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FAGUNDES
VARELA E A CONSTRUÇÃO DA AMERICANIDADE
por
Weslei
Roberto Cândido (UNESP-Assis)
A
poesia de Fagundes Varela é, aparentemente, muito
heterogênea, possuindo quase todas as vertentes
trabalhadas pelo romantismo brasileiro. Talvez
esse fato se justifique pela época em que surgiu
seu primeiro livro de poesias , ou seja, 1861,
momento este em que a literatura brasileira estava
passando por um momento de transição. Não havia
nos meios literários nenhum poeta de peso. Gonçalves
Dias estava muito doente, Álvares de Azevedo havia
falecido e Castro Alves era ainda um estudante
ginasial. Devido ao período em que surgiu Varela,
Antonio Candido fala que ao poeta "[...]coube-lhe
a sina de reviver essa furiosa boêmia, tendo sido
no Romantismo o último arcanjo revel;[...]" .
Pode o ter sido na vida, mas em sua obra literária
foi um pouco diferente, possuindo algumas características
que podem ser muito mais interessantes para a
poesia brasileira, do que a simples imagem, que
foi construída através dos tempos, de poeta "desregrado",
tanto que o mesmo Antonio Candido fala que: "Não
é tampouco fácil o seu caso em face da história
literária".
Alguns dos temas trabalhados na obra vareliana
que podemos citar são: o byronismo, o lirismo,
a nacionalidade, o panteísmo, a americanidade
e o indianismo, este citado por último porque
foi trabalhado em Anchieta ou o Evangelho nas
Selvas, última obra que o poeta fez e revisou.
No entanto, mesmo tendo versado sobre os vários
temas do Romantismo brasileiro, podemos encontrar
uma linha que percorre toda a obra vareliana;
esta linha é o instinto de americanidade. Mas
antes de mostrarmos como essa vertente se desenvolveu,
cabe-nos falar um pouco sobre o que pode ser entendido
por instinto de americanidade no Brasil do século
XIX.
Concomitante à idéia de pátria que começou a ser
veiculada nos textos dos primeiros críticos do
romantismo brasileiro, surgiram algumas insinuações
sobre o sentimento de pertença à América, digo
insinuações porque a construção da nacionalidade
ocupava o primeiro plano nos artigos e o sentimento
americanista entrava como elemento de apoio às
idéias nacionalistas.
Assim, as idéias sobre o que era a América foram
trabalhadas pelos críticos Domingos José Gonçalves
de Magalhães, Santiago Nunes Ribeiro e Joaquim
Norberto de Sousa e Silva de forma um pouco inconsciente.
Exceção a esses críticos, foi Adolfo Varnhagen
que sistematizou um pouco o que seria o sentimento
de americanidade.
Essa intuição de que o Brasil não era apenas uma
pátria, mas também parte constituinte de um continente
aparece em Gonçalves de Magalhães como "este imenso
e rico país da América", em Joaquim Norberto como
"o novo império americano", em Santiago Nunes
Ribeiro, este mais voltado para o literário diz
que a poesia brasileira "é filha da inspiração
americana" e para Varnhagen "Deus o fade bem [ao
Brasil], para que os poetas em vez de imitarem
o que lêem se inspirem da poesia que brota com
tanta profusão do seio do próprio país". Neste
ponto alguns trechos da poesia vareliana nos ajudará
a visualizar melhor o que esses críticos tinham
como ideal de poesia americana:
Pisaste
uma nação, - nação tão grande
Que a loucura perdoa-te ("A Willian Christie",
Estandarte Auriverde)
Neste
verso vemos, claramente, a idéia do Brasil como
uma nação e a concretização do pensamento de Magalhães
no "tão grande", usado por Varela, dando
a idéia de imensidão do país, mas o Brasil também
é visto como um império pelo poeta:
É
o império da luz, o Éden dos anjos,
A pátria dos eleitos ("Predestinação", Vozes
da América)
Como
podemos ver, o Brasil/América é visto como um
império, um paraíso, a terra prometida, portanto
o que, aqui, havia era uma dádiva de Deus, não
era preciso construir nada. Assim, mais uma vez
vemos concretizado, na poesia de Varela, a idéia
de outro crítico, que chamou o Brasil de "império"
.
