A
Cia. dos Atores, com direção de
Enrique Diaz, trouxe recentemente de volta ao
palco a sátira e a indignação
política com a reapresentação
da peça O Rei da Vela, de Oswald
de Andrade. Sem entrar nas considerações
de caráter puramente cênico, o
que levaria a uma infrutífera comparação
com a histórica encenação
do Grupo Oficina, é interessante examinar
o que permanece de atual e quiçá,
de inovador, no texto de Oswald.
A
obra de Oswald de Andrade (1890-1954) representou
fortemente o libelo contra a cultura do passado.
E muitos apontam essa como a sua principal contribuição
às letras nacionais - numa clara minimização
da sua produção literária.
O próprio Oswald, no livro Ponta de Lança(1)
se defende: "Criou-se então a fábula
de que eu só fazia piada e irreverência,
e uma cortina de silêncio tentou encobrir
a ação pioneira que dera o Pau-Brasil,
donde, no depoimento atual de Vinicius de Moraes,
saíram todos os elementos da moderna
poesia brasileira. Foi propositadamente esquecida
a prosa renovada de 22, para a qual eu contribuí
com a experiência das Memórias
Sentimentais de João Miramar".
O
manifesto Pau-Brasil, tão importante
para a poesia modernista, já trazia no
seu bojo os germes que gerariam o antropofagismo.
O Pau-Brasil reivindicava uma linguagem natural,
avesso ao bacharelismo e pedantismo, conclamava
a originalidade nativa. O primitivismo como
imaginação, liberdade de espírito,
a junção do moderno e do arcaico
brasileiro culminando com uma revolução
artística nacionalista tendo por base
suas raízes primitivas.
A
Antropofagia é um passo além.
Lançado em 1928 em reação
ao grupo da Anta, reivindica uma revolução
sócio-cultural permanente. A antropofagia
é estratégia crucial no processo
de constituição de uma linguagem
autônoma num país de economia periférica.
Incide sobre os diversos campos da cultura,
da literatura à música. A retomada
das raízes está expressa num célebre
verso "Tupi or not Tupi, that is the question".
O antropofagismo é a alternativa entre
o nacionalismo conservador e a cópia
dos valores ocidentais. É a produção
artística nacional não como simples
mimese de correntes européias, mas deglutindo-a
tendo como tempero raízes tupis para
criar algo novo. Original e brasileiro.
Oswald
busca inverter a relação colonizador/dominado.
"Sem nós, a Europa não teria
sequer sua pobre declaração dos
direitos do homem" ( Manifesto Antropofágico,
p.14). Explicita o ridículo dessa relação:
"O índio vestido de senador do Império...
ou figurando nas óperas de Alencar cheio
de bons sentimentos burgueses". (Manifesto,
p 16) Arremata com o primeiro ato antropofágico
anticolonial "Ano 374 da Deglutição
dos Bispo Sardinha" (Manifesto, p 19).
Oswald,
descendente de rica família e pouco parcimonioso
com suas viagens à Europa, subitamente
com a crise de 29 fica falido economicamente.
Tentando embalde sustentar seu modo de vida,
toma empréstimos a agiotas no "beco
do escarro", como chama a zona bancária
do centro velho de São Paulo. Enquanto
tem suas paredes despojadas dos quadros de Picasso,
De Chirico, Léger e Tarsila, por falta
de pagamento, recolhe material para o Rei da
Vela. Ensejado por essa experiência pessoal,
Oswald amplifica esse tema e desnuda com muita
irreverência o burguês brasileiro
como lacaio do dinheiro americano.
O
Rei da Vela reflete as condições
do Brasil na década de 30, focalizando
em especial São Paulo e Rio de Janeiro.
É apresentado um amplo panorama da sociedade
figurando várias classes sociais, suas
relações e crises. Praticamente
todos os setores da República velha são
representados de forma direta ou indireta, como
a decadente - mas ainda com status - oligarquia
cafeeira da família de Heloísa,
os imigrantes, o proletariado urbano e rural
(os devedores na jaula), a burguesia ascendente
(Abelardo I e II), os intelectuais (Pinote),
o arquétipo do capitalista americano
(Mr. Jones). A crise de 29, o declínio
da monocultura do café, a revolução
de 30, a mudança do controle econômico
para as mãos americanas são os
motores históricos.
Oswald
utiliza várias técnicas de vanguarda
como as expressionistas, surrealistas, absurdistas.
Apesar de não haver indícios de
ter lido Brecht, o rei da vela abusa do antiilusionismo:
ABELARDO I: Mas esta cena basta para nos identificar
perante o público.(2)
ABELARDO I: ...comprar os velhos brasões,
isso até parece teatro do século
XIX. Mas no Brasil é novo.(3)
ABELARDO II: Sou o primeiro socialista que aparece
no Teatro Brasileiro.(4)
A
vela tem valor simbólico variado e admite
diferentes metáforas. Seu valor é
explicitado durante a obra e é plenamente
revelado no final do terceiro ato. Seu valor
fundamental é econômico:
ABELARDO
I
Com
dinheiro inglês comprei café
na porta das fazendas desesperadas. De posse
de segredos governamentais, joguei duro e
certo no café-papel! Amontoei ruínas
de um lado e ouro do outro! Mas, há
o trabalho construtivo, a indústria...
