Macunaíma
- Mário de Andrade - Modernismo
Cap.I
- MACUNAÍMA
Relata
o nascimento do herói, "preto retinto,
filho do medo na noite", nascido de uma
índia tapanhumas no meio da selva, Macunaíma
aprende tardiamente a falar, mas, quando o faz
(com 6 anos ao lhe darem água no chocoalho),
tem pronto o seu bordão: "Ai, que
preguiça!..."
Tinha
dois irmãos, Jiguê e Maanape, um
velhinho feiticeiro. A diversão de Macunaíma
era decepar cabeças de saúva e
tomar banho nu junto com a família e
as cunhãs, cujas partes íntimas
agradavam muito o herói; enquanto "guspia"na
cara dos machos.
À
noite, de cima de sua rede onde dormia, mijava
quente na velha mãe, sonhando imoralidades
e dando coices no ar.
A
companheira de Jiguê, Sofará, ajudava
a cuidar de Macunaíma, levando-o ao mato
para passear, mas chegando lá ele se
transformava em um lindo príncipe e "brincava"
muito com ela. Quando Jiguê chegava na
maloca e encontrava o serviço por fazer,
catava os carrapatos dela e dava-lhe uma grande
surra, a qual recebia calada.
Macunaíma
conseguiu capturar uma anta quando estava no
mato com com Sofará. Neste dia a cunhã
se transformou em uma onça suçuarana
e "brincou" violentamente com o herói,
sendo assistidos por Jiguê. Este, deu
uma surra no herói , levando Sofará
de volta ao pai.
"O
berreiro foi tão grande que encurtou
o tamanho da noite e os pássaros caíram
de susto e transformaram em pedras."
Cap.II
- MAIORIDADE
Jiguê
arranja uma companheira nova, Iriqui, que trazia
escondido um ratão na maçaroca
dos cabelos.
Falta
o que comer na maloca e para se divertir às
custas dos manos, Macunaíma mente que
tem timbó no rio, assim eles passam o
dia todo procurando timbó, enquanto o
herói afirma que timbó já
tinha sido gente um dia...
Faz
uma mágica para a mãe levando-a
para o outro lado do rio, onde havia fartura
de caça e frutas, mas ao perceber que
a mãe pretende levar alimentos para os
outros, transporta-a de volta sem nada. Com
raiva, a velha leva-o para o Cafundó
do Judas, abandonando-o onde não poderia
crescer nunca mais; lá encontrou Currupira,
de cuja perna cortou um pedaço e deu
para Macunaíma comer, intencionando devorá-lo
depois. Macunaíma foge, enquanto Currupira
chama pelo pedaço de sua perna que lhe
responde: "O que foi?". Assim, ele
vomita o pedaço de carne e some.
Uma
cotia derrama-lhe uma poção mágica
que o faz crescer, contudo assustado desvia
e a cabeça do herói não
é atingida pela magia, ficando com cara
de piá.
Chegando
na maloca, fica sozinho com Iriqui e "brinca"
com ela, tornando-se seu companheiro. Em uma
caçada, persegue uma viada matando-a,
ao chegar perto desmaia: a viada era sua velha
mãe!
"Então
Macunaíma deu a mão para Iriqui,
Iriqui deu a mão pra Maanape, Maanape
deu a mão pra Jiguê e os quatro
partiram por esse mundo"
Cap.III
- CI, A MÃE DO MATO
Um
dia encontrou Ci dormindo no mato e quis "brincar"com
ela, porém a cunhã defendeu-se
violentamente, os manos precisaram acudi-lo,
pois Ci o estava quase matando. Depois de uma
paulada na cabeça, ela desmaiou e o herói
pôde "bricar"com a mãe
do mato. Agora virara Imperador do Mato Virgem,
por isso muitas jandaias, araras, tuins, coricas,
periquitos etc, vieram saudar Macunaíma.
Passara
agora a viver com Ci, por quem se apaixorara
depois de com ela "brincar" em uma
rede trançada por ela com os próprios
cabelos. Depois de seis meses tiveram um filho
que logo morreu ao mamar no peito da mãe,
pois este estava contaminado pelo veneno da
Cobra Preta.
Neste
dia Ci entraga a Macunaíma uma muiraquitã
e sobe ao céu, transformando-se Na Beta
do Centauro e no túmulo do filho nasceu
um pé de guaraná.
"Com
as frutinhas piladas dessa planta é que
a gente cura muita doença e se refresca
durante o calorão de Vei, a Sol".
