na sua função de uso. Assim, uma
teoria pode reger o objeto como uma forma de
conhecimento, procurando ser flexível
à medida das transformações
estruturais do objeto.
Sabendo das inovações provocadas
pelos "Prefácios" de JGR, uma
tarefa se impõe: examinar o comportamento
desses quatro prefácios quanto à
funcionalidade assumida.
Toda teoria precisa ser testada para que se
lhe reconheça a validade. Procurar-se-á,
portanto, a adequação das teorias
elaboradas no capítulo 2.1 aos prefácios
de Tutaméia. O processo de delimitação
das funcionalidades se reduz a apontar, tão-somente,
a função e apresentar um exemplo
que lhe sirva de prova.
A – Funcionalidade Demonstrativa
Parece que todo o primeiro prefácio ("Aletria
e Hermenêutica") quer ser uma amostra
do assunto tratado, revelando o material de
que se serve o autor para executar sua literatura:
"a estória que não quer
ser história".
Essa seria a proposta fundamental de JGR para
referenciar seu processo de criação:
a inversão do real para o irreal e vice-versa.
Este processo se reflete, ademais, na sua técnica
narrativa nas inversões anagramáticas
dos nomes, inversões proverbiais, inversões
da trama e fábula.
A sétima parte do quarto prefácio
é também uma demonstração
dos motivos e temas da ficção
de JGR. Apreende-se da conversa travada entre
JGR e Zito que o material – as estórias
- têm uma origem e circunstâncias.
Tentando representar os bons lances da fala
de Zito, JGR estaria demonstrando a fonte da
sua linguagem literária; uma recriação
da fala de muitos Zitos.
Todos os "Prefácios" revelam
motivos temáticos de JGR. Afinal esse
fator é quase a razão total da
existência de todos os prefácios.
Não poderia haver, portanto, transgressões
extremas a não ser no modo de demonstrar
o assunto, com uma linguagem incomum aos prefácios,
- assunto já comentado.
B - Funcionalidade Sinestésica
Existe, nos "Prefácios" de
Tutaméia, uma constante aproximação
de leituras. Insistentemente, no primeiro prefácio,
a idéia de propor a leitura das anedotas
de abstração, é acentuar
o modo como JGR vê a realidade, de como
extrai das coisas sem serventia a matéria
das suas "estórias", ou resumindo,
de como sair do nada para o tudo.
A finalidade do relato das anedotas visa à
transmissão, extremamente persuasiva,
de sua leitura do real que se pretende contagiosa
para o leitor. É uma enfática
troca de percepção que se destina
à univisão textual, base da função
sinestésica.
Parece, entretanto, que de todos os prefácios,
"Nós, os temulentos" é
uma prática perfeita da função
sinestésica. Nele, JGR, consegue transportar
a vida real para a irrealidade, mantendo um
conflito de lógicas que se inserem no
contexto da embriaguez. Para transmitir essa
visão ao leitor, elabora o prefácio
como um conto, didaticamente preparado, com
anedotas que vão se coordenando (note-se
a reiterada conjunção "e",
no texto), transformando uma rede de anedotas
em ações que se associam numa
trama narrativa da arte literária, seria,
portanto, o "pulo do cômico ao
excelso" literário, com a utilização
"nos tratos da poesia e da transcendência".
C - Funcionalidade Pertinente
A função pertinente se revela,
também nos prefácios de JGR. Em
"Aletria e Hermenêutica" ela
se faz presente quando JGR, de modo extremamente
rico e plural na linguagem, admite a limitação
do seu prefácio como matéria,
dispensável ao corpo da obra. Ao alertar
o leitor com o "Veja-se, vezes, prefácio
como todos gratuito", JGR acatava o
conselho de Aristóteles: "Convém
não esquecer que todas as considerações
deste gênero são alheias ao discurso"
(III, § 8).
A consciência de que a gratuidade à
obra é importante na sua função
pertinente, faz com que JGR crie um "Índice
de releitura". Ali, agrupa os quatro prefácios
num conjunto que se desloca do conjunto das
"estórias", tornando-se independentes
ou pertinentes à sua função
de prefácios.
