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9 April, 2003 10:26
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Memórias
Póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis - Realismo
Com
Memórias Póstumas de Brás
Cubas, publicado em 1881, Machado de Assis inaugura
o realismo nas letras brasileiras. A partir dessa
obra ele se revela um arguto observador e analista
psicológico dos personagens.
O
ritmo da obra é lento, com várias
digressões e narrado de maneira irreverente
e irônica por um "defunto autor"
(e não um "autor defunto", como
podem pensar). Brás Cubas, por estar morto,
se exime de qualquer compromisso com a sociedade,
estando livre para critica-la e revelar as hipocrisias
e vaidades das pessoas com quem conviveu.
Brás
Cubas vai contando a sua vida e contando os vários
episódios que viveu. Conta sobre a prostituta
de luxo espanhola Marcela, que o amou "durante
quinze meses e onze contos de réis".
Para livrar-se dela, os pais de Brás Cubas
decidem manda-lo para a Europa. Volta doutor,
em tempo de ver a mãe antes de morrer.
O seu amigo de escola Quincas Borba:
"Uma flor, o Quincas Borba. Nunca em minha
infância,
nunca em toda a minha vida, achei um menino mais
gracioso,
inventivo e travesso"
E quando ele o reencontra anos depois:
"Aposto que me não conhece, Senhor
Doutor Cubas?
disse ele.
Não me lembra...
Sou o Borba, o Quincas Borba. (...)
O Quincas Borba! Não; impossível;
não pode ser. Não podia
acabar de crer que essa figura esquálida,
essa barba pintada
de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda
essa ruína
fosse o Quincas Borba. E era."
Pouco
depois Quincas Borba aparece rico e filósofo,
herdeiro de uma grande fortuna e propagador do
Humanitismo.
O
seu projeto político nunca alcançou,
muito bem explicado no capítulo 139:
"De Como Não Fui Ministro d'Estado
............................................................
............................................................
............................................................"
O
amor por Virgília, o caso extra-conjugal
que teve com ela, e a alegria de ter um filho:
"Lá me escapou a decifração
do mistério, (...) quando Virgília
me
pareceu um pouco diferente do que era. Um filho!
Um ser tirado do meu
ser! Esta era a minha preocupação
exclusiva daquele tempo.
Olhos do mundo, zelos do marido, morte do Viegas,
nada me
interessava por então, nem conflitos políticos,
nem revolu-
ções, nem terromotos, nem nada.
Eu só pensava naquele
embrião anônimo, de obscura paternidade,
e uma voz secreta
me dizia: é teu filho. Meu filho! E repetia
estas duas palavras,
com certa voluptuosidade indefinível, e
não sei que assomos
de orgulho. Sentia-me homem."
A
criança morre antes de nascer, e os amantes
se separam. A irmã arranja-lhe uma noiva,
Eulália, que no entanto, morre vítima
de uma epidemia.
Sem
conseguir ser político, Cubas em busca
da celebridade tenta lançar o emplastro
Brás Cubas, porem vêm a falecer de
pneumonia antes de realizar o seu intento.
O
último capítulo é bastante
elucidativo:
"Este último capítulo é
todo de negativas. Não alcancei a
celebridade do emplasto, não fui ministro,
não fui califa, não
conheci o casamento. Verdade é que, ao
lado dessas faltas,
coube-me a boa fortuna de não comprar o
pão com o suor do
meu rosto. Mais; não padeci a morte de
Dona Plácida, nem a
semidemência do Quincas Borba. Somadas umas
coisas e
outras, qualquer pessoa imaginará que não
houve míngua nem
sobra, e conseguintemente que sai quite com a
vida. E imagi-
nará mal; porque ao chegar a este outro
lado do mistério,
achei-me com um pequeno saldo, que é a
derradeira negativa
deste capítulo de negativas: Não
tive filhos, não transmiti
a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."
O mais
importante da obra Memórias Póstumas
de Brás Cubas certamente não é
o enredo e sim a linguagem utilizada por Machado
de Assis. A denúncia tácita da sociedade,
por meio da leve ironia e humor.
Renato Lima
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