Calculei ante a regressão parcial que
a crise provocou.... Descobri e incentivei
a regressão, a volta à vela....
sob o signo do capital americano.
HELOÍSA
Ficaste
o Rei da Vela!
ABELARDO
I
Com
muita honra! O Rei da Vela miserável
dos agonizantes. O Rei da Vela de sebo. E
da vela feudal que nos fez adormecer em criança
pensando nas histórias das negras velhas...
Da vela pequeno-burguesa dos oratórios
e das escritas em casa.... As empresas elétricas
fecharam com a crise... Ninguém mais
pôde pagar o preço da luz...
A vela voltou ao mercado pela minha mão
previdente. Veja como eu produzo de todos
os tamanhos e cores. Para o Mês de Maria
das cidades caipiras, para os armazéns
do interior onde se vende e se joga à
noite, para a hora de estudo das crianças,
para os contrabandistas no mar, mas a grande
vela é a vela da agonia, aquela pequena
velinha de sebo que espalhei pelo Brasil inteiro...
Numa páis medieval como o nosso, quem
se atreve a passar os umbrais da eternidade
sem uma vela na mão? Herdo um tostão
de cada morto nacional!
A
vela está associada a idéia de
regressão, a volta a um estado semi-feudal
ao subdesenvolvimento. Abelardo I representa
o pequeno especulador, o explorador que atua
na base da produção, servindo
aos interesses internacionais. No terceiro ato,
na derrocada de um rei da vela para ascensão
de outro, "a vela torna-se símbolo
da morte - velório e finalmente, vala.
Símbolo, pois, da morte pessoal, a vela
passa a sugerir também a morte coletiva
- a morte histórica de uma classe, a
velha aristocracia paulista, num país
dependente. A morte também é cíclica
- quando um rei da vela cai, outro toma o seu
lugar [...] É o ciclo imutável
da não-história de todos os países
latino-americanos, segundo o enfoque antiimperialista
de Oswald de Andrade"(5).
Abelardo
I é consciente que explora e é
apenas um instrumento aos capitalistas maiores:
ABELARDO
I
[...]
Nós dois sabemos que milhares de trabalhadores
lutam de sol a sol para nos dar farra e conforto.
Com a enxada nas mãos calosas e sujas.
[...]
HELOÍSA
E
você não teme nada?
ABELARDO
I
Os
ingleses e americanos temem por nós.
Estamos ligados ao destino deles. Devemos
tudo, o que temos e o que não temos.
[...]
E sintetiza:
ABELARDO
I
...Os
países inferiores têm que trabalhar
para os países superiores como os pobres
trabalham para os ricos. Você acredita
que Nova York teria aquelas babéis
vivas de arranha-céus e as vinte mil
pernas mais bonitas da terra se não
se trabalhasse para Wall Street de Riberão
Preto à Cingapura, de Manaus à
Libéria? Eu sei que sou um simples
feitor do capital estrangeiro. Um lacaio,
se quiserem! Mas não me queixo. É
por isso que possuo uma lancha, uma ilha e
você....
O
modus operandi utilizado por Abelardo I para
manter a dependência dos seus clientes,
é reproduzido a nível macroestrutural
pelas grandes potências capitalistas contra
os países periféricos. Analisa
de forma fria e calculista, no melhor estilo
capitalista, uma proposta de crédito
a um cliente:
ABELARDO
I
Bem.
Tome nota. Emprestamos enquanto os pequenos
estudarem. Quando as filhas começarem
os serviço militar nas garçonnières,
e o pequeno tiver barata, e madame souber
se vestir, emprestaremos então de preferência
à costureira de madame. O velho aí
terá mudado de nível. Possuirá
automóvel, casa no Jardim América.
Cessaremos pouco a pouco todo o crédito.
Nem mais um papagaio! Ele virá aqui
caucionar os títulos dos comerciantes
a quem fornece. Executarei tudo num dia. Levarei
a fábrica, os capitais imobilizados
e o ferro velha à praça.
É
possível mesmo notar semelhanças
com o que 30 anos depois foi chamado de teoria
da dependência - formulada a partir da
obra Dependência e Desenvolvimento, de
Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto. "O
rei da vela não apresenta uma teoria
acabada de dependência"(6),
mas mostra como se articulam as classes sociais,
a união da burguesia ascendente com a
falida aristocracia rural, o capital internacional
com participação direta na economia.