O caráter de autonomia também
está evidenciado em cada um dos prefácios.
"Aletria e Hermenêutica" é
um todo que justifica a mímese do real
na ficção; "Hipotrélico"
concentra as razões de recriar ou criar
uma linguagem em circunstâncias especiais;
"Nós, os temulentos" se organiza
como um todo que, congregando a matéria
reinventada do primeiro prefácio e a
linguagem do segundo, indicia o esqueleto dos
seus contos; "sobre a escova e a dúvida",
no seu todo ou em partes, é uma demonstração
de problemas estéticos ligados à
literatura, como: "eu" do autor /
o "eu" do narrador; captação
da realidade / expressão literária;
inspiração ideal e onírica
/ perfeição reprodutiva do ideal;
inconsciência das emoções
/ consciência técnica; linguagem
padronizada / linguagem estilizada; tranqüilidade
das emoções / suspensão
das emoções.
Nenhum desses prefácios faz referência
direta às quarenta estórias de
Tutaméia. É verdade que
na maioria delas pode-se evidenciar uma relação
indireta mas, no seu todo, os prefácios
são autônomos e gratuitos.
D - Funcionalidade Topológica
Escrever um prefácio não é
coisa que causasse admiração ao
leitor. O uso dessa prática é
tão tradicional que, aos olhos do leitor,
muitas vezes passa despercebido. Há mesmo
leitores que não se dão ao trabalho
de ler o prefácio, assim como h aqueles
que só o lêem após terem
feito a leitura da obra, como se o prefácio
valesse como posfácio. Além desses
procedimentos há outros que revelam os
hábitos de leitura.
Pode estranhar ao leitor a presença de
dois prefácios numa obra literária.
Mas, há um hábito que, por vezes,
conserva prefácios de edições
anteriores em outras novas edições,
acrescidas de mais outro prefácio. Essas
edições que acumulam prefácios
pode atenuar o estranhamento do leitor que a
tudo se acomoda para chegar ao texto literário.
Em Tutaméia, JGR usa o primeiro
prefácio ("Aletria e Hermenêutica")
numa localização tradicional:
início, antes da narrativa. O segundo
("Hipotrélico") aparece após
14 contos, interrompendo o fluxo normal da seqüência
do primeiro Índice. Essa interrupção
continua, sendo que, "Nós, os temulentos"
(terceiro prefácio) vem após a
22ª "estória" e "Sobre
a escova e a dúvida" (último
prefácio) localiza-se após a 33ª
estória, restando ainda 7 (sete) outras
narrativas.
Esse processo de localização dos
prefácios causa grande impacto ao leitor,
assim como a proliferação e distinção
de um para outro.
A teoria popular, na sua sabedoria, diz que
"um é pouco; dois é bom;
três é demais!" Quatro,
seria absurdo! Na realidade, para ornamentar
a obra, um prefácio seria pouco em relação
ao conjunto que formaria com o posfácio:
dupla ideal. Um terceiro ou um quarto prefácio
seria demais para uma obra que, comumente, admite
no máximo dois "discursos paralelos".
Isso é comum, ou melhor, o lugar-comum
dos prefácios.
Rosa, entretanto, usa e abusa desse lugar-comum
que é o prefácio, acentuando e
transgredindo pela quantidade, para além
do comum a função topológica
do prefácio. Pode-se encarar que a repetição
dos prefácios seja um demonstrativo de
processos criativos de caráter redundante,
existentes no autor, tais como: ênfase,
reiteração de palavras, aliterações,
ecos, O hiperbolismo...
E - Funcionalidade Didascálica
Quase todos os comentários de Tutaméia
creditam ao prefácio "Sobre a escova
e a dúvida" a primordial importância
entre os demais. Esse destaque, provavelmente,
fundamenta-se no tom mais confidencial do autor
que, como disse Mary Daniel, "(fala
mais abertamente do processo da criação
literária e dos aspectos metafísicos
desta criação".