E para exemplificar o que disse Adolfo Varnhagen
de que os poetas não precisavam "imitar o que
lêem", mas apenas observar a natureza brasileira,
vejamos mais uma estrofe da obra vareliana:
Porém
minh'alma triste e sem um sonho
Repete olhando o prado, o rio, a espuma:
__ Ó mundo encantador, tú es medonho! ("Sonêto",
Vozes da América)
Nesta
estrofe vemos a atitude contemplativa do poeta
frente a natureza americana/brasileira. Temos
a imagem do poeta como um sofredor e que não tem
sonhos, justamente porque não precisa imaginar
um lugar perfeito, basta olhar os elementos da
natureza para ver um mundo "encantador" e "medonho"
ao mesmo tempo, ou seja, a inspiração do poeta
não precisa vir de outras leituras, mas apenas
da contemplação da natureza, como se fosse um
pintor querendo reproduzir numa tela as imagens
da América.
Fagundes Varela pode ter concretizado em seus
poemas muitas das idéias americanistas veiculadas
nos textos desses críticos, entretanto, vale lembrar
que essas idéias que encontramos, nos críticos
já citados, não nasceram aqui no Brasil, as idéias
foram importadas, assim como as noções de nacionalidade,
trabalhadas pelos autores românticos, principalmente,
do primeiro momento da literatura romântica no
século XIX. Neste ponto as palavras de Maria Helena
Rouanet nos ajudam a entender melhor a questão
de como nasceram as observações sobre a América
nos autores brasileiros:
"Poucas
surpresas aguardam quem resolver agora observar
a visão que se tinha da realidade americana no
Brasil do século XIX... Os elementos presentes
no discurso do europeu aqui também se faziam notar
e mereciam destaque."
Deste
modo, os escritores românticos insinuam em seus
textos as mesmas idéias presentes nos relatos
dos viajantes, até mesmo os adjetivos se repetem:
"grande", "imenso", "vasto Éden", "paraíso". No
entanto, esse esboço da americanidade nos autores
românticos está antes de tudo, a serviço do nacionalismo
literário, ainda mais se lembrarmos do adjetivo
que usou Joaquim Norberto para caracterizar o
Brasil: "o novo império americano", o que nos
leva a pensar que todos esses elementos confluíam
para exaltar o território brasileiro a ponto de
sermos visto como um projeto de "Quinto Império".
Mas
, as visões paradisíacas sobre o continente americano
que levariam ao "exotismo" na visão de Maria Helena
Rouanet, levam a exaltação da imagem do Brasil,
pois se os viajantes comparavam para poder explicar
a América ao europeu, o escritor brasileiro comparava
para mostrar a superioridade da natureza brasileira
sobre a européia. De uma certa maneira é o que
Silviano Santiago fala a respeito de como o escritor
latino-americano lê o signo estrangeiro, operando
uma inversão de visão, de modo a dar um novo valor
ao signo lingüístico já trabalhado pelo europeu
e como diz Silviano Santiago: "Em todo caso,
uma coisa é certa: as leituras do escritor latino-americano
não são nunca inocentes. Não poderiam nunca sê-lo".("O
entre lugar do discurso latino-americano" pg.24).
Ocorre assim, o que podemos chamar de uma refuncionalização
das imagens da América nos escritos brasileiros,
uma vez que serviram como mais um elemento na
construção da nacionalidade brasileira. E não
poderia ser diferente, pois se levarmos em conta
todo o desejo dos românticos em se desvencilhar
da metrópole, e de uma certa forma do peso mental
que colonizador exerce sobre o ex-colonizado para
construir uma imagem de Brasil independente de
Portugal, mesmo que para isso fosse necessário
adotar uma nova pátria cultural como exemplo a
ser seguido, as atitudes dos românticos brasileiros
nãos serviriam tanto aos risos de alguns, que
vêem no movimento romântico do primeiro momento
uma mera cópia das idéias francesas.
