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Grandre
Sertão: Veredas - Guimarães Rosa
Grande
Sertão :Veredas - travessia que Riobaldo,
narrador-personagem, faz em suas memórias
a fim de narrar suas vivências a um "senhor"
durante três dias. Travessia que Guimarães
Rosa faz através do caráter insólito
e ambíguo do homem, tornando uma experiência
individual (Riobaldo ) em caráter universal
- "o sertão é o mundo".
A
primeira parte do romance (até aproximadamente
à página 80), Riobaldo faz um relato
"caótico" e desconexo de vários
fatos (aparentemente sem relações
entre si ), sempre expondo suas inquietações
filosóficas (reflexões sobre a vida,
a origem de tudo, Deus, Diabo, ...) -Eu queria
decifrar as coisas que são importantes.
E estou contando não é uma vida
de sertanejo, seja se fôr jagunço,
mas a matéria vertente. "O discurso
ambivalente de Riobaldo (...) se abre a partir
de uma necessidade, verbalizada de maneira interrogativa".
No entanto, há uma grande dificuldade em
narrar e organizar seus pensamentos : Contar
é muito dificultoso. Não pelos anos
que se já passaram. Mas pela astúcia
que tem certas coisas passadas - de fazer balancê,
de se remexerem dos lugares. É o compadre
Quelemém de Góis que lhe socorre
em suas dúvidas, mas não de forma
satisfatória, daí a sua necessidade
de narrar.
A
partir da página 80, Riobaldo começa
a organizar suas memórias. Fala da mãe
Brigi, que o obrigava à esmolação
para a paga de uma promessa. É nessa ocasião,
à beira do "Velho Chico", que
Riobaldo se encontra pela primeira vez com o garoto
Reinaldo, fazendo juntos uma travessia pelo rio
São Francisco. Riobaldo fica fascinado
com a coragem de Reinaldo, pois como este afirma
: "sou diferente (...) meu pai disse que
eu careço de ser diferente (...).
A
mãe de Riobaldo vem a falecer, sendo ele
levado à fazenda São Gregório,
de seu padrinho Selorico Mendes. É lá
que Riobaldo toma contato com o grande chefe Joca
Ramiro, juntamente com os chefes Hermógenes
e Ricardão. Selorico Mendes envia o seu
afilhado ao Curralinho, a fim de que tivesse contato
com os estudos. Posteriormente, assume a função
de professor de Zé Bebelo (fazendeiro residente
no Palhão com pretensões políticas.
Zé Bebelo, querendo pôr fim aos jagunços
que atuavam no sertão mineiro, convida
Riobaldo a participar de seu bando. Riobaldo troca
as letras pelas armas. É desse ponto que
começa suas aventuras pelo norte de Minas,
sul da Bahia e Goiás como jagunço
e depois como chefe.
O
bando de Zé Bebelo faz combate com Hermógenes
e seus jagunços, onde este acaba por fugir.
Riobaldo deserta do bando de Zé Bebelo
e acaba por encontrar Reinaldo ( jagunço
do bando de Joca Ramiro), ingressando no bando
do "grande chefe". A amizade entre Riobaldo
e Reinaldo acaba por se tornar sólida ,
onde Reinaldo revela o seu nome - Diadorim - pedindo-lhe
segredo. Juntamente com Hermógenes , Ricardão
e outros jagunços , combate contra as tropas
do governo e de Zé Bebelo .
Depois
de um conflito com o bando de Zé Bebelo,
o bando liderado por Hermógenes fica acuado,
acabando-se por se separar , reunindo-se posteriormente
. O chefe Só Candelário acaba por
integrar-se ao bando de Hermógenes , tornando-se
líder do bando até o encontro com
Joca Ramiro . Nessa ocasião , Joca Ramiro
presenteia Riobaldo com um rifle , em reconhecimento
à sua boa pontaria (a qual lhe faz valer
apelidos como "Tatarana" e "Cerzidor")
. O grupo de Joca Ramiro acaba por se dividir
para enfrentar Zé Bebelo , conseguindo
capturá-lo . Zé Bebelo é
submetido a julgamento por Joca Ramiro e seus
chefes - Hermógenes , Ricardão,
Só Candeário , Titão Passos
e João Goanhá - acabando
a ser condenado ao exílio em Goiás
.
Depois
do julgamento, o bando do grande chefe
se dispersa, Riobaldo e Diadorim acabam por seguir
o chefe Titão Passos. Posteriormente, o
jagunço Gavião-Cujo vai ao encontro
do grupo de Titão Passos para informar
a morte de Joca Ramiro, que foi assassinado à
traição por Hermógenes e
Ricardão ("os judas"). Riobaldo
fica impressionado com a reação
de Diadorim diante da notícia. Os jagunços
se reúnem para combaterem os judas .
Por
essa época , Riobaldo tem um caso com Nhorinhá
(prostitutriz), filha de Ana Danúzia. Conhece
Otacília na fazenda Santa Catarina,
onde tem intenções verdadeiras de
amor. Diadorim, em determinada ocasião,
por ter raiva de Otacília, chega a ameaçar
Riobaldo com um punhal.