"Sobre a escova e a dúvida",
todo ele, é uma prática funcional
daquilo que, academicamente, seria um prefácio
dado pelo autor à sua obra. Sua localização
em Tutaméia, inclusive, chama
a atenção para o fato de estar
mais perto do que seria o posfácio, como
que concluindo uma significação
total para a obra e para os três prefácios.
Não resta dúvida que o caráter
confidente é mais revelador neste que
nos outros prefácios. Através
dele, pode-se notar mais facilmente a consciência
literária da arte e sua finalidade em
JGR. Parece até que era intenção
de Rosa fazer, ao seu modo e linguagem, uma
didaskalia que desse aos leitores um caminho
aberto, gratuitamente, à compreensão
de sua obra. Faz, portanto, uso da função
didascálica do prefácio.
A funcionalidade dos "Prefácios"
de JGR parece comprovar uma teoria que lhe foi
proposta. A adequação integral
às características de cada função
revela que, como prefácios, seu funcionamento
é igual aos demais. As transgressões
apresentadas, quanto à quantidade, localização
e uso de linguagem, são provas de uma
coerência transgressora do próprio
JGR. Provavelmente, essas transgressões
seriam índices de uma função
demonstrativa da obra rosiana.
Através dos poucos exemplos dados, é
possível chegar-se à confecção
de uma poética de JGR. Bastaria estabelecer,
a partir dos indicadores existentes nos "Prefácios",
uma adequação mais globalizante
à sua produção literária,
sistematizando a teoria e práxis rosianas.
Uma tentativa de construir a poética
de JGR já foi esboçada num trabalho
conjunto de vários autores. Entretanto,
a sistematização de "O Poético
em Tutaméia" não alcançou
o objetivo no seu sentido mais globalizante.
A intenção é magistral
mas ainda carece de realização.
Há, portanto, um caminho aberto.
3.2 UMA HERMENÊUTICA DA ALETRIA
A análise dos prefácios de Tutaméia,
efetuada a partir do esboço elaborado,
revela que JGR cometeu algumas transgressões
quanto ao modo de ser tradicional dos prefácios,
assim como foi, na arte da ficção,
transgressor de muitos outros padrões.
Todos os prefácios de JGR são
portadores de um duplo sistema de significação.
Neles são encontrados tanto o caráter
introdutório, metodológico, como
a obscuridade e os desvios particulares à
linguagem. Esse duplo sistema se apresenta de
modo quase indissociável que parece ser
resultante do próprio interesse rosiano:
transgredir a noção referencial
do termo prefácio e conotá-lo
de intenções poéticas.
Um dos prismas a que se sujeita a leitura dos
"Prefácios" é o da teorização.
Por este ângulo, evidencia-se a preocupação
de JGR em determinar aspectos importantes do
campo criativo-literário, em justificar
reflexões que vão desde a distinção
entre estória e história até
as incursões gerais e metafísicas
sobre a vida e a arte. A teorização
da anedota é uma forma de propor, simuladamente,
uma teoria geral da estória que quer
ser sua "estória", vale dizer,
do seu fazer-poético.
Sem reservar um lugar específico para
a teorização, JGR prefere disseminar
a teoria no conjunto dos prefácios, entremeando-a
numa prática viva. Por essa razão
é que se justifica a interpretação
de que os prefácios são pequenos
contos que desempenham, também, a função
de prefácio, ou ainda, são ensaios-mais-que-narrativas
que tecem comentários sobre a criação
literária. Na realidade, os "Prefácios"
são quatro dedos de prosa que propõem
ao leitor reflexões em torno de si mesmos.
Tome-se por exemplo o primeiro prefácio.
Vários são os momentos deste prefácio
que apontam para uma elaboração
teórica do real, do irreal, do metafísico
de uma única realidade: o literário.
De um modo figurativo e perifrástico,
"Aletria e Hermenêutica" procura
delimitar a fonte do fazer-poético de
JGR. O parabolismo da anedota revela o entendimento
literário de um autor que extrai do quase
nada o todo-material de sua obra. Nele se opera
uma redução do inútil que
passa a ter serventia para o literário:
o inútil da anedota passa a ser utilidade
para a criação literária.