Mesmo
havendo as repetições das imagens da América nos
escritos dos críticos românticos, isso não era
feito de forma muito consciente, as idéias apenas
se insinuavam, pois o que estava em jogo no momento
era a construção da nacionalidade, portanto as
imagens a respeito da América ficavam, legadas
a um segundo plano.
Exceção em meios aos críticos do início do século
XIX foi Adolfo Varnhagen, o qual tratou o tema
da americanidade de forma bem consciente, sistematizando,
um pouco, como deveria ser uma poesia de cunho
americanista. Entre os aspectos que pudemos observar
no texto do crítico sobre o americanismo na poesia,
estão os seguintes elementos: a natureza como
tema central, depois comparar esta com a natureza
européia, a poesia deveria ser descritiva e por
fim, a imagem da América como o Éden. Sem dizer
que o que a natureza americana possui é uma dádiva
divina, o poeta não necessita buscar na sua imaginação
as imagens americanas, mas simplesmente contemplar
e transpô-las em versos como já havíamos dito
antes. Veja como Varnhagen deseja uma poesia americana:
"A
América nos seus diferentes estados, deve ter
uma poesia, principalmente no descritivo, só filha
da contemplação de uma natureza nova e virgem[...]".
Antonio
Candido também nos chama a atenção para a questão
do descritivo na poesia romântica, como um artifício
que devia ser usado pelos escritores para mostrar
"os elementos diferenciais" na literatura
nacional, os quais eram "a natureza e o índio".
( "Letras e idéias no período colonial" Literatura
e sociedade pg.89). Aqui, novamente podemos
nos valer de algumas imagens da poesia de Fagundes
Varela, onde a descrição dos elementos da natureza
brasileira brotam por todos os lados:
"Desponta
a estrêla d'alva, a noite morre,
Pulam no mato alígeros cantores,
E doce a brisa no arraial
Lânguidas queixas murmurando, corre"
Também,
é importante lembrar que o Brasil acabou sendo
visto como sinônimo de América, então, quando
se falava em cor local falava-se de cor americana
e vice-versa. Assim, ocorre uma extensão das exigências
dos críticos do XIX, pois se num primeiro momento
lamentavam a falta da cor brasileira nos textos,
agora lamentam que muitos escritores estavam se
abstendo de usar as cores americanas em suas poesias.
Baseados nestas observações que fizemos até agora,
podemos afirmar que a obra do poeta Fagundes Varela
possui muitos dos elementos necessários para a
constituição de uma poesia americana.
Um
dos elementos do instinto de americanidade era
o da comparação da América ao Éden, algo quase
divino, a verdadeira "pátria dos eleitos", a terra
prometida por assim dizer. Vejamos este trecho
do poema "Predestinação", de Fagundes Varela:
"E
o rio, a serra, as solidões e o homem
se espreguiçam sorrindo ao sol divino
da volúpia no véu.
__ O que vês sonhador? __Oh! Não perguntes!
É o império da luz, o Éden dos anjos
A pátria dos eleitos! (Vozes da América)
A
imagem do paraíso na poesia de Varela é clara,
e esse paraíso é a própria América. Isto é revelado
no final do poema, no entanto, o mais interessante
não é isso, mas a consciência que o eu poético
possui de que essa visão paradisíaca veio de fora,
do colonizador. Vejamos o final do poema:
"Sabeis
quem era esse mancebo pálido?