Cap.
IV - BOIÚNA LUNA
Fez
da muiraquitã um tembetá pendurado
no beiço inferior e padeçou muita
saudade de Ci. Assim, choroso, seguiu viagem
com os manos, sempre acompanhado das jandaias,
araras etc.
Neste
capítulo, o narrador relata a lenda do
surgimento da Lua. Esta era a boiúna
Capei que deveria possuir uma virgem de nome
Naipi, porém Naipi entregara sua virgindade
ao moço Titçatê. Capei transformou
Naipi em uma cachoeira chorosa e o moço
em uma planta de flores roxas. Macunaíma
ouviu a história da Cascata e disse-lhe
que tinha vontade de matar Capei por isso. Capei
saiu de baixo de Naipi, onde morava vigiando
o sexo da moça e partiu para se vingar
do herói. Macunaíma arrancou-lhe
a cabeça e este membro de Capei tornou-se
escravo dele sempre perseguindo-o, por fim resolveu
subir ao céu e lá ficou morando
para sempre.
Ele
perde o talismã nessa correria e o passarinho
uirapuru conta-lhe que a pedra fora achada por
um mariscador e vendida pra um regatão
peruano chamado Venceslau Pietro Pietra, Piaimã,
o gigante comedor de gente que andava com os
calcanhares para frente, enriquecera e agora
morava na cidade de São Paulo.
"Então
Macunaíma contou o paradeiro da muiraquitã
e disse pros manos que estava disposto a ir
em SP procurar esse tal Venceslau P. P. e retomar
o tembetá roubado."
Cap.V
- PIAIMÃ
Macunaíma
deixa a consciência na ilha de Marapatá,
sobre um pé de caruru e ruma pra SP junto
com seus manos através do rio Araguaia.
Sem
perceber tomou banho em uma água encantada
e ficou branco, louro e de olhos azuizinhos,
os irmãos também entraram na água,
porém já suja do negrume do herói,
Jiguê ficou vermelho e Maanape só
molhou as palmas das mãos que ficaram
mais claras. E seguiram levando uma parte do
tesouro da icamiabas.
Chegando
em SP a comitiva de pássaros se despedem
dele. Olhava pro céu, sentia saudade
de Ci, mas conheceu a moças brancas (Mani!
Mani! filhinhas da mandioca...") com quem
"brincou" por quatrocentos bagarotes.
Tudo
para ele era estranho na cidade e foi aprendendo
o nome das coisas ( bondes, automóveis,
relógio, faróis, rádios,
telefones, postes chaminés) as quais
chamava de Máquina. Concluiu então
que "os homens é que eram máquinas
e as máquinas é que eram homens."
Macunaíma
saiu com Maanape em busca de Piaimã e
da muiraquitã, mas o herói foi
pego pelo gigante que o queria devorar. Maanape,
ajudado por uma formiga sarará e um carrapato,
conseguiu trazer o herói de volta à
pensão e ressucitou-o com guaraná.
Pensou em arranjar uma arma para matar o gigante
e foi pedir aos ingleses.
"Agora
dou minha garrucha pra você e quando alguém
bulir comigo você atira. Então
virou Jiguê na máquina telefone,
ligou pro gigante e xingou a mãe dele".
Cap.VI - A FRANCESA E O GIGANTE
Tentando
enganar o gigante, virou Jiguê em telefone
e disse a Venceslau que uma francesa iria visitá-lo.
Transformado em uma francesa linda foi para
tentar negociar a muiraquitã, mas o gigante
queria possuí-lo antes de entregar a
pedra.
Piaimã
descobre que o herói está tentando
enganá-lo e tenta pegá-lo; Macunaíma
corre muito, atravessando vários Estados
do Brasil e só se livra do gigante quando
este tenta tirá-lo de um buraco e pega
no "sim-sinhô" do herói
arremessando-o longe.
Descobriu
que Venceslau era um colecionador célebre
e ele não, ficou contrariado e resolveu
que colecionaria palavrões.
"Ai!
Que preguiça!..."
Cap.
VII - MACUMBA
Para
se livrar de Piaimã, ele resolve ir ao
RJ, no terreiro da tia Ciata, pedir ajuda pro
Exu diabo. O herói experimentou a cachaça
e soltava gargalhadas escandalosas, por isso
todos pensavam que o santo abaixaria nele naquela
noite. De repente uma polaca pulou no meio da
roda, era Exu que havia possuído a moça.