A anedota deve ser compreendida como expressão
ligada ao humor, de sabedoria popular, e que
se requer expressa com formas sistemáticas
para documentar o próprio universo popular.
A anedota é de caráter inédito
e oral, vivendo sua existência numa forma
não literária, não escrita
e pelo fato mesmo, contrária à
História. Surge, daí, a analogia
entre anedota e a estória.
Propor uma classificação das anedotas,
para JGR, significa admitir-lhes uma escala
de utilidades. As anedotas de abstração
obrigam à visão do universo pelo
avesso, exatamente porque não se confundem
com as histórias. Ligam-se, no plano
da lógica, ao não-senso, embora
ofereçam elementos para o senso da vida,
numa forma de inversão. Como as estórias,
as anedotas são textos para a leitura
da vida, não literalmente mas no seu
supra-senso.
As anedotas propõem questionamentos mas
já guardam respostas, assemelhando-se
às advinhas que Jolles estudou.
Dessas reflexões pode-se inferir que
as anedotas seriam a parte extraída da
realidade para a elaboração artística
de JGR. Elas revelam aquilo que a realidade
expressa na sua linguagem muda. Considerando-se
que a realidade é uma logosfera,
como diz Barthes, as anedotas seriam uma forma
de linguagem que exige do escritor uma recriação
que se concretize em novos sistemas de linguagem.
O laço que une a anedota à estória
é o processo de recriação.
Nesse processo, o ineditismo poderia ser encarado
como fundamental, não no seu sentido
objetivo mas como inovação. Isto
porque nada se propõe inédito,
desde que tudo vem da realidade. A realidade
sempre foi um constante discurso que poucos
sabem captar. O ineditismo só existe
numa dimensão subjetiva; tanto não
é inédito que se pode captá-lo.
Criar uma obra, portanto, é uma ilusão.
Nada se cria da realidade, tudo é recriação.
A obra é sempre uma recriação
do nosso ineditismo. Elaborar uma obra é
aceitar a sensação frustrante
de perceber que não se foi criador, mas
instrumento do que j havia. A obra é
fruto da motivação que torna o
artista em mero decodificador do existente;
é a expressão daquilo que, de
forma humana, parece inaudito e inédito.
Eis aí a ilusão da criação
literária. O inédito, apenas,
ainda não se deixara conhecer ao autor,
porém já estava criado. Vivia
sua realidade, sendo irreal para a literatura.
Esse jogo de decifração marca
o papel do autor como ficcionista: deve recriar
o irreal para fazê-lo real, no plano da
linguagem.
Há que se perceber um fio que une os
quatro prefácios, sugerindo-lhes uma
interpretação didática
do autor. Primeiramente, em "Aletria e
Hermenêutica" são esboçadas
considerações gerais e um farto
exemplário sobre a matéria-prima
das "estórias". Num segundo
plano, "Hipotrélico" representa
uma demonstração de argumentos
indispensáveis ao fazer-poético.
Destaca-se a particularização
da linguagem, âmago da obra rosiana. Dizia
JGR: "Meu lema é: linguagem e
a vida são uma coisa só. Quem
não fizer do idioma o espelho de sua
personalidade não vive; e como a vida
é uma corrente contínua, a linguagem
também deve evoluir constantemente".
Em terceiro plano, "Nós, os temulentos"
se caracteriza como claro exemplo onde os dois
planos anteriores se fundem numa forma de autêntica
narrativa, comprovando sua elaboração
literária. Em último plano, como
coroamento confidencial, encontra-se "Sobre
a escova e a dúvida" comportando,
além de reflexões sobre o poético,
certos elementos biográficos que sugerem
uma íntima relação autor
e obra.
Não seria um despropósito a análise
que intentasse esse relacionamento obra-autor.
Primeiro, por causa do exercício tradicional
da psicocrítica de enfoque autobiográfico
e, secundariamente, por causa de uma afirmação
do próprio Rosa, na sua entrevista com
Lorenz: "...é impossível
separar minha biografia de minha obra".