Sem
dúvida, a temática da dependência
e dos investimentos estrangeiro é dos
temas mais atuais e recorrentes. Num contexto
de globalização, onde uma quantidade
avassaladora de investimentos são empregados
em países de economia periférica,
questiona-se a eficácia da inserção
do Brasil nesse processo. O Brasil continua
a pagar juros altos (em torno de 18% ao ano,
taxa SELIC 12/2000) na rolagem de suas dívidas,
e os bancos se locupletam do povo com juros
que chegam a estratosféricos 10% ao mês
no cheque especial.
ABELARDO
II
Só
se pode prosperar à custa de muita
desgraça. Mas de muita mesmo...
ABELARDO
I
Se
não fosse assim como garantirei os
meus depositantes. Se não tiro de outro
lado? Ofereço juros que os bancos não
pagam. Os juros que só alguns pagavam
nos bons tempos. 4 e até 5 por cento
ao ano!
ABELARDO
II
Também
o dinheiro corre para aqui!... Lá embaixo
a seção bancária está
assim!
ABELARDO
I
Ofereço
boas garantias. E também exijo boas
garantias, quando empresto...
ABELARDO
II
A
5 e 10 por cento ao mês... Por filantropia!...
Transportado
para a atualidade, Abelardo I rivalizaria o
mercado com juros menores que os bancos e financeiras
- que engalfinham os consumidores com crediários.
A figura do agiota arrivista de Abelardo I,
representaria um tipo ideal Weberiano, na sua
convicção da busca pelo lucro
e a perfeita representação da
classe burguesa. Pode-se dizer que esse perfil
foi substituído pelos bancos, nacionais
e estrangeiros, que proporciona ares mais oficiais
aos empréstimos mas se utiliza dos mesmos
métodos.
As
lutas rurais não são esquecidas.
Perdigoto, irmão de Heloísa, pede
dinheiro a Abelardo I para montar "milícia
patriótica" para "castigar
e meter medo" nos colonos que estavam "incontentáveis".
Tanto a revolta quanto a reação
estão em consonância com o atual
recrudescimento das lutas do MST e o ressurgir
de organizações como a TFP.
Oswald
entretanto errou ao prever que os soldados,
por cultivarem forte sentimento solidário
e estarem mais perto das camadas pobres, iriam
fazer a revolução social:
ABELARDO
I
Os
soldados [...] um dia deixarão atropeladamente
os quartéis. Será a revolução
social... Os que dormem nas soleiras das portas
se levantarão e virão aqui procurar
o usurário Abelardo! E hão de
encontrá-lo....
ABELARDO
II
Os
soldados são patriotas! Os soldados
amam o Brasil. Viva o Brasil!
ABELARDO
I
Mas
o Brasil não ama os seus soldados!
Eles ganham o que por mês? Para defender
os que ganham vinte contos por semana como
o Americano! E eu e você, os lacaios
dele! Antes de Cristo, Tibério Graco
já dizia dos soldados romanos: - "Chamam-nos
de senhores do mundo, mas eles não
têm sequer uma pedra onde encostar a
cabeça!"...
Na
década de 30, o movimento tenentista
era muito forte, e a liderança de Luís
Carlos Prestes na implantação
de um regime socialista seria uma resposta ao
modelo econômico de exploração.
Décio
de Almeida Prado, em entrevista acerca da encenação
da peça comentara que "Nem tudo
é bom em ‘O rei da vela'. Mas o que é
bom, é muito bom". Essa incisiva
observação pode ser estendida
para o texto. A temática da peça
é bastante atual. Os assuntos são
tratados de forma irreverente, exagerada, mas
ainda assim de certa forma fidedignos à
realidade. Muito ainda resta a ser deglutido
dessa peça que negligenciada por quase
30 anos tornou-se um marco do teatro brasileiro
e ainda representa o Brasil.
Notas Bibliográficas
1 - Oswald de Andrade em Ponta
de Lança, Livraria Martins Editora, São
Paulo s/data, pg 55, apud Haroldo de Campos.
Memórias Sentimentais de João
Miramar. São Paulo: Editora Record, 1999,
p. 6.
2 - ANDRADE, Oswald. O Rei
Da Vela. 1 ed. São Paulo: Abril Cultural,
1976. p17
3 - Ibid., p19.
4 - Ibid, p30.
5 - GEORGE, David. Teatro
e Antropofagia. 1 ed. São Paulo:
Global Editora, 198 p37.
6 - Ibid., p 38.
Bibliografia
BOSI, Alfredo. História concisa da
Literatura Brasileira.35 ed. São
Paulo: Cultrix,
1994. 528 p.
GARCIA, Silvana. Teatro da Militância.
1 ed. São Paulo: Editora
Perspectiva,
1990. 208 p.
GEORGE, David. Teatro e Antropofagia.
1 ed. São Paulo: Global
Editora, 1985.
88p.
GONZAGA, Sergius. Manual de Literatura Brasileira.
9 ed. Porto
Alegre: Mercado Aberto,
1993. 272 p.
Renato
Lima