Era Colombo o Genovês, e a plaga
Que ele avistara ao longe- o Novo Mundo."(idem)
Outra
nuança da americanidade era a comparação da natureza
brasileira com a européia, momento este em que
o Brasil era sempre superior ao "velho mundo",
e isso também está na poesia vareliana:
"Bela
estrela de luz___ diamante fúlgido
Da coroa de Deus __ pérola fina
Dos
mares do ocidente,
Oh! Como altiva sobre nuvens de oiro
A fronte elevas afogando em chamas
O velho continente! ("AO BRASIL" O estandarte
auriverde)
A
Europa seria o lugar frio e apagado, enquanto
o Brasil era o lugar quente abençoado pela Providência
e, aí, o nacional era valorizado, pois basta observar
a descrição feita do Brasil na estrofe e vamos
encontrar a imagem brasileira apagando a imagem
européia como um sombra, mas não é um simples
sombra, é uma sombra feita por "nuvens de oiro".
Ainda,
tratando sobre o que poderia ser a americanidade
Zilá Bernd nos ajuda um pouco , uma vez que para
ela "é através dos contos e das lendas populares
veiculadas, em sua maioria oralmente, que uma
versão outra da realidade do imaginário americano
é transmitido."(Literatura e americanidade
pg. 13)
Se pensarmos segundo essa perspectiva Fagundes
Varela possui muito mais de poeta americanista
do que pensamos, pois se observarmos poemas como
"Antonico e Corá" e "Leviandades de Cíntia", os
quais para Antonio Candido são poemas da roça,
teremos na verdade, poemas/contos que nos mostram
a realidade de um América bem divertida, uma vez
que os poemas se aproximam às anedotas ou "causos"contados
por alguém do povo.
"Antonico
e Corá" é um divertida história em que Antonico
abandona Corá e depois de um certo tempo, já estando
casado, se arrepende e resolve voltar para a casa
a fim de pedir perdão, para isso vai confessar-se
e descobre que sua mulher está casada com um padre,
o qual lhe propõem um acordo:
[Antonico]"A
mulher que me pertence,
que aí repousa a seu lado!
É isto que eu chamo um feio,
Vil pecado!
.....................................
[o
padre]...E fala__ Sossega, filho,
Tudo, tudo arranjaremos,
Chega-te aqui para perto,
Conversemos: (o grifo é nosso)
O
poema "Leviandades de Cíntia", também é outra
história muito divertida. Três homens vão até
uma ponte para cometer suicídio por amores a uma
mulher, sendo um deles o marido, mas os dois amantes,
resolvem antes de pular da ponte gritar o nome
da amada juntos e descobrem que iam se matar pela
mesma mulher, momento este em que o marido aparece
e os dois amantes fogem da faca do esposo de Cíntia,
esquecendo a idéia de suicídio:
"Fujamos,
meu amigo! É o marido!
É o marido que chegou, fujamos!
Ei-lo! Que brilho o seu punhal espalha!
Como é grande, meu Deus! Como é terrível!
Corramos já sinto pelo ventre
O imperioso anúncio do perigo!...
Fica para outro dia o nosso plano!" (Cantos
do Ermo e da Cidade)
Outra
faceta da amercianidade de Fagundes Varela está
nas diversas descrições da natureza que há em
sua obra, entre elas podemos citar os poemas:
"As Selvas", "Soneto", "O Vagalume", "Cantiga",
o "Sabiá" e muitas outras composições. Sem falar
das diversas composições que fez para serem musicadas
na época.
Desta
maneira, ao observarmos a obra de Fagundes Varela
pelo prisma do instinto de americanidade, é interessante
refarzermos aquela imagem de poeta e pai sofredor
que nos é passado no "Cântico do Calvário", para
olhá-lo de uma maneira um pouco diferente, ou
seja, a de um poeta engajado no ideal de construção
da nacionalidade brasileira, que escolheu o "americanismo"
como meio de exaltar o Brasil em suas composições,
pois não podemos nos esquecer que muitas vezes
o nome América foi usado como sinônimo de Brasil
e vice-versa.
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