Prefaciar, para JGR, significa armar um sistema
de decifração, elaborar um esquema
de compreensão de seu material literário,
ou ainda , "situar-se". Nisso não
haveria diferença dos demais autores
que procedem semelhantemente. A diferença,
parece, está voltada mais uma vez para
a sua preocupação central: o modo
específico de dizer. Assim, comparando-o
com os outros autores, detecta-se a diferença
fundamental: ele fala por parábolas,
perífrases, alegorias, transferindo para
os "Prefácios" a legitimidade
da linguagem poética.
No prefácio de Brás Cubas, Machado
de Assis afirmava que "O melhor prólogo
é o que contém menos cousas, ou
o que se diz de um jeito obscuro e truncado".
Pelo que JGR apresenta nos seus prefácios,
há uma afinidade parcial com a regra
machadiana quanto ao "jeito obscuro
e truncado". Só que ao invés
de dizer menos coisas, ele prefere dizer bem
mais. Seria mais uma transgressão!
De todas as transgressões ao prefácio,
encontradas em JGR, a que mais se consagra é
a referente à disposição.
A disposição idealizada por JGR
foge a qualquer perspectiva do prefácio.
Dentre todos os prefácios manuseados
para este trabalho, até o momento, nenhum
teve igual disposição. Por essa
razão é que, de todas as inovações
intentadas, essa é a mais transgressora.
É, portanto, uma "subversão
inovadora" - acatando-se o termo e
rejeitando a opinião de Covizzi.
O modo como os "Prefácios"
estão dispostos é uma decorrência
da concepção de arte, à
medida que esta é considerada como instrumento
de criação, de inovação
ou de ineditismo do autor. Para uma melhor compreensão
desse processo dispositivo, vale a pena ler
o que diz Michel Butor:
"Em certos casos, a novidade encontra
seu lugar, sem a menor dificuldade, no interior
do que se dizia antes; ela implica somente uma
correção de pormenor, deixando
o resto intato. Mas quando o número e
a importância dessas ‘novidades’ aumentam,
não sabemos mais onde as colocar, que
fazer delas"
É claro que Butor não se refere
a Guimarães Rosa, muito embora sinta-se
que a roupa foi feita para ele. O prefácio
era, para JGR, uma novidade inexistente nos
seus textos, mas que quando começa a
existir, já quer ser mais do que era
(no comum), não aceitando as amarras
tradicionais da localização. O
tipo de prefácio passou a ser uma coerência
com o seu aspecto funcional de elemento móvel,
porque dispensável da obra.
Assim é que, tendo que dispensar atenção
ao prefácio - que era novidade para si
– JGR coloca-se, inevitavelmente, a questão
de saber se essa ordem é a única
possível, se o problema não admitiria
outras soluções. Para ele, realmente,
existe uma fórmula neótipa que,
como o hipotrélico, ficou havendo.
A "subversão inovadora"
em JGR é capaz de levar seus comentadores
ao temor de uma assertiva não coincidente
com as intenções do autor. Entretanto,
arrisca-se, aqui, uma opinião que é
fruto da observação dispositiva
dos "Prefácios".
Por que razão o prefácio "Sobre
a escova e a dúvida" não
se encontra no fim de todos os contos? Seria
por não querer um posfácio ou
pura transgressão? Levando-se em conta
o índice inicial - já que pelo
"Índice de releitura" o problema
não é cogitado - a localização
desse prefácio parece arbitrária,
sem mesmo manter simetria, porquanto não
há uma progressão, numericamente,
lógica. Mas, após o último
prefácio restam 07 (sete) contos.
Diz-se que sete é conta de mentiroso,
daquele que inventa fatos; é o número
do contador de estórias, de anedotas...
Poderia ser o número predileto de JGR,
homem dado às coisas místicas
e míticas, homem simbólico e alegórico;
homem, portanto dos números.
Do mesmo modo que Rosa perguntou a Paulo Rónai
o que ele via na desordem do índice de
Tutaméia (a ordenação
do seu nome), poderíamos indagar a razão
destas coincidências numéricas:
a) - Sete são as "estórias"
que restam no limiar dos prefácios;
b) - Sete são as partes do último
prefácio;
a.-
Sete são, também, as obras do
autor.