Macunaíma ficou excitado de vê-la
caída daquele jeito e correu brincar
com ela no meio da roda. Pediu à entidade
que judiasse muito de Piaimã e, através
do corpo da polaca, Macunaíma ia fazendo
as maldades para o gigante que quase morria
de tanto sofrer...
"E
os macumbeiros, Macunaíma, Jaime Ovalle,
Dodô, Manu Bandeira, Blaise Cendrars,
Ascenso Ferreira, Raul Bopp, Antônio Bento,
todos esses macumbeiros saíram na madrugada".
Cap.VIII - VEI, A SOL
Seguindo,
Macunaíma topou com a árvore Volomã,
cujos galhos estavam carregadinhos de variadas
frutas; pediu uma e Volomã negou. Então
o herói pronunciou algumas palavras mágicas
e todas foram para o chão. Irada, Volomã
atirou-o pelos pés em uma ilha deserta.
Demorou tanto a cair que dormiu durante o percurso.
Lá um urubu fez necessidade em sua cabeça
e, po isso, ninguém se dispunha a trazê-lo
de volta, pois estava fedendo muito.
Vei,
a Sol deu-lhe carona em sua jangada juntamente
com suas três filhas, pois pretendia torná-lo
seu genro. Mas para isso disse-lhe que não
poderia brincar com nenhuma outra cunhã.
Nem bem saíram para iluminar o dia, Macunaíma
encontrou uma portuguesa com quem brincou demoradamente.
Quando chegaram encontraram o herói dormindo
com ela na jangada. Vei se zangou e não
consentiu que o herói se casasse com
nenhuma. À noite uma assombração
comeu a portuguesa e o herói voltou para
a pensão.
"Pouca
saúde e muita saúva, os males
do brasil são!"
Cap.
IX - CARTA PRAS ICAMIABAS
Com
um vocabulário erudito, escreve uma carta
pras icamiabas, tentando relatar-lhes as aventuras
pelas quais estavam passando ele e seu dois
irmãos. Explica-lhes como os paulistanos
as chamam, por amazonas, e como estes nunca
ouviram falar da muiraquitã tão
conhecida e respeitada entre as icamiabas. Sobre
o dinheiro ,chama-o de "o curriculum vitae
da civilização", para explicar
que as mulheres cobram para brincar.
Prolonga-se
na tentativa de descrever o comportamento das
mulheres paulistanas: como se vestem, como se
casam. Fala dos prostíbulos, da política,
vida pública em geral e, por fim, descreve
a cidade de São Paulo sempre com um linguajar
prolixo
"Vazada
num vernáculo pernosticamente castiço,
com evidente intenção satírica,
visando os puristas da belle époque e
todos aqueles mais afeitos à dicção
portuguesa."( Massud de Moisés -
História da Literatura Brasileira).
"Ora,
sabereis que a sua riqueza de expressão
intelectual é tão prodigiosa,
que falam numa língua e escrevem noutra."
Cap.X - PAUÍ-PÓDOLE
Enquanto
aguardava uma chance de recuperar a muiraquitã,
Macunaíma passeava pela cidade. Foi assim
que encontrou uma cunhã vendendo flores
e quando o herói passou por ela, esta
colocou-lhe uma flor na botoeira da camisa,
orifício que ele chamou de "puíto",
segundo o narrador, um palavrão muito
feio. Puíto pegou e virou moda.
Depois
de uma semana, resolveu ir ao parque ver os
fogos. No caminho encontrou Fraülen ( personagem
do livro Amar, verbo intransitivo) e
foi com ela.
Observando
um mulato explicar sobre o dia do Cruzeiro,
Macunaíma resolve desmenti-lo e contar
sua versão: Pauí-Pódole
era o pai do Mutum, um pássaro que fora
perseguido por um feiticeiro que tentou matá-lo.
Por isso Pauí resolveu morar no céu
e pediu para que seu compadre vagalume alumiasse
o caminho dele. Vários vagalumes o acompanharam
e po isso esse caminho de estrelas pode ser
explicado.
Cap. XI - A VELHA CEIUCI
Sempre
mentindo, Macunaíma convidou os manos
pra caçar. Pegou dois ratos chamuscados
no fogo, comeu-os e disse aos vizinhos que tinha
matado dois viados catingueiros.
Depois
de desmentido pelos manos, ficou chateado e
começou a ter lembranças do Mato
e de Ci. Então ficaram juntos lembrando
do passado.
