7 April, 2003 10:42
 

Teatro Antropofágico
o que ainda se pode digerir do Rei da Vela


        A Cia. dos Atores, com direção de Enrique Diaz, trouxe recentemente de volta ao palco a sátira e a indignação política com a reapresentação da peça O Rei da Vela, de Oswald de Andrade. Sem entrar nas considerações de caráter puramente cênico, o que levaria a uma infrutífera comparação com a histórica encenação do Grupo Oficina, é interessante examinar o que permanece de atual e quiçá, de inovador, no texto de Oswald.
        A obra de Oswald de Andrade (1890-1954) representou fortemente o libelo contra a cultura do passado. E muitos apontam essa como a sua principal contribuição às letras nacionais - numa clara minimização da sua produção literária. O próprio Oswald, no livro Ponta de Lança(1) se defende: "Criou-se então a fábula de que eu só fazia piada e irreverência, e uma cortina de silêncio tentou encobrir a ação pioneira que dera o Pau-Brasil, donde, no depoimento atual de Vinicius de Moraes, saíram todos os elementos da moderna poesia brasileira. Foi propositadamente esquecida a prosa renovada de 22, para a qual eu contribuí com a experiência das Memórias Sentimentais de João Miramar".
        O manifesto Pau-Brasil, tão importante para a poesia modernista, já trazia no seu bojo os germes que gerariam o antropofagismo. O Pau-Brasil reivindicava uma linguagem natural, avesso ao bacharelismo e pedantismo, conclamava a originalidade nativa. O primitivismo como imaginação, liberdade de espírito, a junção do moderno e do arcaico brasileiro culminando com uma revolução artística nacionalista tendo por base suas raízes primitivas.
        A Antropofagia é um passo além. Lançado em 1928 em reação ao grupo da Anta, reivindica uma revolução sócio-cultural permanente. A antropofagia é estratégia crucial no processo de constituição de uma linguagem autônoma num país de economia periférica. Incide sobre os diversos campos da cultura, da literatura à música. A retomada das raízes está expressa num célebre verso "Tupi or not Tupi, that is the question". O antropofagismo é a alternativa entre o nacionalismo conservador e a cópia dos valores ocidentais. É a produção artística nacional não como simples mimese de correntes européias, mas deglutindo-a tendo como tempero raízes tupis para criar algo novo. Original e brasileiro.
        Oswald busca inverter a relação colonizador/dominado. "Sem nós, a Europa não teria sequer sua pobre declaração dos direitos do homem" ( Manifesto Antropofágico, p.14). Explicita o ridículo dessa relação: "O índio vestido de senador do Império... ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos burgueses". (Manifesto, p 16) Arremata com o primeiro ato antropofágico anticolonial "Ano 374 da Deglutição dos Bispo Sardinha" (Manifesto, p 19).
        Oswald, descendente de rica família e pouco parcimonioso com suas viagens à Europa, subitamente com a crise de 29 fica falido economicamente. Tentando embalde sustentar seu modo de vida, toma empréstimos a agiotas no "beco do escarro", como chama a zona bancária do centro velho de São Paulo. Enquanto tem suas paredes despojadas dos quadros de Picasso, De Chirico, Léger e Tarsila, por falta de pagamento, recolhe material para o Rei da Vela. Ensejado por essa experiência pessoal, Oswald amplifica esse tema e desnuda com muita irreverência o burguês brasileiro como lacaio do dinheiro americano.
        O Rei da Vela reflete as condições do Brasil na década de 30, focalizando em especial São Paulo e Rio de Janeiro. É apresentado um amplo panorama da sociedade figurando várias classes sociais, suas relações e crises. Praticamente todos os setores da República velha são representados de forma direta ou indireta, como a decadente - mas ainda com status - oligarquia cafeeira da família de Heloísa, os imigrantes, o proletariado urbano e rural (os devedores na jaula), a burguesia ascendente (Abelardo I e II), os intelectuais (Pinote), o arquétipo do capitalista americano (Mr. Jones). A crise de 29, o declínio da monocultura do café, a revolução de 30, a mudança do controle econômico para as mãos americanas são os motores históricos.
        Oswald utiliza várias técnicas de vanguarda como as expressionistas, surrealistas, absurdistas. Apesar de não haver indícios de ter lido Brecht, o rei da vela abusa do antiilusionismo:

ABELARDO I: Mas esta cena basta para nos identificar perante o público.(2)
ABELARDO I: ...comprar os velhos brasões, isso até parece teatro do século XIX. Mas no Brasil é novo.(3)
ABELARDO II: Sou o primeiro socialista que aparece no Teatro Brasileiro.(4)

        A vela tem valor simbólico variado e admite diferentes metáforas. Seu valor é explicitado durante a obra e é plenamente revelado no final do terceiro ato. Seu valor fundamental é econômico:

        ABELARDO I
        Com dinheiro inglês comprei café na porta das fazendas desesperadas. De posse de segredos governamentais, joguei duro e certo no café-papel! Amontoei ruínas de um lado e ouro do outro! Mas, há o trabalho construtivo, a indústria... Calculei ante a regressão parcial que a crise provocou.... Descobri e incentivei a regressão, a volta à vela.... sob o signo do capital americano.