Ora, o número sete significa, simbolicamente,
uma série completa, a infinitude que,
tradicionalmente, representa: o número
da virgindade, da formação, da
duração (7 planetas, 7 dias da
semana), 7 notas musicais, 7 graus de estudo,
7 virtudes, 7 pecados capitais, 7 dons do Espírito
Santo, 7 sábios da Grécia... O
sábado é o sétimo dia e
em hebraico sete simboliza a Aliança
com Deus.
Haveria, em toda essa simbologia, uma relação
especial para o autor de Terceiras Estórias
(sem segundas)? Haveria para toda essa aletria
uma hermenêutica?
"Só poderia dizê-lo quem
não mais o pode dizer; mas será
que o diria?" (Paulo Rónai)
3. CONCLUSÃO
Como o prefácio a conclusão parece
gratuita. Seu papel sintetizador se torna redundante
àquilo que já foi demonstrado.
Mas, mesmo sendo inútil, também
tem sua utilidade. Servirá para dizer
que:
- o prefácio, peça tradicional
dos discursos retórico e narrativo, não
se manteve estabilizado;
- o prefácio sofreu uma dinâmica
de atualização à medida
que testemunhava a própria evolução
literária;
- o prefácio mantém uma estrutura
que lhe dá consistência. Senão
esta, haverá uma outra que deverá
ser formalizada;
- o prefácio metapoético é
uma forma reveladora das poéticas. Sua
presença poderá ser um capítulo
da Estética, porquanto j é proclamação
de estéticas;
- os prefácios, como linguagens que são,
poderão surpreender os leitores. Neles
estão se cruzando planos de linguagens
como a monográfica, a literária,
a metalingüística, a filosófica...
Distinguindo-se a função e a natureza
dos prefácios ficou vislumbrado um caminho
para a teorização. Resta, ao teórico
do prefácio, acompanhar-lhe a trajetória
a fim de não deixá-lo em estado
de marginalização.
Finalmente, conclui-se com uma parábola
de outra parábola:
Um
maluquinho ficara intrigado ao ver outro maluquinho
que, durante cinco horas, ouvia os silêncios
bulhentos da parede. Da espera à revelação,
os dois maluquinhos convenceram-se de que
os universos mudos falam mais que as palavras.
Portanto: - "não se temam as
palavras difíceis." (JGR). Há
muito o que se pensar sobre aquilo que está
fora do texto.
5.BIBLIOGRAFIA
A- CONSULTA DE JOÃO GUIMARÃES
ROSA
01. ROSA, João Guimarães. Tutaméia
- Terceiras estórias. Rio, José
Olympio, 1967; 2a ed. Rio, José Olympio,
1968; 4a ed. Rio,
José Olympio, 1976 c/Apêndice de
Paulo Rónai.
B - CONSULTA DE PREFÁCIOS
02. ANDRADE, Oswald. Memórias sentimentais
de João Miramar. SP,
Difel, 1964.
03. ASSIS, Machado. Ressureição.
Rio, Aguilar, 1962.
04. ASSIS, Machado. Memórias póstumas
de Brás Cubas. Rio,
Aguilar, 1962.
05. BARRETO, Lima. Recordações
do escrivão Isaías Caminha.
SP,
Brasiliense, 1971.
06. CERVANTES. Dom Quixote. SP, Victor
Civita, 1978.
07. CERVANTES. Novelas exemplares. SP,
Abril Cultural, 1971.
08. CONRAD, Joseph. Lorde Jim. SP, Abril
Cultural, 1971.
09. CORTÀZAR, Julio. O jogo da amarelinha.
Rio, Civilização
Brasileira, 1970.
10. DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os
irmãos Karamázovi. SP, AbrilCultural,
1973.
11. OLIVEIRA, Manuel Botelho. Música
do Parnaso. Rio,INL.1953.
12. PIRANDELLO, Luigi. Seis personaqens à
procura de um autor. SP,
Victor Civita, 1978.
13. TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia.
SP, Melhoramentos-INL / MEC,
1977.
14. WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray.
Rio, Abril Cultural, 1972.
C - CONSULTA TEÓRICA GERAL
15. ARISTÓTELES. Arte retórica
- Arte poética. SP, Difel. 1964 (Col.
Clássicos Garnier).
16. BARTHES, Roland. "A Retórica
Antiga". In: VÁRIOS. Pesquisas
de
retórica.
Petrópolis, Vozes,
1975
pág. 147-221.
17. BARTHES, Roland. "Para/ou onde vai
a literatura". In:VÁRIOS.
Escrever... para quê? para quem?
Lisboa,
Edições 70, 1975.
18. BENJAMIN, Walter. "Sobre alguns temas
em Baudelaire". In: Os
Pensadores,
vol., XLVIII. SP, Victor Civita, 1975.
19. BENOIST, Luc. Signes, symboles et mythes.
Paris,PUF,1975.
20. BOSI, Alfredo. História concisa
da Literatura brasileira. SP,
Cultrix, 1970.
21. BUTOR, Michel. Repertório.
SP, Perspectiva, 1974.
22. CÂNDIDO, Antônio & CASTELLO,
Aderaldo. Presença da literatura
brasileira,
29 vol. SP, Difel, 1974.
23. COVIZZI, Lenira M. "Prefácios
Travestidos – Estudo sobre as
funções dos prefácios de
Tutaméia". In: COVIZZI, L.M.
O insólito em Guimarães
Rosa e Borges. SP, Ática, 1978.
24. CURTIUS, Ernst R. Literatura européia
e Idade Média latina. Rio,
INL, 1957.
25. DANIEL, Mary Lou. João Guimarães
Rosa: travessia literária. Rio,
José Olympio, 1968.
26. DUFRENNE, Mikel. Estética e filosofia.
SP, Perspectiva, 1972.
27. EIKHENBAUM, B, et alii. Teoria da literatura
– Formalistas russos.
Porto Alegre, Globo, 1971.
28. GIUSTI, César. "O Desenredo
em JG Rosa". In: Revista Symposim
- n9 1. Recife, Universidade Católica
de PE, 1976.
29. GIUSTI, César. "Do dom ao duelo
artístico". Recife, Fundação
de
Ensino Superior de PE, 1977 (mimeo).
30. JAMES, Henry. "A arte da ficção".
In: NOSTRAND, Albert (org.).
Antologia de crítica literária. Rio,
Lidador, s/d.
31. JOLLES, André. Formas simples.
SP, Cultrix, 1976.
32. LORENZ, Günter W. Diálogo
com a América latina - panorama de
uma literatura do futuro.
SP,
EPU, 1973.
33. MERQUIOR, José Guilherme. Formalismo
e tradição moderna (o
problema da arte na crise da cultura). SP, Forense,
1974.
34. MESCHONIC, Henri. "Pela Poética".
In: LIMA, Luís Costa.
Teoria
da literatura em suas fontes. Rio,Fco. Alves,
1975.
35. PAVIANNI, Jayme et alii. O Cabo e a lâmina
- o poético em
Tutaméia. Porto Alegre, PUC, 1974.
36. RÓNAI, Paulo. "Os Prefácios
de Tutaméia" e "As Estórias
de
Tutaméia". In: ROSA, JG. Tutaméia
4ª ed. Rio, José Olympio,
1976. Está sob a forma de "Apêndice".
37. RÓNAI, Paulo. "Trajetória
de uma obra". In: RÓNAI, Paulo.
Seleta de João Guimarães Rosa.
Rio, José Olympio, 1973.
38. TELES, Gilberto Mendonça. "A
Poesia da Crítica". In: Anais do
3º Congresso de língua e literatura
portuguesa. Rio,
Gernasa, 1972.
39. TELES, Gilberto Mendonça. A Retórica
do silêncio - teoria e
prática do texto literário. SP,
Cultrix INL-MEC. 1979.
40. TYNIANOV, Iouri. "Da evolução
literária" In: EIKHENBAUM et alii.
Teoria da Literatura - formalistas
russos. Porto Alegre,
Globo, 1971.