O
herói fumou fava de paricá para
ter sonhos gostosos. No outro dia causa uma
grande confusão quando convence os manos
a procurarem rasto de tapir na frente da bolsa
de mercadorias, quase foi linchado e preso.
Um
dia resolveu pescar no igarapé Tietê
e encontrou a velha Ceiuci, esposa de Piaimã.
Ela capturou o herói e levou-o para casa.
A filha mais nova da velha gostou de Macunaíma
, "brincou" com ele e deixou-o fugir.
A velha transformou a filha em um cometa e correu
o Brasil inteiro atrás do herói.
Ele pegou carona com um tuiuiu e voltou para
a pensão.
"A
filha expulsa corre no céu, batendo perna
de déu em déu."
Cap.XII
- TEQUETEQUE, CUPINZÃO E A INJUSTIÇA
DOS HOMENS.
Piaimã
viaja à Europa para descansar da sova
e Macunaíma fica muito frustrado. O mano
Jiguê tem a idéia de irem atrás
do gigante, porém Maanape conclui que
o melhor é que Macunaíma se finja
de pianista e vá sozinho por conta do
governo. Macunaíma prefere se passar
por pintor, porém não consegue
nada . Além disso, agora tinha perdido
quarenta contos ao comprar de um tequeteque
(mascate) um gambá que, supostamente,
soltava moedas de prata quando fazia necessidades.
Então
resolveu que não ia à Europa e
decidiu procurar uma panela com dinheiro enterrado,
não achando convida os manos para jogarem
no bicho.
Numa
praça, quando refletia sobre a injustiça
dos homens, viu um tico-tico e um chupim, este
chorava atrás do outro pedindo comida
e o pássaro tentava sustentá-lo
achando que fosse seu filhote, então
Macunaíma matou o tico-tico para acabar
com a injustiça. Mais adiante encontrou
um macaco comendo coquinhos, o bicho disse ao
herói que estava comendo seu próprios
toaliquiçus (bolsa escrotal), deu um
pouco para o herói que gostou muito e
resolveu comer os dele também. Pegou
um paralelepípedo e esmigalhou seus "toaliquiçus",
morrendo de dor.
Um
advogado encontra Macunaíma morto e leva-o
para a pensão, chegando lá, Maanape
ressuscita o mano com guaraná; acorda,
pede uma centena a Maanape e joga no bicho...
"Maanape
era feiticeiro".
Cap.XIII - A PIOLHENTA DO JIGUÊ
Jiguê
arrumou uma outra companheira de nome Susi,
a qual em pouco tempo já estava namorando
e "brincando" com Macunaíma.
Quando ia à feira comprar macacheira,
levava o herói junto e com ele brincava
toda a tarde. Jiguê, desconfiado, deixa
a companheira em casa e passa a fazer a feira
sozinho, enquanto Susi fica em casa catando
os piolhos da cabeleira vermelha que eram muitos.
Desconsolado com a traição de
Susi dentro de sua maloca, manda-a embora e
ela sobe ao céu, trasnformada em uma
estrela que pula.
Cap.XIV - MUIRAQUITÃ
Fica
sabendo através dos jornais que Piaimã
voltou da Europa.
Neste
capítulo, o narrador explica por que
existe o sono e o homem não pode dormir
em pé.
Andando,
o herói vê uma casal brincando
na beira da lagoa e aproxima-se pedindo um cigarro,
o moço diz que não tem e Macunaíma
resolve fumar o seu de palha que traz escondido.
Esperando dar a hora de ir à casa do
gigante ele conta uma história ao casal,
explicando que o automóvel, antigamente,
era uma Onça parda que perseguida por
uma tigre preta resolveu colocar quatro rodas
nos pés, tomar óleo de mamona,
comer um motor morder dois vagalumes...Assim,
transformando-se na máquina automóvel.
"Dizem
que mais tarde a onça pariu uma ninhada
enorme. Teve filhos e filhas. Por isso que a
gente fala "um forde" e "uma
chevrolé".
Depois
da prosa, o gigante chegou . Observando os três
parados perto de sua casa, convidou-os para
entrar. Perguntou ao moço se queria balançar
e o moço subiu no balanço do gigante,
porém a velha Ceiuci estava preparando
uma macarronada e esperava o sangue do moço
para engrossar o caldo. Piaimã deu-lhe
um empurrão e jogou-o na macarronada
fervendo Agora queria pegar o herói,
porém este se recusava a balançar,
fez manha e convenceu o gigante a balançar
primeiro. A velha preparou o panelão
sem saber quem viria engrossar o caldo. De repente,
Macunaíma deu um solavanco no gigante
e empurrou-o dentro da macarronada da velha
Ceiuci
Então
Macunaíma matou o gigante comedor de
gente e recuperou sua muiraquitã.