Medeiro
Vaz junta-se ao bando para a vingança,
assumindo a chefia. Inicia-se a travessia do Liso
do Sussuarão. O bando não agüenta
a travessia e acaba por retornar. Medeiro Vaz
morre. Zé Bebelo retorna do exílio
para ajudar na vingança contra os judas,
tomando a chefia do bando.
Por
suas andanças, o bando de Zé Bebelo
chega à fazenda dos Tucanos, onde são
encurralados por Hermógenes. Momentos de
grande tensão. Zé Bebelo envia dois
homens para informarem a presença de jagunços
naquele local. Riobaldo desconfia de uma possível
traição com esse ato. O bando de
Hermógenes fica acuado pelas tropas do
governo e os dois lados se unem provisoriamente
para escaparem dos soldados . Zé Bebelo
e seus homens fogem à surdina da fazenda,
deixando os hermógenes travando combate
com os soldados. Riobaldo oferece a pedra de topázio
a Diadorim, mas este recusa, até que a
vingança tenha sido consumada .
Os
bebelos chegam às Veredas-Mortas. É
um dos pontos altos do romance, onde Riobaldo
faz o pacto com o Diabo para vencerem os judas.
Riobaldo acaba assumindo a chefia do bando com
o nome de "Urutu-Branco"; Zé
Bebelo sai do bando. Riobaldo dá a incumbência
a "seô Habão" para entregar
a pedra de topázio a Otacília, firmando
o compromisso de casamento. O chefe Urutu-Branco
acaba por reunir mais homens ( inclusive o cego
Borromeu e o menino pretinho Gurigó).
À
procura dos hermógenes, fazem a penosa
travessia do Liso do Sussuarão, onde Riobaldo
sofre atentado por Treciano, que é morto
pelo próprio chefe. Atravessado o Liso,
Riobaldo chega em terras baianas, atacando a fazenda
de Hermógenes e aprisionando sua mulher
. Retornam aos sertões de Minas, à
procura dos judas. Encurralam o bando de Ricardão
nos Campos do Tamanduá-tão,
onde o Urutu-Branco mata o traidor. Encontro dos
hermógenes no Paredão. Luta
sangrenta. Diadorim enfrenta diretamente Hermógenes,
ocasionando a morte de ambos. Riobaldo descobre
então que Diadorim se chama Maria Deodorina
da Fé Bittancourt Marins, filha de
Joca Ramiro.
Riobaldo
acaba por adoecer (febre-tifo). Depois de se restabelecer,
fica sabendo da morte de seu padrinho e herda
duas fazendas suas. Vai ao encontro de Zé
Bebelo, o qual o envia com um bilhete de apresentação
a Quelemém de Góis : Compadre
meu Quelemém me hospedou , deixou meu contar
minha história inteira. Como vi que ele
me olhava com aquela enorme paciência -
calma de que minha dor passasse; e que podia esperar
muito longo tempo. O que vendo, tive vergonha,
assaz .
Mas , por fim , eu tomei coragem , e tudo perguntei:
-"O senhor acha que a minha alma eu vendi
, pactário?! "
Então ele sorriu, o pronto sincero, e me
vale me respondeu :
-"Tem cisma não. Pensa para diante.
Comprar ou vender, às vezes, são
as ações que são as quase
iguais ..."
(...)
Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou
aqui, quase barranqueiro. (...) Amável
senhor me ouviu, minha idéia confirmou:
que o Diabo não existe. Pois não?
O senhor é um homem soberano , circunspecto.
Amigos somos. Nonada. O diabo não há!
É o que eu digo, se fôr ... Existe
é homem humano. Travessia.
4 - Linguagem
Em
Grande Sertão: Veredas, Guimarães
Rosa faz uma recriação da linguagem
, "recondicionando-a inventivamente, saindo
do lugar-comum a fim de dar maior grandeza ao
discurso. Nu da cintura para os queixos
(ao invés de nu da cintura para cima)
e ainda Não sabiam de nada coisíssima
(no lugar de não sabiam de coisa nenhuma)
constituem exemplos do apuramento da linguagem
roseana.
Toda
a narrativa é marcada pela oralidade (Riobaldo
conta seus casos a um interlocutor), portanto,
sem possibilidades de ser reformulado, já
que é emitido instantaneamente. Ainda tem-se
as dúvidas do narrador e suas divagações,
onde é percebido a intenção
de Riobaldo em reafirmar o que diz utilizando
a própria linguagem .
O
falar mineiro associado a arcaísmos, brasileirismos
e neologismos faz com que o autor de Sagarana
extrapole os limites geográficos de Minas.
A linguagem ultrapassa os limites "prosaicos"
para ganhar dimensão poético-filosófica
(principalmente ao relatar os sentimentos para
com Diadorim ou a tirar conclusões sobre
o ocorrido através de seus aforismos).