        HELOÍSA
        Ficaste o Rei da Vela!

        ABELARDO I
        Com muita honra! O Rei da Vela miserável dos agonizantes. O Rei da Vela de sebo. E da vela feudal que nos fez adormecer em criança pensando nas histórias das negras velhas... Da vela pequeno-burguesa dos oratórios e das escritas em casa.... As empresas elétricas fecharam com a crise... Ninguém mais pôde pagar o preço da luz... A vela voltou ao mercado pela minha mão previdente. Veja como eu produzo de todos os tamanhos e cores. Para o Mês de Maria das cidades caipiras, para os armazéns do interior onde se vende e se joga à noite, para a hora de estudo das crianças, para os contrabandistas no mar, mas a grande vela é a vela da agonia, aquela pequena velinha de sebo que espalhei pelo Brasil inteiro... Numa páis medieval como o nosso, quem se atreve a passar os umbrais da eternidade sem uma vela na mão? Herdo um tostão de cada morto nacional!


        A vela está associada a idéia de regressão, a volta a um estado semi-feudal ao subdesenvolvimento. Abelardo I representa o pequeno especulador, o explorador que atua na base da produção, servindo aos interesses internacionais. No terceiro ato, na derrocada de um rei da vela para ascensão de outro, "a vela torna-se símbolo da morte - velório e finalmente, vala. Símbolo, pois, da morte pessoal, a vela passa a sugerir também a morte coletiva - a morte histórica de uma classe, a velha aristocracia paulista, num país dependente. A morte também é cíclica - quando um rei da vela cai, outro toma o seu lugar [...] É o ciclo imutável da não-história de todos os países latino-americanos, segundo o enfoque antiimperialista de Oswald de Andrade"(5).
        Abelardo I é consciente que explora e é apenas um instrumento aos capitalistas maiores:

        ABELARDO I
        [...] Nós dois sabemos que milhares de trabalhadores lutam de sol a sol para nos dar farra e conforto. Com a enxada nas mãos calosas e sujas. [...]

        HELOÍSA
        E você não teme nada?

        ABELARDO I
        Os ingleses e americanos temem por nós. Estamos ligados ao destino deles. Devemos tudo, o que temos e o que não temos. [...]


E sintetiza:

        ABELARDO I
        ...Os países inferiores têm que trabalhar para os países superiores como os pobres trabalham para os ricos. Você acredita que Nova York teria aquelas babéis vivas de arranha-céus e as vinte mil pernas mais bonitas da terra se não se trabalhasse para Wall Street de Riberão Preto à Cingapura, de Manaus à Libéria? Eu sei que sou um simples feitor do capital estrangeiro. Um lacaio, se quiserem! Mas não me queixo. É por isso que possuo uma lancha, uma ilha e você....



        O modus operandi utilizado por Abelardo I para manter a dependência dos seus clientes, é reproduzido a nível macroestrutural pelas grandes potências capitalistas contra os países periféricos. Analisa de forma fria e calculista, no melhor estilo capitalista, uma proposta de crédito a um cliente:

        ABELARDO I
        Bem. Tome nota. Emprestamos enquanto os pequenos estudarem. Quando as filhas começarem os serviço militar nas garçonnières, e o pequeno tiver barata, e madame souber se vestir, emprestaremos então de preferência à costureira de madame. O velho aí terá mudado de nível. Possuirá automóvel, casa no Jardim América. Cessaremos pouco a pouco todo o crédito. Nem mais um papagaio! Ele virá aqui caucionar os títulos dos comerciantes a quem fornece. Executarei tudo num dia. Levarei a fábrica, os capitais imobilizados e o ferro velha à praça.