"Num
esforço gigantesco inda se ergueu do
fundo do tacho. Afastou os macarrões
que corriam na cara dele, revirou os olhos pro
alto, lambeu a bigodeira:
-
Falta queijo! Exclamou...
E
faleceu."
Cap. XV - A PACUERA DO OIBÊ
Recuperado
o talismã, resolvem voltar para a selva.
Na despedida repete pela última vez a
sua definição sobre o país:
"Pouca saúde e muita saúva,os
males do Brasil são..."
Levou
com ele um revólver e um relógio
que pendurou nas orelhas, um galo e uma galinha
Legorne e a muiraquitã pendurada no beiço.
Na
volta, pelo Araguaia, pegou a violinha e cantou
cantigas tristes e sem sentido, enquanto ia
sendo acompanhado pela comitiva de pássaros
que o protegia de Sol. Lembrava da donas de
pele alvinha e sentia saudades de SP. Perto
do mato pegou Iriqui e procurou um lugar para
passar a noite.
Em
um rancho, encontrou o monstro Oibê que
estava fazendo uma pacuera . Disse que estava
com fome e o monstro deu-lhe cará com
farinha, água e arrumou um lugar para
o herói dormir. Macunaíma roubou
a pacuera de Oibê e comeu-a. Perseguido
pelo monstro, vomita tudo para se livrar.
Na
correria encontrou uma princesa, brinca com
ela e abandona Iriqui que fica desconsolada,
por isso resolve subir ao céu. "E
o Setestrelo".
Cap.
XVI - URARICOERA
Foram
chegando perto do Uraricoera e Macunaíma
já começa a reconhecer o lugar,
porém muita coisa havia mudado e o herói
chorou. No outro dia, enquanto todos se ocupavam
com algum serviço, Macunaíma deu
uma chegadinha até a boca do Rio Negro
para buscar a consciência deixada na ilha
de Marapatá; não achando, pegou
a de um hispano-americano.
Jiguê
encontra uma cabaça encantada que pertence
ao feiticeiro Tzaló que tem ma perna
só e, com ela, consegue pescar muitos
peixes, mas Macunaíma, roubando a cabaça
encantada perde-a no rio e Jiguê fica
furioso e deixa todos com fome. Para se vingar
do mano, Macunaíma transforma uma presa
de sucuri em anzol e pede para que espete a
mão de Jiguê. Machucado com o anzol,
Jiguê tenta curar a ferida, mas esta transforma-se
em uma lepra que devora todo o corpo de Jiguê,
deixando apenas sua sombra. A princesa ficou
com raiva do herói porque ultimamente
andava brincando com Jiguê e ordenou que
a sombra envenenada destruísse Macunaíma;
assim a sombra virou uma bananeira carregadinha
e o herói, faminto, devorou as bananas,
adquirindo a lepra. Estando moribundo resolveu
passar a doença para sete povos. Veio
a Saúde e livrou Macunaíma da
morte.
A
sombra voltou e engoliu a princesa e o mano
Maanape, mas não conseguiu pegar o herói.
Correndo dela, Macunaíma passou por vários
lugares do Brasil, até conseguir se livrar.
Enfim, a sombra econtrou um boi, subiu nas costas
dele e não deixava que o bicho comesse
nada, assim o boi morreu e muitos urubus vieram
fazendo a festa ( aqui o narrador explica a
origem do bumba-meu-boi).
"A
sombra teve raiva de estarem comendo o boi dela
e pulou no ombro do urubu-ruxama. O pai do urubu
ficou muito satisfeito e gritou:
-
Achei companhia pra minha cabeça, gente!
E
voou pra altura. Desde esse dia o urubu ruxama
que é o Pai do Urubu possui duas cabeças.
A sombra leprosa é a cabeça da
esquerda."
Cap. XII - URSA MAIOR
Sozinho
agora e com muita preguiça, Macunaíma
amarra a rede em dois cajueiros perto de uma
pedra com dinheiro enterrado em baixo. "Que
solidão!"
O
único que lhe fez companhia foi um aruaí
(espécie de arara) muito falador, que
aprendia, repetindo, todos os casos contados
pelo herói, desde sua infância.