4.1 - Aforismos
1. Viver é muito perigoso
2. Deus é paciência
3. Sertão. O senhor sabe : sertão
'onde manda quem é forte , com as astúcias
.
4. ...sertão é onde o pensamento
da gente se forma mais forte do que o poder do
lugar .
5. ...toda saudade é uma espécie
de velhice
6. Jagunço é isso . Jagunço
não se escabreia com perda nem derrota
- quase tudo para ele é o igual.
7. Deus existe mesmo quando não há
. Mas o demônio não precisa de existir
para haver .
8. Viver é um descuido prosseguido .
9. sertão é do tamanho do mundo
10. Vingar , digo ao senhor : é lamber
, frio , o que o outro cozinhou quente demais
.
11. Quem desconfia , fica sábio .
12. Sertão é o sozinho .
13. Sertão : é dentro da gente .
14. ...sertão é sem lugar .
15. Para as coisas que há de pior , a gente
não alcança fechar as portas .
16. Vivendo , se aprende ; mas o que se aprende
, mais , é só a fazer outras maiores
perguntas .
17. ...amor só mente para dizer maior verdade
.
18. Paciência de velho tem muito valor .
19. Sossego traz desejos .
20. ... quem ama é sempre muito escravo
, mas não obedece nunca de verdade .
5 - Estrutura de Narrativa
I - TEMPO
Psicológico
. A narrativa é irregular ( enredo não
linear), sendo acrescidos vários casos
pequenos.
II - FOCO NARRATIVO
Primeira
pessoa - narrador-personagem - utilizando-se do
discurso direto e indireto livre.
III - ESPAÇO
A
trama ocorre no sertão mineiro (norte)
, sul da Bahia e Goiás . No entanto , por
se tratar de uma narrativa densa , repleta de
reflexões e divagações ,
ganha um caráter universal - "o sertão
é o mundo".
IV PERSONAGENS
· PRICIPAL:
Riobaldo
: personagem-narrador que conta sua estória
a um doutor que nunca aparece. Riobaldo sente
dificuldades em narrar, seja por sua precariedade
em organizar os fatos , seja por sua dificuldade
em entendê-los. Relata sua infância,
a breve carreira de professor (de Zé Bebelo
), até sua entrada no cangaço (de
jagunço Tatarana a chefe Urutu-Branco),
estabelecendo-se às margens do São
Francisco como um pacato fazendeiro.
· SECUNDÁRIOS:
Diadorim:
é o jagunço Reinaldo, integrante
do bando de Joca Ramiro. Esconde sua identidade
real (Maria Deodorina) travestindo-se de homem.
Sua identidade é descoberta ao final do
romance, com sua morte.
Zé
Bebelo: personalidade com anseios políticos
que acaba por formar bando de jagunços
para combater Joca Ramiro. sai perdedor, sendo
exilado para Goiás e acaba por retornar
com a morte do grande chefe para vingar o seu
assassinato.
Joca
Ramiro: é o maior chefe dos jagunços,
mostrando um senso de justiça e ponderação
no julgamento de Zé Bebelo, sendo bastante
admirado .
Medeiro
Vaz : chefe de jagunços que se
une aos homens de Joca Ramiro para combater contra
Hermógenes e Ricardão por conta
da morte do grande chefe .
Hermógenes
e Ricardão: são os traidores,
sendo chamados de "judas", que acabam
por matar Joca Ramiro. Muitos jagunços
acreditavam que Hermógenes havia feito
o pacto com o Diabo .
Só
Candelário: outro chefe que ajuda
na vingança. Possuía grande temor
de contrair lepra.
Quelemém
de Góis: compadre e confidente
de Riobaldo, que o ajuda em suas dúvidas
e inquietações sobre o Homem e o
mundo.
· AS TRÊS FACES AMOROSSAS DE
RIOBALDO:
Nhorinhá
: prostituta, representa o amor físico.
O seu caráter profano e sensual atrai Riobaldo,
mas somente no aspecto carnal.
Otacília:
contrária a Nhorinhá , Riobaldo
destina a ela o seu amor verdadeiro (sentimental).
É constantemente evocada pelo narrador
quando este se encontrava desolado e saudoso durante
sua vida de jagunço. Recebe a pedra de
topázio de "seô Habão",
simbolizando o noivado.
Diadorim
: representa o amor impossível, proibido.
Ao mesmo tempo em que se mostra bastante sensível
com uma bela paisagem, é capaz de matar
a sangue frio. É ela que causa grande conflito
em Riobaldo, sendo objeto de desejo e repulsa
(por conta de sua pseudo identidade).
6- BIBLIOGRAFIA
ROSA , João Guimarães. Grande
Sertão: Veredas. Rio de Janeiro,
Nova Fronteira
, 1986 .
BOSI , Alfredo. História Concisa da
Literatura Brasileira. São Paulo,
Cultrix , 1988.
CASTRO, Nei Leandro de. Universo e Vocabulário
do Grande Sertão,
20 ed. , Rio de
Janeiro, Achiamé, 1982 .
Jorge
Alberto
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