        É possível mesmo notar semelhanças com o que 30 anos depois foi chamado de teoria da dependência - formulada a partir da obra Dependência e Desenvolvimento, de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto. "O rei da vela não apresenta uma teoria acabada de dependência"(6), mas mostra como se articulam as classes sociais, a união da burguesia ascendente com a falida aristocracia rural, o capital internacional com participação direta na economia.
        Sem dúvida, a temática da dependência e dos investimentos estrangeiro é dos temas mais atuais e recorrentes. Num contexto de globalização, onde uma quantidade avassaladora de investimentos são empregados em países de economia periférica, questiona-se a eficácia da inserção do Brasil nesse processo. O Brasil continua a pagar juros altos (em torno de 18% ao ano, taxa SELIC 12/2000) na rolagem de suas dívidas, e os bancos se locupletam do povo com juros que chegam a estratosféricos 10% ao mês no cheque especial.

        ABELARDO II
        Só se pode prosperar à custa de muita desgraça. Mas de muita mesmo...

        ABELARDO I
        Se não fosse assim como garantirei os meus depositantes. Se não tiro de outro lado? Ofereço juros que os bancos não pagam. Os juros que só alguns pagavam nos bons tempos. 4 e até 5 por cento ao ano!

        ABELARDO II
        Também o dinheiro corre para aqui!... Lá embaixo a seção bancária está assim!

        ABELARDO I
        Ofereço boas garantias. E também exijo boas garantias, quando empresto...

        ABELARDO II
        A 5 e 10 por cento ao mês... Por filantropia!...



        Transportado para a atualidade, Abelardo I rivalizaria o mercado com juros menores que os bancos e financeiras - que engalfinham os consumidores com crediários. A figura do agiota arrivista de Abelardo I, representaria um tipo ideal Weberiano, na sua convicção da busca pelo lucro e a perfeita representação da classe burguesa. Pode-se dizer que esse perfil foi substituído pelos bancos, nacionais e estrangeiros, que proporciona ares mais oficiais aos empréstimos mas se utiliza dos mesmos métodos.
        As lutas rurais não são esquecidas. Perdigoto, irmão de Heloísa, pede dinheiro a Abelardo I para montar "milícia patriótica" para "castigar e meter medo" nos colonos que estavam "incontentáveis". Tanto a revolta quanto a reação estão em consonância com o atual recrudescimento das lutas do MST e o ressurgir de organizações como a TFP.
        Oswald entretanto errou ao prever que os soldados, por cultivarem forte sentimento solidário e estarem mais perto das camadas pobres, iriam fazer a revolução social:

        ABELARDO I
        Os soldados [...] um dia deixarão atropeladamente os quartéis. Será a revolução social... Os que dormem nas soleiras das portas se levantarão e virão aqui procurar o usurário Abelardo! E hão de encontrá-lo....

        ABELARDO II
        Os soldados são patriotas! Os soldados amam o Brasil. Viva o Brasil!

        ABELARDO I
        Mas o Brasil não ama os seus soldados! Eles ganham o que por mês? Para defender os que ganham vinte contos por semana como o Americano! E eu e você, os lacaios dele! Antes de Cristo, Tibério Graco já dizia dos soldados romanos: - "Chamam-nos de senhores do mundo, mas eles não têm sequer uma pedra onde encostar a cabeça!"...


        Na década de 30, o movimento tenentista era muito forte, e a liderança de Luís Carlos Prestes na implantação de um regime socialista seria uma resposta ao modelo econômico de exploração.

        Décio de Almeida Prado, em entrevista acerca da encenação da peça comentara que "Nem tudo é bom em ‘O rei da vela'. Mas o que é bom, é muito bom". Essa incisiva observação pode ser estendida para o texto. A temática da peça é bastante atual. Os assuntos são tratados de forma irreverente, exagerada, mas ainda assim de certa forma fidedignos à realidade. Muito ainda resta a ser deglutido dessa peça que negligenciada por quase 30 anos tornou-se um marco do teatro brasileiro e ainda representa o Brasil.



Notas Bibliográficas


1 - Oswald de Andrade em Ponta de Lança, Livraria Martins Editora, São Paulo s/data, pg 55, apud Haroldo de Campos. Memórias Sentimentais de João Miramar. São Paulo: Editora Record, 1999, p. 6.

2 - ANDRADE, Oswald. O Rei Da Vela. 1 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1976. p17

3 - Ibid., p19.

4 - Ibid, p30.

5 - GEORGE, David. Teatro e Antropofagia. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 198 p37.

6 - Ibid., p 38.




Bibliografia


BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira.35 ed. São
      Paulo: Cultrix, 1994. 528 p.

GARCIA, Silvana. Teatro da Militância. 1 ed. São Paulo: Editora
      Perspectiva, 1990. 208 p.

GEORGE, David. Teatro e Antropofagia. 1 ed. São Paulo: Global
      Editora, 1985. 88p.

GONZAGA, Sergius. Manual de Literatura Brasileira. 9 ed. Porto
      Alegre: Mercado Aberto, 1993. 272 p.

Renato Lima

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