E todos os dias a ave repetia o caso da véspera
e Macunaíma punha-se a contar mais um.
Depois
de muitos dias na rede, comendo caju e contando
casos ao papagaio, a Sol veio fazer cosquinhas
no corpo do herói e a vontade de "brincar"
reapareceu forte em Macunaíma, então
resolveu tomar um banho frio no vale de Lágrimas
para a vontade passar. Ao olhar para o fundo
das águas viu uma cunhã lindíssima,
era Uiara que, mandada pela Sol para atrair
o herói e matá-lo, vinha dançando
e piscando até que Macunaíma pulou
no fundo das águas. Atacado pelas piranhas,
perdeu a perna deireita, os dedões, os
"cocos da Bahia", o nariz, as orelhas
e o beiço com a muiraquitã. Depois
de muito procurar, encontrou tudo e colou de
volta no lugar, menos a perna direita e a muiraquitã,
pois foram engolidos pelo monstro Ururau. Sem
um sentido agora para continuar vivendo, resolveu
ser brilho inútil lá no céu,
deixando escrito numa laje: "NÃO
NASCI PARA SER PEDRA". No céu, Pauí-Pódole
virou Macunaíma na constelação
da Ursa Maior.
EPÍLOGO
Uma
feita um homem foi lá.
.............................................
Então
o homem descobriu na ramaria um papagaio verde
de bico dourado espiando pra ele.
.............................................
O
papagaio veio pousar na cabeça do homem
e os dois se acompanheiraram. Então o
pássaro principiou falando numa fala
mansa, muito nova, muito! Que era canto e que
era cachiri com mel-de-pau,...
Tudo
ele contou pro homem e depois abriu asa rumo
de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e
eu fiquei pra vos contar a história.
Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas
folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha
e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando
na fala impura as frases e os casos de Macunaíma,
herói de nossa gente."
Considerações
gerais
"Passando
abrupdamente do primitivo solene, à crônica
jocosa e desta ao distanciamento da paródia,
Mário de Andrade jogou sabiamente com
níveis de consciência e de comunicação
diversos, justificando plenamente o título
de rapsódia, mais do que romance que
emprestou à obra.
Simbolicamente,
a figura de Macuaníma, o herói
sem nenhum caráter, foi trabalhada como
síntese de um presumido "modo de
ser brasileiro" descrito como luxurioso,
ávido, preguiçoso e sonhador:
caracteres que lhe atribuía um teórico
do Modernismo, Paulo Prado, em Retrato do Brasil(1926).
Mas o herói, em Mário, é
colocado na metrópole nova e funde instinto
e asfalto, primitivismo e modernismo.
Macunaíma,
meio epopéia, meio novela picaresca,
atuou uma idéia-força de seu autor:
o emprego diferenciado da fala brasileira em
nível culto; tarefa que deveria, para
ele, consolidar as conquistas do Modernismo
na esfera dos temas e do gosto artístico."
(Alfredo Bosi)
"Publicado
no mesmo ano de Retrato do Brasil, de Paulo
Prado, Macunaíma semelha indicar-lhe
a contraface mítica ou folclórica:
a tese das duas obras é idêntica,
nucleada em torno da luxúria, obsessão
do brasileiro e causa de todos os seus males.
Como se a rapsódia servisse de ilustração
ao ensaio, as andanças macunaímicas
são dum homem primitivo, adâmico,
sem peias, entregue desenfreadamente aos exercícios
eróticos, de onde adviriam as mazelas
que sofre. Frágil ante os perigos, salva-se
por via do embuste, da mentira ou do absurdo
das licenças míticas, que lhe
facultam atos mágicos capazes de superar
as dificuldades interpostas pelos semelhantes
e pela natureza." (Massaud Moisés)
"Macunaíma,
considerado dentro de um tipo de realismo que
lida com o maravilhoso e com o mágico,
é uma narrativa linear na medida em que
observamos o desenvolvimento de sua ação
dramática. As peripécias do herói,
vividas num tempo e num espaço mágicos,
que absorvem o mito do índio e os mitos
do povo como contraponto à mitologia
da sociedade tecnizada e de uma cultura colonizada,
revelam na construção da narrativa
a consciência da exploração
do maravilhoso e do mágico, que está,
aliás, já na própria criação
popular, fonte de Mário de Andrade, autor
erudito." ( Telê Porto Ancona Lopez)
Luci
Rocha